diplomacia

Inação implica perdas de vidas inocentes, diz Mauro Vieira

Na abertura da Cúpula de Chanceleres do G20, no Rio de Janeiro, ministro critica a "inaceitável paralisia" do Conselho de Segurança da ONU em relação a conflitos armados e defende reforma na governança global

Vieira na reunião com chanceleres, na Marina da Glória:
Vieira na reunião com chanceleres, na Marina da Glória: "O Brasil não aceita um mundo em que as diferenças são resolvidas pelo uso da força militar" - (crédito: Márcio Batista/MRE)
postado em 22/02/2024 03:55

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reiterou a defesa, feita pelo Brasil, de uma reforma da governança global e criticou a atuação da Organização das Nações Unidas (ONU) em relação à resolução de conflitos armados, em especial, os envolvendo Rússia e Ucrânia e no Oriente Médio.

"As instituições multilaterais do mundo não estão preparadas para lidar com os desafios atuais, como demonstrado pela inaceitável paralisia do Conselho de Segurança (da ONU) em relação aos conflitos em curso. Esse estado de inação implica diretamente em perda de vidas inocentes", enfatizou, na abertura da Cúpula de Chanceleres do G20, nesta quarta-feira, no Rio de Janeiro.

Segundo ele, "o Brasil não aceita um mundo em que as diferenças são resolvidas pelo uso da força militar". E apelou por cooperação e diálogo. "Uma parcela muito significativa do mundo fez uma opção pela paz e não aceita ser envolvida em conflitos impulsionados por nações estrangeiras. O Brasil rejeita a busca de hegemonias, antigas ou novas. Não é do nosso interesse viver em um mundo fraturado."

Vieira destacou que, segundo estimativas, o mundo atingiu um número recorde de conflitos em andamento, acima de 170, "enquanto as tensões geopolíticas também estão aumentando".

Ante esse cenário, de acordo com Vieira, o G20 — grupo que reúne as maiores economias do mundo — tem prerrogativa para tratar dos conflitos. Lembrou que as Nações Unidas foram criadas como a organização que deve lidar com as questões de paz e segurança. "O G20, por sua vez, foi concebido como fórum privilegiado para discussões sobre questões financeiras e de desenvolvimento", ressaltou. "Diante do quadro que vivemos, no entanto, esse grupo (G20) é hoje, possivelmente, o fórum internacional mais importante, onde países com visões opostas ainda conseguem se sentar à mesa e terem conversas produtivas sem, necessariamente, carregar o peso de posições rígidas que têm impedido os avanços em outros fóruns, como no Conselho de Segurança das Nações Unidas", avaliou.

O chanceler frisou que, enquanto o norte está unido em torno de uma aliança militar, o sul é coberto por diversas camadas e zonas de paz e cooperação. "Os casos bem-sucedidos de cooperação pacífica da América Latina, da África, do Sudeste Asiático e da Oceania fazem com que as vozes dessas regiões devam ser ouvidas nos foros relevantes com especial cuidado e atenção", pontuou.

Ele disse não ser minimamente razoável que o mundo ultrapasse, e muito, a marca de US$ 2 trilhões em gastos militares a cada ano.

Fome

O ministro abriu a reunião pedindo aos chanceleres que trabalhem, nos próximos meses, por uma aliança global contra a fome e a pobreza, temas prioritários para o Brasil à frente da presidência do G20.

"Se a desigualdade e as mudanças climáticas, de fato, constituem ameaças existenciais, não consigo evitar a sensação de que nos faltam ações concretas sobre tais questões. Temos problemas urgentes a resolver no tocante ao desenvolvimento, à luta contra a fome, a pobreza e a desigualdade", enumerou. "Temos desafios gigantescos em relação às mudanças climáticas e ao meio ambiente. Essas são as guerras que devemos travar em 2024", alfinetou.

A reunião desta quarta-feira com os chanceleres é uma preparação para a cúpula do G20, o encontro dos chefes de Estado das maiores economias do planeta, que ocorrerá em novembro, também no Rio de Janeiro.

O Brasil assumiu em dezembro a presidência rotativa do bloco e, até o evento principal entre as nações, conduzirá dezenas de encontros na cidade carioca, com o objetivo de organizar a cúpula e antecipar temas que serão discutidos em novembro.

O encontro teve a presença do secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken; do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov; além dos representantes de China e de países europeus.

 

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