
» ALLINE CEZARANI CEO da Rede Santa Catarina
Por muito tempo, acreditamos que o momento mais importante no enfrentamento da violência contra a mulher era aquele em que ela pedia ajuda. Hoje, depois de conhecer tantas histórias, acredito que esse momento, na verdade, acontece muito antes: é quando uma mulher descobre, pela primeira vez, que aquilo que ela vive tem nome. Violência. A Lei Maria da Penha completou duas décadas. É uma das legislações mais importantes da nossa história, responsável por transformar a forma como o Brasil enfrenta a violência contra a mulher e por criar mecanismos fundamentais de proteção. Mas, 20 anos depois, uma pergunta continua a nos inquietar: por que tantas mulheres demoram para buscar ajuda?
Parte da resposta está no fato de que muitas não reconhecem o que vivem. Segundo pesquisa Datafolha e Movimento Mulher 360, embora a violência contra a mulher seja considerada uma das formas mais graves de criminalidade do país, uma parcela significativa dos brasileiros não reconhece como violência atitudes como controlar o salário da parceira ou impedi-la de sair sozinha para uma confraternização. Isso mostra que a violência começa antes mesmo de ser percebida como tal, escondida em comportamentos tratados como rotina.
O dado revela algo que vai além da segurança pública: ainda naturalizamos formas de violência que corroem a autonomia feminina. A agressão física é o ponto de ruptura, quase nunca o de partida. Antes dela, há o controle financeiro. A humilhação, isolamento, vigilância constante. A ameaça que não se concretiza, mas passa a silenciar e orientar cada decisão. Essas marcas não aparecem em exames de corpo de delito. Aparecem na forma como alguém deixa de falar, sorrir e confiar em si.
Nos últimos dois anos, vimos essa realidade por meio do Programa Florescer, criado para acolher colaboradoras em situação de violência doméstica. Mais que oferecer apoio psicológico, social e jurídico, a iniciativa ensinou algo que não aparece nos manuais: antes de ajudar a mulher a romper com o agressor, muitas vezes é preciso ajudá-la a compreender seus direitos e que aquilo que vive não é normal.
Durante o atendimento, boa parte revela que o companheiro controla seu dinheiro "porque ele sempre organizou as contas". Outras contam que deixaram de ver familiares para evitar conflitos, que precisam mostrar mensagens ou esconder onde estiveram. Narram as situações como quem descreve a rotina. Não porque aceitem a violência, mas porque nunca aprenderam a reconhecê-la.
Quando a mulher compreende que abusos psicológicos, morais e patrimoniais são formas de violência, passa a enxergar sua própria história sob outra perspectiva. O primeiro passo nem sempre é denunciar. Por vezes, é voltar a confiar na própria percepção, recuperar a capacidade de decidir e entender que existe uma rede preparada para apoiá-la, disposta a respeitar seu tempo e suas escolhas.
Imaginamos, por anos, que a porta de entrada para a rede de proteção fosse apenas a delegacia, o júri ou serviços especializados. E sim, eles são indispensáveis. Mas o pedido de ajuda pode surgir onde menos se espera: na empresa, no hospital, na escola. Na conversa com um colega. Criar ambientes seguros não significa substituir o papel do Estado. Significa reconhecer que a violência atravessa todos os espaços da sociedade e que temos responsabilidade e dever em ajudar a interrompê-la.
Esse é um dos grandes desafios para os próximos anos da Lei Maria da Penha: fazer com que todas consigam reconhecer quando seus direitos passam a ser violados. Porque nenhuma mulher deveria precisar esperar a primeira agressão para entender que a violência já havia começado.

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