Nós já sabíamos que seriam eleições extremamente disputadas, de resultado incerto e com debates acalorados, ainda mais do que em 2022. Mas creio que ninguém previu o tamanho e a intensidade do levante que se seguiu ao primeiro turno. Lula reeleito com 4 milhões de votos a mais do que o adversário, uma virada inédita e nada previsível, que só foi possível graças à mobilização popular. Foi a reeleição de Lula, mas foi também o despertar de um povo. E, quando ele acorda, demora a voltar a dormir. Ainda bem. Temos muito a fazer.
Muitos disseram que foram as eleições do medo. O temor do fascismo e da perda de direitos conquistados. É mesmo um fato. Mas 2026 não ficará marcado apenas pelo medo, mas por um lindo movimento espontâneo e coletivo, nascido na juventude, encorpado pela sociedade, que foi às ruas e às redes, enfrentando todo tipo de boicote, em especial das big techs, que manipulou o algoritmo às claras para expandir o alcance da desinformação e sabotar a esquerda. E sem esquecer os 60 , que viveram a ditadura e foram às urnas com a memória de quem conhece o preço da liberdade e não aceita retrocessos. O que veio e virá depois dessa primavera já é história.
As eleições no Brasil levaram o mundo a acreditar que é possível vencer a extrema-direita. Os gestos, as ruas tomadas, as estratégias de Janones e do exército que se impôs gigante e incansável têm sido replicados mundo afora. Nunca se falou tanto em política, nunca se debateu tanto. Isso é extraordinário e mostra o tamanho e a força do Brasil, um país que não se curva e serve de exemplo ao mundo.
Também estamos vendo as consequências do lado perdedor: da vergonhosa fuga de Flávio Bolsonaro e sua patética carta-manifesto, proclamando-se um líder que nunca foi, aos ataques a indígenas, boicotes a comerciantes, demissões e denúncias de assédio eleitoral. Leis existem para punir tudo isso, mas é preciso cobrar para que sejam aplicadas de forma exemplar.
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Uma frente ampla pela democracia.
Sabemos que será um mandato regido por Lula, mas orquestrado por uma massa sedenta por mudanças, sobretudo no jeito de fazer política. Vamos ver se o presidente entendeu o recado do povo, que o levou nos braços ao quarto mandato. O Congresso Nacional com a maior oposição da história também precisará entender que não representa apenas uma força política, mas uma população que está pronta para cobrar.
É notório também que restou das urnas muito desamor, raiva e briga. E tudo isso pesa, cansa e entristece. Para uns e outros, o processo depurou relações de amizade e familiares. Mas, para outros, afastou amores, rompeu laços importantes e impôs um distanciamento que pode cobrar um preço alto lá na frente. Ou seja, tem festa, mas também tem luto. Vamos precisar conviver com os sentimentos conflitantes, mas também abrir o coração para pacificar, perdoar e seguir adiante com mais amor e menos dor.
Em momentos intensos como os que estamos vivendo, pego as lições da canoa havaiana, que me salvou em tantos momentos durante esse desgastante processo eleitoral: em grupo, com cada um fazendo sua parte, o conjunto em harmonia e bem coordenado, a gente tem a certeza de que vai chegar ao lugar pretendido. Um povo unido tem mais conquistas. Que saibamos perdoar e conviver democraticamente com quem pensa diferente. Iremos mais longe assim.
