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Expectativa e traições na humilhação de Messias no Senado

Rejeição ao nome do AGU para vaga no STF representa dura derrota para o governo. Parlamentares infiéis foram, principalmente, do PSD e do MDB

Messias recebe o abraço da mulher após ter o nome rejeitado em plenário -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
Messias recebe o abraço da mulher após ter o nome rejeitado em plenário - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Os longos aplausos após a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF), deram às lideranças governistas a convicção de que a indicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passaria também no plenário da Casa. A sabatina havia transcorrido de forma serena, e o desempenho do AGU diante das perguntas dos senadores foi considerado bom pela base aliada, com elogios ao tom conciliador e aos acenos de diálogo com o Parlamento caso fosse aprovado. Deu tudo errado. E, no fim da votação, o clima era de perplexidade com a primeira rejeição de um indicado pelo presidente da República ao STF na história do Senado.

Por 42 votos contrários e apenas 34 a favor, a indicação de Lula foi rejeitada pelos senadores menos de três horas depois do fim da sabatina, que durou cerca de oito horas. Ao deixar o Senado, Messias falou rapidamente com dezenas de jornalistas que o aguardavam na saída do gabinete da Liderança do Governo na Casa. "Nós sabemos quem provocou tudo isso", disse ele, sem citar nomes. Nem precisava. O artífice da maior derrota do governo Lula 3 no Congresso tem nome e sobrenome: Davi Alcolumbre (UB-AP), presidente do Senado.

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Do otimismo pós-sabatina ao anticlímax no plenário, passaram-se algumas horas de muitas articulações, telefonemas, promessas de apoio e algumas traições. À espera da votação definitiva, Messias ficou em uma sala da liderança do governo acompanhado de assessores e recebendo visitas de parlamentares. Na sala ao lado, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), disparava telefonemas para conferir os apoios que deveriam ser traduzidos em votos. Quando ele deixou o gabinete, a luz amarela já estava acesa: 41 senadores declararam que votariam em Messias, número mínimo necessário para a aprovação.

Nos bastidores, corria a informação de que Alcolumbre entrara de cabeça na campanha contra o nome indicado por Lula, conversando com colegas do Centrão para virar votos favoráveis ao governo. A poucos minutos do início da votação, o senador Humberto Costa (PT-PE) confidenciou: "Estamos preocupados". No cafezinho dos senadores, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro — que acompanhou o AGU nas visitas aos senadores nos últimos dois dias —, também demonstrava apreensão. "Se Messias for rejeitado, será uma condenação por um crime que ele não cometeu", metaforizou em uma roda de conversa.

Os partidos de oposição contam com uma bancada de 32 senadores. Após a ofensiva de Alcolumbre, uma dezena de votos a mais decretou a histórica derrota governista. No périplo que fez nos gabinetes à caça de votos aos longo das últimas semanas, Messias foi recebido por 78 dos 81 senadores. Alcolumbre foi um dos três que não quiseram conversar oficialmente com ele. Os dois apenas se encontraram uma vez, em Brasília, fora da agenda do presidente do Senado. E, segundo interlocutores, foi uma conversa rápida, sem nenhum compromisso assumido por parte do senador do Amapá.

Na votação definitiva, as traições, segundo parlamentares ouvidos pela reportagem, vieram, principalmente, do PSD e do MDB. O líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), ficou visivelmente contrariado com o resultado. Ele passou o dia conversando com os colegas e, assim como Renan Calheiros (MDB-AL), estava convicto de que Messias teria o apoio maciço dos nove integrantes da bancada. Não teve. "O resultado do painel é soberano, eu não faço interpretação de resultado de eleição. Eleição a gente respeita, ponto", disse Braga ao Correio.

"O Senado desaprovou o nome de Messias. Cabe, agora, ao Senado explicar as razões dessa desaprovação, e, a nós, evidentemente, aceitarmos (o resultado) com a maior serenidade possível", declarou o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, ao deixar o Congresso, acompanhando do AGU.

"Lutei o bom combate, como todo cristão. E preciso aceitar o plano de Deus na minha vida, mas sei que minha história não acaba aqui", disse Messias. Ele e Guimarães seguiram depois para o Palácio da Alvorada, onde Lula os aguardava.

Impacto

A rejeição do nome de Messias para o STF ocorreu após uma sabatina que durou cerca de oito horas na CCJ e que culminou com a aprovação do indicado de Lula por 16 votos a 11.

A derrota governista tem forte peso simbólico e institucional. A última vez que o Senado havia barrado um indicado ao STF foi em 1894, no governo de Floriano Peixoto. Ao longo da história republicana, apenas cinco nomes haviam sido recusados, o que torna o episódio atual excepcional no funcionamento das relações entre os Poderes.

Indicado por Lula em novembro do ano passado, Messias enfrentou um processo marcado por atrasos e tensões políticas. A formalização oficial do nome só se deu em abril, após meses de negociações. Nos bastidores, divergências com lideranças do Senado e, principalmente, com Alcolumbre — que preferia a indicação de seu antecessor, senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) — contribuíram para o desgaste de Messias e a demora no andamento da indicação.

Com a rejeição, caberá novamente ao presidente apresentar um novo nome ao Senado, reiniciando o processo de avaliação e votação para a vaga aberta com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso.

"O presidente Lula, lá atrás, havia me dito que não mandaria outro nome caso isso (a derrota) acontecesse. Então, não vamos discutir nomes. Vamos discutir que impuseram uma derrota a uma pessoa que nada tinha a ver com o processo eleitoral. Cometeram uma injustiça enorme com o Messias", comentou o senador Weverton Rocha (PDT-MA). “Daqui até a eleição, (Lula) não deve apresentar outro nome”, previu o senador maranhense.

Aborto e golpe

Durante a sabatina na CCJ, Messias buscou construir pontes com os parlamentares e adotou um discurso voltado à defesa da Constituição, da separação entre os Poderes e da harmonia institucional. Ele também sinalizou apoio a mudanças no funcionamento do Judiciário, como a limitação de decisões monocráticas, e criticou a duração excessiva de investigações, afirmando que processos devem ter “começo, meio e fim”.

O indicado ainda abordou temas sensíveis, como aborto, ativismo judicial e os atos de 8 de janeiro de 2023. Declarou ser pessoalmente contrário ao aborto, mas reconheceu as exceções previstas em lei, e classificou os ataques às sedes dos Três Poderes como um dos episódios mais tristes da história recente do país. Também defendeu que o STF não deve atuar como uma “terceira Casa legislativa”, reforçando a necessidade de limites institucionais.

A derrota no plenário altera o cenário político em torno da Suprema Corte e amplia a disputa por influência na escolha do próximo indicado. Além de representar um revés direto para o governo, o episódio reforça o protagonismo do Senado no processo e sinaliza que futuras indicações poderão enfrentar maior escrutínio e resistência.

Com a vaga ainda aberta, o Planalto deverá intensificar as negociações para evitar um novo desgaste. A escolha do próximo nome será decisiva não apenas para a composição do STF, mas também para a relação entre Executivo e Legislativo em um momento de equilíbrio delicado entre os Poderes.

 

 

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postado em 30/04/2026 03:55
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