
Muitas vezes, tenho saudade da criança que fui. Aquele menino ao mesmo tempo inocente e curioso, bem-humorado e pronto para ajudar as pessoas. Não, eu não era um santo. Também recorri a pequenas mentiras, tive inveja dos mais bonitos, mais altos ou mais fortes, conversava mais do que devia em sala de aula... Mas na contabilidade geral, acho que tinha mais crédito do que débito.
Todos temos lembranças da infância, boas e ruins. Nenhuma infância é completamente instagramável — e as fotos em preto e branco ou em cores, em papel ou digitais, não mostram nem metade do que fomos, mas atiçam nossa memória. Neste Dia da Criança, é gostoso lembrar de joelhos ralados temerosos do Merthiolate ou do "x" em vermelho demarcando os erros das provas.
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O problema é que, adultos, abandonamos totalmente as boas características da infância. E acho que não precisava ser assim. Defendo que é possível manter algumas pitadas de inocência, de puro deleite, do olhar sem julgamento, de espírito de grupo ou de menos desconfiança. Por alguns momentos, é possível deixar de lado a couraça adquirida com o passar dos anos e se permitir momentos de inconsequência, de preferência em ambiente protegido.
Cada um sabe como voltar à própria infância. No meu caso, basta uma colherada de doce de leite na boca e retorno ao prazer que era saborear o doce aos poucos, economizando, torcendo para que ele nunca acabasse. Comer os pratos prediletos de vez em quando é uma ótima maneira de voltar à infância, ativando as boas lembranças por meio do paladar e do olfato. Na minha lista ainda tem geleia de mocotó em copo de vidro e doce de batata-doce em lata.
Retornar a lugares significativos da infância também pode ser uma boa estratégia. É claro que a praia parece bem menor do que quando a gente tinha 8 anos, as ondas estão menos perigosas e o picolé já não provoca tanto encantamento. Não importa. Deixar-se levar por sensações antigas, repetir atitudes sem o medo do ridículo — catar conchas, por exemplo. Tudo fica com cheiro de infância.
Precisamos recuperar a espontaneidade deixada pra trás pela vida adulta. Espontaneidade não é fazer o que se quer sem se importar com mais ninguém — é, antes de tudo, procurar se adequar às situações trazendo o melhor de si. A criança sabe muito bem como fazer, ao contrário do adulto, que vai abandonando isso pelo caminho. Podemos voltar só um pouquinho, lembrar de como éramos livres, e colocar só mais um pouco de espontaneidade no nosso dia a dia. Crianças e adultos agradecem.
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