Nos últimos dias, estive envolvida com a publicação da série de reportagens do jornalista e mestre em história Jorge Henrique Cartaxo aqui no Correio Braziliense. É muito importante para este jornal, guardião da memória da capital, recuperar informações precisas e confiáveis sobre a morte de um dos políticos mais emblemáticos de todos os tempos, em especial para Brasília. Em 22 de agosto de 1976, morria Juscelino Kubitschek. Depois de 50 anos, Jorge resgata os últimos dias e horas antes do acidente fatal na Via Dutra, entre Rio e São Paulo. Relatório da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos concluiu que JK foi assassinado por agentes da ditadura. Convido a todos a lerem os artigos em nosso site.
Resgatar JK é resgatar o espírito daquele tempo de gestação, criação e construção de Brasília. É sempre olhar Brasília como um projeto, que embora fosse sabido que tomaria forma e cresceria para além do plano original, seguiria bases muito firmes — do desenvolvimento; da arquitetura, da arte e do paisagismo magistrais; da qualidade de vida; do encontro do Brasil em um só espaço ao mesmo tempo. Quanta gente diferente não veio parar aqui!
Juscelino foi um político raro. Fiquei pensando o que diria o fundador de Brasília ao ver como o BRB foi dilapidado por operações fraudulentas com o extinto Banco Master e como as negociações para salvá-lo devem ser tocadas com a maior seriedade e transparência, bem esclarecidas e próximas da população. O que há, afinal, de realidade nos discursos de salvação ou mesmo naqueles que já pregam a falência total desse ativo de Brasília? Há de se desconfiar dos extremistas do caos.
Há mais suspeitos ainda de participação nesse esquema imundo que se apropriou do banco. A Polícia Federal pediu mais prazo para conclusão das investigações. Todos que articularam o maior assalto aos cofres públicos da cidade devem ser punidos com o rigor da lei. Ainda vai demorar para termos a dimensão real desse roubo. Mas é inconteste a traição ao povo de Brasília e à sua própria história. Essa cidade não nasceu apenas para saciar a volúpia de sempre dos políticos. Dito isso: vamos chamar a população...
O que diria JK sobre os debates sempre com argumentos falaciosos a respeito do fim do Fundo Constitucional do Distrito Federal? A quem interessa de fato o dedo apontado para a capital do país? Quem lucraria com o sufocamento de Brasília? Acho que esses tempos em que vivemos, tão desafiadores, exigem uma tomada de consciência sobre muitas coisas, tal o estágio de deterioração do mundo e mesmo da humanidade.
Mas particularmente nós, brasilienses, precisamos de muita lucidez para tirar nossa cidade da linha de tiro, dos ataques frequentes à reputação de Brasília e das mãos de gente desonesta. Lutamos muito pela autonomia política do Distrito Federal; lutamos mais ainda contra a ditadura militar. Sem olhar o passado, não há futuro promissor. O presente, mais do que nunca, tem que ser mão na consciência não só na hora do voto. Eleição não é acerto de contas com políticos, mas com a história. E é isso que vamos debater no Pensar Brasília, evento que reunirá notáveis de vários setores para discutir o que é preciso fazer para a capital fundada por JK permanecer como capital referência de um país ousado, inclusivo, democrático e que repudia corrupção.
