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Crise do Master entra no rol do bolsonarismo

Apoiadores do ex-presidente aproveitam discursos nas manifestações para tentar colar as fraudes do banco no governo. Protestos renovam críticas a Lula e ao STF, sobretudo aos ministros Moraes e Toffoli. O maior ato foi na Avenida Paulista

Na primeira manifestação como pré-candidato, Flávio foi à Paulista para reforçar a união da direita em torno do projeto político do clã Bolsonaro -  (crédito: Nelson Almeida/AFP)
Na primeira manifestação como pré-candidato, Flávio foi à Paulista para reforçar a união da direita em torno do projeto político do clã Bolsonaro - (crédito: Nelson Almeida/AFP)

A direita bolsonarista voltou às ruas, ontem, para protestar contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministros do Supremo Tribunal Federal, especialmente Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Convocados pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o pastor evangélico Silas Malafaia, os manifestantes organizaram palanques em diversas capitais, como Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia, Salvador e São Paulo. A novidade foi a inclusão do escândalo do Banco Master no rol dos alvos dos protestos.

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Diferentemente dos atos do Sete de Setembro do ano passado, as manifestações de ontem — batizadas de "Acorda Brasil" — reuniram um número expressivamente menor de participantes. Em relação à pauta de reivindicações, a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos condenados por tentativa de golpe de Estado, em 2023, deixou de ser o principal mote. Quem prometeu como "primeiro ato anistia plena, geral e irrestrita" foi o governador de Goiás e pré-candidato à Presidência, Ronaldo Caiado (PSD), que participou da maior de todas as manifestações, em São Paulo.

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De acordo com Monitor do Debate Político — parceria da Universidade de São Paulo (USP), do Cebrap e da ONG More in Common —, a Avenida Paulista concentrou cerca de 20,4 mil pessoas, praticamente metade do público aferido no ato bolsonarista do Sete de Setembro, no ano passado.

O pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ), chegou ao evento na companhia do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) — também pré-candidato —, que havia participado, mais cedo, da manifestação da direita em Belo Horizonte. Há a possibilidade de os dois formarem a chapa do bolsonarismo para a disputa ao Palácio do Planalto, embora o político mineiro assegure que levará até o fim a pretensão de concorrer à sucessão de Lula.

Para o senador, a manifestação na Paulista foi a estreia em um comício na condição de pré-candidato desde que se lançou à corrida presidencial, em dezembro passado, ao receber a bênção do pai, Jair, para representar o bolsonarismo nas próximas eleições. Ele espera que a mobilização nas ruas ajude a pressionar a bancada da direita no Congresso para a derrubada dos vetos de Lula ao projeto da dosimetria de penas — que poderia antecipar a saída da prisão dos condenados pela tentativa de golpe em 2023, entre eles o ex-presidente. 

"Disse ao meu pai que, em janeiro de 2027, ele irá pessoalmente subir aquela rampa do Planalto junto com o povo brasileiro", garantiu, ao relatar conversa com Bolsonaro na quarta-feira. Flávio associou o atual governo a escândalos como "mensalão" e "petrolão", e mencionou investigações envolvendo descontos indevidos em benefícios do INSS. Ao encerrar o discurso, afirmou que "ninguém aguenta mais quatro anos de PT". Mais: garantiu que a direita seguirá mobilizada "até a vitória".

Nikolas, que tem sido um dos líderes das convocações dos bolsonaristas, partiu para cima do ministro Moraes. Chamou-o de "pateta" e "panaca". "Se a gente derrubar um (ministro do STF), cai outro. Cai Moraes, cai todo mundo", afirmou, ao defender uma "avalanche verde e amarela."

A presença de Caiado e de Zema compensaram, em parte, a ausência do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que está na Alemanha, em viagem oficial. Na semana passada, ele se encontrou com Flávio e, pela primeira vez, assegurou publicamente apoio às pretensões presidenciais do senador fluminense. Outra ausência percebida foi a da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, à qual o ex-presidente recomendou que, por ora, se preservasse politicamente (leia na página 3).

No palanque, entre discursos e palavras de ordem, a mensagem do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, quase passou despercebida. Foi ao microfone apenas para pedir "Volta Bolsonaro!". E nada mais falou. Silas Malafaia, por sua vez, mirou a artilharia verbal nos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. "Não têm moral para julgar ninguém", disparou.

Ele ainda chamou Moraes de "ditador da toga" e afirmou que o ministro teria instituído um "crime de opinião" no país por meio do "Inquérito das Fake News", que classificou como imoral e ilegal. O pastor também citou o caso envolvendo o Banco Master e afirmou que o contrato da mulher de Moraes com o banco seria uma "corrupção deslavada" — para tanto, defendeu investigação e quebra de sigilo da advogada Viviane Barci de Moraes.

Para não competir com o protesto em São Paulo, bolsonaristas promoveram, de manhã, atos contra o governo e ministros do STF em várias cidades. Em Brasília, os apoiadores do ex-presidente reuniram-se em frente ao Museu da República. Na pauta, a defesa da prisão domiciliar para Bolsonaro e questionamentos sobre a atuação de ministros do STF no caso Master, com menções diretas a Toffoli e a Moraes.

Parlamentares do PL estiveram presentes, como o senador Izalci Lucas e a deputada federal Bia Kicis, além do deputado distrital Roosevelt Vilela (PL). Ao fim da manifestação, os participantes, em coro, entoaram o slogan que deu nome ao ato, repetindo gritos de "acorda, Brasil".

Para Bia Kicis, o movimento cumpriu o papel de manter a oposição unida contra o governo. "É um 'Fora Lula' bem retumbante. O povo acordou, não aguenta mais, está na rua mostrando que não vai ficar calado", disse, ao gravar um vídeo para o partido.

As forças de segurança do Distrito Federal não divulgaram estimativas de público, mas, visualmente, a manifestação em Brasília reuniu bem menos gente do que a organizada por Nikolas na Praça do Cruzeiro, em 25 de janeiro, quando várias pessoas foram atingidas pela descarga elétrica de um raio. O monitor da USP contou, na ocasião, 18 mil pessoas no pico de presença.

Na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, a manifestação foi mais robusta e contou com a presença de Zema, do vice Mateus Simões e de Nikolas. Os discursos seguiram a cartilha do embate eleitoral. Zema afirmou que o governo Lula "não representa os anseios da população".

"Tem pessoas que se acham acima da lei e que estão no governo federal não para trabalhar para o brasileiro. Estão única e exclusivamente para seus próprios interesses, de maneira legal, tentando barrar investigações, fazendo tráfico de influência", frisou o governador, ao deixar o protesto. Sobre a possibilidade de compor chapa com Flávio, disse que não abdicou da própria pré-candidatura ao Palácio do Planalto e que a direita deve disputar as eleições com mais de um candidato.

"Eu estive com (Jair) Bolsonaro em agosto do ano passado e ele tem a mesma opinião que eu: quanto mais candidatos a direita tiver, mais fortalecida fica e mais votos terá no primeiro e no segundo turnos. Levarei minha pré-candidatura e a minha candidatura até o fim. E o candidato que estiver contra o PT no segundo turno terá o meu apoio", disse o governador, ao deixar a Praça da Liberdade. De lá, seguiu com Nikolas para São Paulo, onde participaram, horas depois, do ato na Paulista.

No Rio de Janeiro, pouca gente atendeu à convocação para ir à Praia de Copacabana, se comparado às manifestações anteriores do bolsonarismo. Segundo o Monitor do Debate Político, o ato reuniu 4,7 mil pessoas (margem de erro de 12%), quase um décimo do público que compareceu ao local no Dia da Independência do ano passado, estimado em mais de 40 mil manifestantes. A cúpula do PL fluminense, porém, foi em peso, com os deputados Sóstenes Cavalcanti, Altineu Côrtes, Carlos Jordy e General Pazzuelo, além do senador Carlos Portinho.

Mentiras e "flopada"

Para os integrantes do governo, porém, os atos do bolsonarismo fracassaram ao reunirem menos gente do que nos anteriores. A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, criticou as manifestações em publicação no X (antigo Twitter) e chamou os apoiadores de Bolsonaro de mentirosos ao atacarem Lula.

"Fantasiados de brasileiros, bolsonaristas vão à Paulista emular besteiras, mentir que é a arma deles, para atacar Lula. Já colocamos uma vez vocês no devido lugar, seus lesa-pátrias", atacou.

Já o líder do governo na Câmara dos Deputados, José Guimarães (PT-CE), afirmou que o ato "foi marcado por uma flopada histórica". Também no X, disse que "as manifestações bolsonaristas foram marcadas por uma flopada histórica e vergonhosa. O povo cansou de discursos vazios, de ódio e de manipulações. O Brasil acordou e não aceita mais ser enganado por essa gente", criticou. (Colaborou Giovana Kunz. Com Estado de Minas e Agência Estado)

 

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postado em 02/03/2026 03:55
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