Visão do Correio

Segurança no trânsito precisa ser compromisso coletivo

Balanços recentes de órgãos voltados à segurança do tráfego indicam que o que tem acontecido nas estradas brasileiras está no campo do descompromisso e até mesmo da criminalidade.

Espera-se um aumento de sinistros de trânsito durante feriados prolongados. Até por uma razão matemática: mais veículos nas ruas implica em risco maior de adversidades. Mas balanços recentes de órgãos voltados à segurança do tráfego indicam que o que tem acontecido nas estradas brasileiras está no campo do descompromisso e até mesmo da criminalidade. Levantamento divulgado, nesta segunda-feira, pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) sobre o período do réveillon mostra um aumento significativo de mortes nas rodovias federais do país em relação a 2024 — sobretudo em razão de batidas frontais de veículos, ocorrência geralmente ligada a imprudências ao volante.

A corporação contabilizou 109 mortes em acidentes de trânsito entre 30 de dezembro de 2025 e 4 de janeiro último — número 38% maior que o da Operação Ano Novo de 2024-2025, com 79 óbitos. Não houve mudanças significativas na quantidade de feridos e acidentes — respectivamente, 1.315 e 1.152 na contagem mais recente e 1.339 e 1.063 na anterior —, corroborando a hipótese de que a imprudência imperou nas rodovias do país nos últimos dias. 

As três principais multas lavradas pelos agentes rodoviários também permitem tal interpretação. São elas: excesso de velocidade (23.079), não uso de cinto de segurança e equipamentos de proteção de crianças (3.470) e ultrapassagem proibida (3.438). Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul respondem por boa parte das multas por excesso de velocidade. Mas cabe lembrar que essa também é prática corriqueira no Distrito Federal. Reportagem publicada nesta segunda-feira pelo Correio mostra que, ao longo do ano passado, o Detran/DF aplicou 1.824.106 multas por esse motivo — média de quase 5 mil por dia. 

Não se pode perder de vista que esses flagrantes dependem de aparato técnico, o que faz com que o registro das multas represente um recorte subestimado do que se passa nas rodovias brasilienses e do resto do país. Especialistas discutem, inclusive, medidas para conter uma espécie de normalização de recebimento de multas em razão do excesso de velocidade. Mesmo fenômeno tem ocorrido em relação à ingestão de álcool antes de se assumir a direção de um veículo.

Ao Correio, Paulo César Marques, professor de engenharia de tráfego da Universidade de Brasília (UnB), defende que multas e outras penalidades sejam acompanhadas de medidas de educação qualificadas. "Em geral, não devem ser ações destinadas a instruir usuários, como o senso comum costuma compreendê-las, mas iniciativas que visem a sensibilizar a população, inclusive criando um ambiente que leve ao constrangimento social de quem insiste em infringir as regras de conduta", indica.

Há de se reconhecer que mudanças recentes implementadas pelo governo federal focam, entre os objetivos, na melhora da segurança do trânsito — com facilidades para a regularização de não habilitados e gratuidade na renovação da CNH de bons condutores. Além disso, o monitoramento regular das estradas mostra melhora na malha rodoviária brasileira — segundo pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgada em dezembro, 37,9% da extensão pesquisada está em condições ótimas ou boas, contra 33 em 2024; os trechos ruins ou péssimos caíram de 26,6% para 19,1%. Há, dessa forma, uma configuração que, mesmo longe do ideal, tende a favorecer deslocamentos mais seguros. Resta aos condutores se comprometerem com o mesmo propósito.  

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