
A divulgação do laudo médico pericial da Polícia Federal sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro trouxe à tona o termo "obesidade clínica", listado como um dos sete problemas crônicos de saúde do periciado. O documento aponta que, embora Bolsonaro não precise de transferência hospitalar imediata, os cuidados devem ser intensificados para evitar eventos graves, como um infarto.
Para entender o que fundamenta esse diagnóstico, é preciso observar uma mudança recente na medicina. Luiz Fernando Córdova, diretor societário da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), explica que o entendimento de obesidade como apenas "um corpo muito grande ou peso elevado" foi modificado no ano passado. "O Conselho Federal de Medicina (CFM) adotou uma nova regulamentação, baseada em publicações de alto impacto como a revista Lancet, onde a obesidade passa a ser definida pela presença de doenças associadas a um excesso de gordura corporal", afirma o especialista.
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Um dos pontos centrais dessa nova abordagem é a insuficiência do Índice de Massa Corporal (IMC) como métrica isolada. Córdova cita o exemplo de atletas como Mike Tyson, que possuíam IMC elevado devido à massa muscular, sem serem obesos. "Mais importante do que o peso é saber a composição corporal e onde a gordura está localizada", diz o diretor da SBCBM.
De acordo com o especialista, os critérios para a obesidade clínica incluem:
- Circunferência abdominal: No caso de homens, uma medida maior que 102 cm é um indicador crítico.
- Comorbidades: A presença de doenças como hipertensão arterial, apneia do sono, refluxo gastroesofágico, diabetes ou gordura no fígado.
No caso de Bolsonaro, o laudo da PF confirma a presença de várias dessas condições, como hipertensão, apneia obstrutiva do sono grave e refluxo. Córdova ressalta que a gordura visceral — a popular "barriguinha de cerveja" — é a que gera as alterações metabólicas mais perigosas. Além disso, ele nota que as diversas cirurgias abdominais prévias do ex-presidente podem agravar quadros como o refluxo devido a aderências no trânsito intestinal.
A nova definição também alterou o acesso a tratamentos cirúrgicos. Segundo Luiz Fernando Córdova, pacientes com doenças graves associadas (como diabetes ou hipertensão severa) e IMC acima de 30 já possuem indicação para cirurgia bariátrica ou metabólica, não sendo mais necessário esperar atingir o IMC 35. "Não estamos operando o paciente por conta do peso, e sim por conta da doença associada", pontua.
Para o tratamento clínico, o laudo da PF recomenda uma mudança drástica no estilo de vida de Bolsonaro, que atualmente mantém uma dieta rica em ultraprocessados e pobre em frutas e vegetais. Córdova reforça que o tratamento deve ser integral: "É preciso apoio nutricional, físico e mental. A saúde mental é fundamental, pois ansiedade e estresse interferem diretamente no padrão alimentar e em compulsões".

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