Artigo

Trump, o xerife do mundo

Ao atacar a Venezuela e capturar Nicolás Maduro, o presidente dos Estados Unidos violou o direito internacional, além de desprezar a soberania e a integridade territorial de outro país

presidente dos eua Donald Trump faz ameaças contra cuba -  (crédito:  SAUL LOEB / AFP)
presidente dos eua Donald Trump faz ameaças contra cuba - (crédito: SAUL LOEB / AFP)

Em menos de um ano à frente da Casa Branca, Donald Trump, provavelmente, surpreendeu até mesmo os mais pessimistas. Ao atacar a Venezuela e capturar Nicolás Maduro, o presidente dos Estados Unidos violou o direito internacional, além de desprezar a soberania e a integridade territorial de outro país. A deposição de uma liderança política, ainda que seja autoritária, revela-se ainda mais absurda quando não se apresenta nenhum plano de contingência ou proposta para a nação alvejada. Maduro caiu, mas o regime segue de pé. A vice, Delcy Rodríguez, assumiu o poder; os ministros Diosdado Cabello (Interior) e Vladimir Padrino López (Defesa), tão ou mais radicais do que o ditador venezuelano, seguem inabaláveis em seus postos de comando. Com a devida licença, parafraseando a campanha política do democrata Bill Clinton, na eleição de 1992, "é o petróleo, estúpido".

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É inadmissível que o presidente da nação mais poderosa do planeta — ou seria a China? — não leve em conta os potenciais desastres de ações bélicas na América Latina ou em qualquer outro lugar. Nos últimos dias, Trump ameaçou uma ofensiva terrestre contra cartéis do narcotráfico no México (parece ter recuado), não descartou um ataque à Colômbia (do presidente esquerdista Gustavo Petro), sinalizou com ações punitivas contra Cuba e mostrou os dentes para o Irã, no momento em que o regime teocrático islâmico reprime manifestações com violência desmedida.

É esse mesmo líder que se acha merecedor do Nobel da Paz e sugeriu a María Corina Machado que lhe entregasse todo o prêmio, depois que a líder opositora ofereceu dividir a honraria com o republicano. Um escárnio ao bom senso e à lógica. Na semana passada, conversei com venezuelanos sobre o cenário político e econômico no país. Com medo de serem identificados pelo nome completo, muitos deles asseguraram que nada mudou. A onda repressiva segue arrastando civis para as masmorras do Helicoide, o famigerado centro de tortura de Caracas; grupos armados leais ao chavismo semeiam o terror; e a economia mantém a deterioração registrada nos últimos anos.

Questionado se atacaria a Rússia para depor Vladimir Putin, Trump disse que "não seria necessário". Sabe que cutucaria um ninho de serpentes. Provavelmente acredita que a paz na Ucrânia não compensaria o risco de despertar velhos fantasmas da Guerra Fria. Ao mesmo tempo, ele faz um jogo duplo com Putin — um "bate e assopra" — e evita imiscuir-se em uma cobrança mais incisiva contra Moscou. Também desqualifica a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), pois a vê como uma ameaça real à supremacia militar norte-americana e aos anseios expansionistas da Rússia. Em relação à situação na Faixa de Gaza, a tão prometida paz não passa de utopia.

No cenário interno, Trump chancela o uso da Guarda Nacional para militarizar cidades democratas, sob a desculpa de combater a criminalidade. Pouco importa se as tropas assassinam civis e aterrorizam a população. Faltam três anos de governo. Salve-se quem puder...

 


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postado em 15/01/2026 06:02
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