
» LUCAS DE SOUZA MARTINS//Professor e pesquisador em história diplomática pela Temple University (EUA)
» NILZA VALÉRIA ZACARIAS// Jornalista, é coordenadora nacional da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito
A morte de Jesse Jackson, pastor batista, líder dos direitos civis e duas vezes candidato à Presidência dos Estados Unidos, não deveria ser lembrada apenas como o fim de uma era geracional, mas como um alerta para o presente. Jackson, que emergiu nos anos 1960 como uma das vozes mais influentes da luta por igualdade racial e econômica, passou a vida ensinando algo que o Brasil parece ter esquecido: sociedades só mudam quando rompem suas bolhas morais e políticas. Ele mostrou que nenhuma transformação nasce do conforto identitário, ou da autossuficiência dos grupos que falam apenas para si mesmos. Justiça, para Jackson, era obra de coalizões improváveis, de alianças que atravessam fronteiras raciais, religiosas, econômicas e culturais. E é justamente essa lição que precisamos recuperar.
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A imagem de Jackson em Iowa, em 1984, falando a agricultores brancos devastados pela crise agrícola, sintetiza essa visão. Ali estava um líder negro vindo do Sul segregado, estendendo a mão a trabalhadores que, em tese, não pertenciam à sua base natural. Aquele gesto não era ingenuidade; era coragem moral e estratégia política. Jackson sabia que a injustiça é estrutural e que a dignidade humana não se organiza em categorias partidárias. Ele falava para os de baixo, independentemente da cor da pele, porque compreendia que a clivagem decisiva não é ideológica, mas entre os que sofrem e os que lucram com o sofrimento.
Essa leitura, que unia análise social e convicção espiritual, orientou a criação da Rainbow Coalition, uma aliança inédita que reuniu afro-americanos, latinos, sindicalistas, ambientalistas, agricultores, jovens e setores urbanos progressistas. Jackson recorria a uma base bíblica clara, expressa no livro de Gênesis, que afirma que Deus criou o ser humano a sua imagem e semelhança, conferindo dignidade intrínseca e sagrada a toda vida humana. Para ele, igualdade não era uma abstração, mas um compromisso. E compromissos só se sustentam quando atravessam fronteiras identitárias. Sua coalizão afirmava, na prática, o que Gálatas 3:28 formula de modo contundente: todos são um.
Essa travessia é também a história do Brasil. A desigualdade brasileira continua a ser sustentada por raízes históricas profundas, muitas vezes reforçadas por setores que ainda reproduzem visões hierárquicas sobre trabalho, mérito e pertencimento. Quando um dirigente político afirma que "ócio demais faz mal" e questiona qual seria o lazer possível para um pobre do sertão, não se trata apenas de um comentário infeliz sobre produtividade; é a expressão de uma lógica que naturaliza a ideia de que alguns têm menos direito à vida plena. Nesse ambiente, marcado por iniquidades persistentes e por uma compreensão limitada do que significa dignidade, a política perde seu horizonte transformador e a esperança coletiva se enfraquece.
Mas há outra possibilidade. O legado de Jackson nos lembra que a força transformadora nasce quando olhamos para os vulneráveis, os órfãos, as viúvas, os estrangeiros e os pobres, não como destinatários de caridade, mas como sujeitos políticos. A fé, nesse sentido, não é fuga do mundo, mas compromisso com ele. O ativista e ministro cristão John Perkins, contemporâneo de Jackson, dizia que não basta dar o peixe nem ensinar a pescar; é preciso perguntar quem é o dono do lago. E lutar para que o lago seja de todos.
O legado de Jesse Jackson nos lembra que a política é um espaço de reconstrução coletiva permanente. Que grandes sociedades também caem, mas podem se levantar quando reconhecem sua própria potência através de sua diversidade. O Brasil ainda pode muito, mas só poderá se escolher, como Jackson escolheu, falar para além da própria bolha, construir alianças improváveis e reconhecer que somos, antes de tudo, iguais em dignidade e direitos, iguais na tarefa de reescrever a história.
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