
Por Francisco Balestrin, presidente da Fesaúde e do SindHosp (Federação e Sindicato de Hospitais, Clínicas, Laboratórios e Estabelecimentos de Saúde no Estado de São Paulo)
A campanha eleitoral começou e ainda são escassas as propostas capazes de enfrentar de forma estruturante os principais desafios do país. Na saúde, apontada novamente pelo Datafolha, em março deste ano, como a maior preocupação dos brasileiros, os planos de governo apresentados pelos candidatos à Presidência da República ainda não trazem iniciativas capazes de ampliar o acesso, reduzir filas, assegurar o cuidado adequado no momento certo, integrar dados e, principalmente, criar mecanismos efetivos para combater o desperdício.
O SUS é um dos maiores sistemas públicos universais de saúde do mundo e um patrimônio social da nação. Por ano, a saúde movimenta no país 9,4% do PIB, ou R$ 1,19 trilhão (2025). Desse montante, apenas 42,2% correspondem a investimentos públicos realizados pela União, estados e municípios. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que adotam sistemas universais de saúde, a participação dos recursos públicos supera, em geral, 70%. A comparação evidencia uma realidade conhecida: o SUS permanece subfinanciado diante das responsabilidades que lhe foram atribuídas pela Constituição e das crescentes demandas da sociedade brasileira, acentuadas, principalmente, pelo envelhecimento populacional e pela maior prevalência de doenças crônicas.
A questão, porém, não é apenas quanto se investe, mas como esses recursos são aplicados e gerenciados. Segundo estudo da OCDE, entre 20% e 30% do gasto total de sistemas de saúde como o brasileiro é desperdiçado em práticas que não produzem valor proporcional para o cidadão e em decorrência da corrupção. No Brasil, essa estimativa representa entre R$ 240 bilhões e R$ 360 bilhões por ano. É um volume superior ao Orçamento federal de 2025 para a Educação (R$ 226 bilhões), maior do que o gasto público total com segurança (R$ 163,1 bilhões em 2025) e equivalente à despesa assistencial anual da saúde suplementar, de aproximadamente R$ 320 bilhões, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Nesse cenário, torna-se urgente e indispensável aprimorar a eficiência na utilização dos recursos já disponíveis. Não se trata de defender que o país deixe de investir em saúde. Ao contrário: é preciso investir mais e, ao mesmo tempo, fazer com que cada real aplicado produza mais saúde para a população. É com esse propósito que a Federação e o Sindicato de Hospitais, Clínicas, Laboratórios e Estabelecimentos de Saúde do Estado de São Paulo (Fesaúde e SindHosp), com o apoio da ARCA, think tank da saúde, apresentam aos candidatos à Presidência da República e ao Governo do Estado de São Paulo os cinco Inegociáveis da Saúde — 5is: paciente único, dados estruturados, acesso qualificado, cuidado padronizado e desperdício controlado.
Fruto da contribuição de especialistas, gestores, profissionais de saúde e lideranças que vivenciam diariamente os desafios e as potencialidades do sistema de saúde brasileiro, os 5is são pilares estruturantes para a transformação do sistema. Mais do que propostas isoladas, funcionam como uma engrenagem: a ausência de qualquer um deles reduz substancialmente a efetividade dos demais.
A saúde exige políticas de longo prazo — justamente aquelas que rendem poucos votos. Em um país marcado por profundas desigualdades regionais, não cabem soluções simplistas ou respostas imediatas para problemas que foram construídos ao longo de décadas. O Brasil tem uma janela cada vez mais estreita para enfrentar questões estruturais do seu sistema de saúde antes que problemas previsíveis se transformem em crises onerosas e de difícil reversão.
Há quase dois mil anos, o filósofo Sêneca escreveu: "Não é que temos pouco tempo, mas perdemos muito". Na saúde, o Brasil já perdeu tempo demais. O desafio desta eleição é fazer com que o próximo governo não apenas trate os sintomas, mas tenha coragem para enfrentar as causas da doença.

Opinião
Opinião
Opinião
Opinião
Opinião
Opinião