eleições

Transferência de voto para Flávio impressiona, diz CEO da Nexus

Especialista destaca o acelerado crescimento do filho de Bolsonaro nas pesquisas. Ele também ressalta a forte rejeição do eleitorado tanto ao senador quanto a Lula

Tokarski sobre avanço de Flávio:
Tokarski sobre avanço de Flávio: "Foi de uma forma que nunca tínhamos visto" - (crédito: Carlos Vieira CB/DA Press)

A menos de seis meses do primeiro turno, o cenário da corrida presidencial aparece cada vez mais marcado pela polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o campo bolsonarista, agora representado pelo senador Flávio Bolsonaro. A avaliação foi feita por Marcelo Tokarski, CEO da Nexus — Pesquisa e Inteligência de Dados, durante participação no Podcast do Correio, com os jornalistas Ana Maria Campos e Roberto Fonseca.

Na leitura de Tokarski, o país vive hoje uma eleição cercada ao mesmo tempo por um elemento de previsibilidade e por uma incerteza decisiva. A previsibilidade estaria na forte probabilidade de Lula e Flávio chegarem à fase final da disputa. A incerteza, por sua vez, recai sobre o desfecho da corrida, que, segundo ele, aparece aberta e imprevisível na fotografia atual.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Tokarski chamou atenção para a velocidade com que Flávio se consolidou como herdeiro político do bolsonarismo. Em vez de uma transferência gradual de apoio, ele descreveu o movimento como uma "transfusão de voto", dada a rapidez com que o nome do senador passou a ocupar espaço competitivo nas pesquisas.

"O crescimento do Flávio, que se lançou em dezembro, foi muito forte. Não teve uma transferência de voto, foi uma transfusão de votos, foi muito rápido e de uma forma que nunca tínhamos visto", frisou. Ainda assim, ponderou que parte do eleitorado poderá, ao longo da campanha, rever esse apoio dependendo do grau de associação que vier a ser feito entre a imagem do filho e a do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado e outros crimes.

Outro traço marcante do cenário, segundo o CEO da Nexus, é o alto nível de rejeição dos dois principais nomes. Para ele, a polarização tem transformado a decisão do voto em um gesto mais defensivo do que afirmativo: uma parcela expressiva do eleitorado não escolhe necessariamente o candidato preferido, mas aquele que considera mais capaz de impedir a vitória do adversário. Tokarski lembrou que esse comportamento já vem influenciando a política nacional há décadas e se tornou ainda mais evidente nas últimas disputas presidenciais.

Ele argumentou que, nesse contexto, o espaço para uma terceira via permanece reduzido. Embora nomes alternativos possam registrar baixa rejeição aparente, isso não significaria, automaticamente, potencial real de crescimento. Em muitos casos, avaliou, o que existe é um alto grau de desconhecimento do eleitor, e não necessariamente abertura concreta para adesão eleitoral futura. Para Tokarski, o eleitor até pode manifestar cansaço diante da polarização, mas não tem demonstrado disposição para migrar em massa para candidaturas que hoje não enxerga como viáveis ou atrativas.

"Eu acho que, dependendo do estado, pode fazer muita diferença ter o seu candidato, e, em outros, vai ser melhor, talvez, esconder um pouco o candidato. Acho que as eleições estaduais ainda estão muito abertas. Ainda não se sabe quem de fato serão os candidatos em cada um dos lugares. Minas, por exemplo, tem como líder nas pesquisas o Cleitinho, porém, muita gente diz que, talvez, ele não seja o candidato", explicou.

Ao analisar possíveis nomes fora do eixo principal, Tokarski citou o movimento do governador do Paraná, Ratinho Júnior, que desistiu da disputa presidencial e optou por concentrar forças no estado. Na interpretação do entrevistado, a decisão teria levado em conta tanto a dificuldade de romper a polarização nacional quanto a necessidade de proteger seu espaço político no Paraná diante de uma disputa local mais sensível.

O CEO também avaliou que a campanha presidencial tende a ser definida por um contingente de eleitores que não se identifica de maneira fechada nem com o lulismo nem com o bolsonarismo. Trata-se, segundo ele, de um grupo que já alternou votos entre diferentes campos políticos e que volta a fazer um cálculo pragmático sobre qual candidato considera mais vantajoso ou menos arriscado. Esse segmento, observou, tende a ser mais urbano, mais jovem e concentrado nas regiões metropolitanas.

Economia

Na avaliação de Tokarski, a economia será o eixo central da disputa pela Presidência. Embora os indicadores macroeconômicos possam sinalizar crescimento, inflação sob controle e baixo desemprego, ele afirmou que isso nem sempre se converte em sensação concreta de melhora na vida cotidiana.

Segundo o CEO, há hoje um descompasso entre a economia dos números e a economia real percebida pelo brasileiro comum, especialmente trabalhadores de renda mais baixa, submetidos a empregos de menor qualidade e a custo de vida ainda pressionado.

"Acho que essa contradição entre a economia dos números e a economia real é hoje o principal desafio do presidente Lula. Falo nele porque é o candidato à reeleição. Cabe a ele convencer a sociedade de que a economia está no caminho certo e que sua permanência no cargo será positiva para o eleitor", explicou. "Já o Flávio ocupa a posição oposta, tentando persuadir o eleitorado de que no governo do pai dele a situação era melhor, ou que o atual governo não tem conseguido melhorar a vida das pessoas. No fim das contas, é com esse tipo de percepção que o eleitor decide o voto para presidente."

Tokarski indicou que temas como segurança pública e corrupção devem ocupar papel relevante no debate. Sobre segurança, afirmou que se trata de uma pauta na qual a direita costuma falar com mais sintonia ao sentimento de parte do eleitorado. Já em relação à corrupção, destacou o impacto do noticiário recente e a possibilidade de novos desdobramentos influenciarem na percepção pública ao longo da campanha.

Mesmo assim, ponderou que ainda é cedo para medir com precisão o efeito político desses episódios. Na visão dele, diferentemente de outros momentos da história recente, a leitura do eleitor sobre escândalos atuais não parece estar tão concentrada em um único partido ou grupo, mas mais associada a uma crítica ampla ao funcionamento do poder e ao chamado status quo.

 

 

 

  • Google Discover Icon
postado em 14/04/2026 03:55
x