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Big techs e eleições no Brasil

A interferência das empresas de redes sociais na vida política do país, especialmente nas eleições, indica a urgência da defesa de nossa soberania

. -  (crédito: Caio Gomez)
. - (crédito: Caio Gomez)

Roseli Fígaro, professora titular na ECA-USP; e Tânia Caliari, doutoranda na FFLCH-USP

 

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As eleições brasileiras de 2026 acontecem num contexto geopolítico de agressivo reposicionamento dos Estados Unidos no cenário mundial, que tem implicado no seu avanço sobre os países da América Latina. O Brasil é a peça que falta — juntamente com México e Uruguai — para o alinhamento do subcontinente junto às políticas do Departamento de Estado dos EUA.

A reeleição do presidente Lula no próximo domingo pode significar um elemento de resistência a esse avanço e um freio nas pretensões imediatas dos EUA sobre as reservas de terras raras, os minerais que fazem sua indústria tecnológica e armamentista dependentes da China, o maior produtor mundial desses minerais críticos.

A pretensão de interferência na soberania nacional foi listada sem cerimônia nos 21 itens apresentados em setembro pelos EUA como condições para a negociação das tarifas de 50% sobre exportações de produtos brasileiros. Entre os itens, está a proteção dos interesses das big techs, que têm enfrentado iniciativas regulatórias no Brasil, como o Marco Civil da Internet e sua atualização que mudou recentemente o regime de responsabilização das plataformas sobre conteúdos postados, o Projeto de Lei de Mercados Digitais (PL 4675/2025), e o ECA Digital. A nona exigência da lista dos EUA versa sobre decisões, multas e penalidades relacionadas a conteúdos publicados em redes sociais, impondo regras para o Brasil.

Estando na base de sustentação do governo Trump, as big techs têm interferido no processo eleitoral em diferentes níveis, com destaque para o favorecimento e impulsionamento do tráfego de conteúdos de políticos da extrema-direita em detrimento do alcance do material da campanha do presidente Lula.

Antes do primeiro turno das eleições, um teste realizado pelo Sleeping Giants Brasil mostrou que as IAs generativas ChatGPT, Gemini e Grok descumpriam resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e memorandos de cooperação assinados pelas empresas que proíbem a produção e circulação de conteúdos enganosos e de deepfakes. Ao longo da campanha, foram crescentes as denúncias contra as redes sociais, relatando conteúdos removidos sem justificativas, contas bloqueadas, restrições de alcance, publicação e de impulsionamento de conteúdos relativos à campanha de Lula ou críticos ao candidato Flávio Bolsonaro, do PL.

Na reta final do período eleitoral, o ataque mais pesado veio da Meta. A organização não governamental CTRL Z, que atua em defesa de direitos digitais, coletou até agora mais de 1,1 mil relatos de bloqueios, posts removidos, restrições de funcionalidades e queda de alcance que afetaram pelo menos 155 páginas ligadas a movimentos sociais e estudantis que apoiam Lula. Segundo a organização, a Meta baniu, restringiu ou suprimiu ainda, de forma unilateral e antes de qualquer decisão judicial, 17 perfis cuja remoção havia sido solicitada pela campanha de Flávio Bolsonaro. 

Outra restrição verificada por inúmeros testes feitos por usuários foi para a geração de cards e outras peças gráficas favoráveis a Lula pela IA da Meta, enquanto esta atendia rapidamente aos prompts destinados às peças de Flávio Bolsonaro. Diante das evidências, a CRT Z  lançou a campanha "Meta, tire a mão de nossa eleição", com petição para pressionar o TSE para que obrigue a empresa a prestar esclarecimentos.  

A interferência dessas empresas comprova que elas não são meras mediadoras do debate público e o quanto somos dependentes dessas estruturas para encaminhar processos importantes, seja na vida privada, seja na vida pública. 

Como e quando a sociedade vai se dar conta da concentração de poder e dinheiro que está nas mãos dessas empresas de plataformas, na medida em que elas capturam todos os dados gerados de nossas interações na internet? Os dados das pessoas são valiosos e movem a economia e a política.

Repetimos os comentários dos militantes nas postagens nas redes diante das intervenções das big techs no processo eleitoral: por que o Brasil não tem uma rede social própria? A pergunta de fundo é: quando haverá investimentos e direcionamento necessários à pesquisa e à construção de infraestrutura digital brasileira e soberana? 

 

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Por Opinião
postado em 23/10/2026 05:00
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