Eleições

Com desistência de Doria, PSDB enfraquece e pode virar "partido satélite"

Cientistas políticos veem saída do ex-governador João Doria, anunciada nesta segunda-feira (23/5), como perda de protagonismo do PSDB. Legenda apresenta candidatos ao Planalto desde 1989

Victor Correia
postado em 23/05/2022 16:20 / atualizado em 23/05/2022 16:22

A desistência do ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB) da corrida ao Planalto, anunciada nesta segunda-feira (23/5), marca uma virada na corrida presidencial — especialmente na terceira via. A decisão ocorre após uma campanha conturbada do tucano, cuja pré-candidatura sofreu forte resistência por parte de seu partido.

A senadora Simone Tebet (MDB) foi escolhida na última quarta (18) como a cabeça da chapa pelo MDB, PSDB e Cidadania, mesmo tendo desempenho mais baixo nas pesquisas eleitorais até agora. A tese é de que Tebet tem baixa rejeição e grande potencial para conquistar votos com a intensificação da campanha.

Especialistas avaliam que a situação é quase uma inversão de papéis entre PSDB e MDB, reflexo de um enfraquecimento do partido tucano nos últimos anos. Enquanto os tucanos sempre tiveram protagonismo nas eleições presidenciais e o MDB era visto como uma peça auxiliar do governo, a situação na terceira via agora mudou.

"É um movimento natural. Segundo as evidências mais recentes, a candidatura do Doria dentro do partido foi bastante tumultuada, desde as prévias partidárias, até a execução das prévias. Sem contar as disputas públicas que o ex-governador fez com o próprio PSDB", diz o cientista político e sócio da Tendências Consultoria Rafael Cortez.

"Partido satélite"

Para o analista, o PSDB sai enfraquecido da disputa. A legenda apresentou candidatos à Presidência em todas as eleições desde 1989, e agora caminha para se tornar um "partido satélite". Pelo acordo com MDB e Cidadania, a sigla deve indicar o pré-candidato a vice na chapa com Simone Tebet.

Rafael Cortez avalia que o enfraquecimento do partido e o acirramento das disputas internas é consequência da última eleição presidencial, em 2018. Desde então, faltam lideranças internas fortes e um projeto sólido à Presidência.

"É resultado da cena política pós Lava-Jato. Mesmo diante do seu maior rival [o PT], [o PSDB] não conseguiu crescer no momento dessa rivalidade. Pelo contrário, fez algumas escolhas estratégias que abriram o caminho da centro-direita para a entrada do presidente Bolsonaro", afirma Cortez. "É uma derrota politica muito importante, que provavelmente vai selar o destino, no curto prazo, de um partido muito enfraquecido."

A legenda precisa avaliar agora qual será a estratégia para as eleições, se seguirá com o acordo com MDB e Cidadania ou se decidirá por uma candidatura própria. Para o advogado e cientista político Nauê Bernardo, "o que vai precisar ficar muito expresso é o arranjo politico-partidário. O PSDB vai ter que tomar essa decisão uma situação com os principais líderes [da corrida presidencial] cada vez mais definidos".

Sobre o que Doria deve fazer após a desistência, Nauê avalia que "é muito difícil dizer. O Doria traz consigo uma trajetória até certo ponto atípica dentro da política. Ele vem dessa nova geração de políticos de 2016, direto para a prefeitura da maior cidade do país. Depois ele se cacifa como um político que poderia ser muito competitivo para a Presidência, e vence a disputa ao governo de São Paulo. Foi uma ascendência muito rápida".

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