OPINIÃO

E longe da casa mais vigiada?

O BBB é espelho. E o reflexo que ele oferece é incômodo porque nos obriga a encarar o quanto a violência contra a mulher ainda é relativizada, normalizada ou empurrada para debaixo do tapete. E quando ocorre dentro dos lares, na ausência de câmeras?

Logo do Big Brother Brasil -  (crédito: EdiCase)
Logo do Big Brother Brasil - (crédito: EdiCase)

O Big Brother Brasil não pode mais ser tratado apenas como um reality show de entretenimento escapista ou "apenas um jogo". Há muito tempo, o programa se consolidou como um experimento social em larga escala, capaz de revelar — sem filtros — os vícios estruturais, as violências simbólicas e as contradições mais gritantes da sociedade brasileira. O que se vê ali não nasce no confinamento: ele apenas se intensifica.

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A cada edição, o público é exposto a um desfile de agressões verbais, comportamentos discriminatórios e violações explícitas de direitos humanos. Machismo, etarismo, racismo, homofobia, gordofobia e capacitismo surgem não como exceção, mas como prática recorrente, muitas vezes travestida de "opinião", "brincadeira" ou "estratégia de jogo". O que salta aos olhos é o baixíssimo nível de letramento social, emocional e jurídico de parte significativa dos participantes. E isso é reflexo direto de um país que ainda falha em educar para a convivência democrática.

Nesse contexto alarmante, um episódio recente ultrapassou qualquer fronteira do aceitável: a tentativa de beijo cometida por um participante contra uma colega dentro da despensa da casa, em um momento em que ele acreditava não estar sendo filmado. O detalhe não é menor. A crença na ausência de câmeras revela algo ainda mais perturbador: a naturalização da violência quando se supõe não haver testemunhas — que é o que mais ocorre entre as quatro paredes de um lar, por exemplo.

O ato não foi ambíguo, nem passível de relativização. Trata-se de um crime previsto em lei, definido como importunação sexual, e que carrega consigo marcas profundas de abuso de poder, desrespeito ao consentimento e violação da dignidade da vítima. Ainda assim, a reação institucional foi tímida. A emissora limitou-se a mencionar o ocorrido, sem um posicionamento pedagógico mais firme, sem uma mediação clara com o público e sem explicitar a gravidade do ato. O fato de o participante ter pedido para sair do programa logo depois não encerra a questão, mas evidencia uma lacuna.

Quando uma situação dessa magnitude ocorre em um programa de alcance nacional, a responsabilidade da emissora não é apenas contratual ou jurídica, mas social. Silenciar, minimizar ou tratar o episódio como um "incidente" é perder a oportunidade de afirmar, de forma inequívoca, que determinadas condutas não são toleráveis em nenhuma circunstância — dentro ou fora da televisão.

O BBB, gostemos ou não, é espelho. E o reflexo que ele oferece é incômodo porque nos obriga a encarar o quanto a violência contra a mulher ainda é relativizada, normalizada ou empurrada para debaixo do tapete, desde que o agressor vista o figurino de arrependimento e "saia de cena" rapidamente. Mas violência não se apaga com edição, nem com pedidos de desculpa protocolados. E quando ocorre dentro dos lares, na ausência de câmeras?

Por isso, é fundamental que o debate extrapole os muros da casa e alcance a sociedade. Amanhã, o CB Debate, evento promovido pelo Correio, se propõe a discutir a violência contra a mulher com a seriedade que o tema exige. Mais do que um encontro, trata-se de um chamado à responsabilidade coletiva: para a mídia, para as instituições e para cada cidadão que ainda insiste em tratar agressões como ruído de entretenimento.

Enquanto o Brasil assistir calado, o experimento social continuará apenas confirmando o que já sabemos e fingimos não ver.

 

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postado em 26/01/2026 06:00
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