
Em dezembro, completei quatro anos de jornal, dois como estagiária na Revista do Correio e a outra metade, já como repórter, na editoria de Cidades. Mesmo com os desafios típicos da profissão (e são muitos), é nessa caminhada que, dia após dia, sou atravessada por experiências transformadoras, das mais trágicas às mais sublimes. Cobrir notícias locais nos permite, com o tempo, tecer uma armadura difícil de avariar, principalmente diante de acontecimentos delicados ou absurdos. A sensibilidade, no entanto, deve ser uma constante.
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Quando comecei a trabalhar em Cidades, fui avisada sobre alguns "rituais de passagem" tipicamente vividos por repórteres e estagiários da editoria. Esses ritos incluem coberturas factuais mais complexas, como crimes, acidentes graves e velórios. Normalmente, momentos como esses nos mostram a face mais sincera do sofrimento, acendendo, muitas vezes, um sentimento coletivo que clama por justiça e reparação. Como ser a mesma ao voltar de um sepultamento cuja morte foi resultado de um feminicídio?
Recordo-me de presenciar, em várias situações, cenas terríveis de perícias após crimes e sinistros de trânsito. A apuração e a reportagem são feitas com a seriedade que a profissão exige, mas não houve uma noite nessas ocasiões em que, antes de dormir, eu não lembrasse dessas imagens e daquelas pessoas. Por vezes, basta uma entrevista para nos marcar. O factual se vai, mas os olhares e as palavras permanecem na nossa memória — viram aprendizados.
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Recentemente, entrevistei um casal que perdeu a filha caçula, ainda criança, em um grave engavetamento, em 2023. A mãe, bastante emocionada, confirmou o que só aqueles que já perderam um ente querido sabem: o luto não tem fim. "Preciso fazer as pazes com a dor para ela não me consumir. Maria Flor viveu 6 anos e 2 meses e esse foi o melhor período de nossas vidas", contou. Pela primeira vez, minhas lágrimas não esperaram o fim do expediente.
Há também histórias que nos transformam pelo encantamento. Por exemplo, eu, que sempre mantive certo distanciamento de qualquer religião, me emociono com relatos de superação, nos quais a força partiu da fé, muitas vezes, o único sentimento que resta a alguém. Visitei, noutra ocasião, o Hospital de Apoio com um grupo de voluntários cujo trabalho envolve a intervenção assistida por animais. Lá, conversei com pacientes, alguns em fase final da vida, que enchiam os olhos de felicidade ao interagir com os cães. Bastava o acalento.
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Nesses quatro anos de Correio, eu me vi preenchida por relatos e acontecimentos que renderiam horas de conversas, acompanhadas de lamentos, risadas, surpresas e frustrações. As conversas, afinal, são nosso mote e, por meio dessa troca — sempre acompanhada de bloquinho, gravador, curiosidade, atenção e sensibilidade — nos tornamos escuta e voz. Somos colecionadores de histórias.

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