
O fim da jornada 6 x 1, cada vez mais iminente, ganhou destaque no noticiário após o anúncio feito pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de como a proposta será encaminhada na Casa legislativa. Porém, mais do que um tema que tenha dado visibilidade ao Parlamento, a mudança no regime de trabalho nacional é uma das apostas do governo Lula para convencer o eleitor a dar continuidade à gestão petista.
Desde o início dos debates sobre o fim da jornada, ministros e o próprio presidente da República defendiam de modo veemente uma solução para os milhões de trabalhadores que têm apenas um dia de descanso na semana. Desde o início, também, se verificou uma divergência com o setor produtivo. Um dos alertas mais frequentes da indústria e do comércio referia-se aos efeitos da redução da jornada na produtividade, bem como a consequências negativas para o próprio trabalhador. Horas após o anúncio feito por Motta, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, renovou as críticas às mudanças e à "narrativa" de que o novo regime será benéfico para a classe trabalhadora. "O primeiro impacto que teremos será no aumento de preços. Não tem para onde correr. Os preços irão aumentar e prejudicar os próprios trabalhadores", disse Alban à CNN Brasil ontem.
As queixas do empresariado não parecem demover o Congresso Nacional, preocupado com a reação do eleitor caso deputados e senadores imponham dificuldades na aprovação da proposta. E muito menos o governo Lula. Um dos defensores mais ardorosos do fim da jornada 6 x 1 é o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos. Profundamente conectado com os movimentos sociais, o integrante da equipe palaciana tem sido contundente nas redes digitais não apenas na defesa do fim da 6 x 1, mas também nas críticas aos empregadores. No clássico estilo "nós contra eles", Boulos radicaliza a discussão econômica sobre a jornada 6 x 1, com uma clara estratégia eleitoral. Esse ímpeto governista tem ofuscado a oposição, principalmente o seu nome de maior visibilidade, o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Tragado pelas revelações do escândalo Master, o senador ainda não encontrou um discurso convincente sobre mudanças na jornada trabalhista brasileira.
Não é apenas o ministro Boulos que se posicionou sobre o tema, atento à reação dos eleitores. O ex-chefe da equipe econômica e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, também foi às redes sociais para defender o fim da jornada 6 x 1. Reproduziu o discurso polarizado, comparando a turma que se desloca de helicóptero com os trabalhadores que gastam horas no transporte público. E criticou nominalmente Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro, em razão da estratégia do PL e do Centrão de aprovar uma transição de 10 anos para a adoção da nova jornada trabalhista.
Independentemente do estilo de seus representantes, o governo Lula tem investido em uma agenda econômica para ter o que mostrar na hora das urnas. Após o fim da jornada 6 x 1, o trunfo que tem sido guardado é a aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais. Integram o pacote de bondades programas como linhas de financiamento para motoristas de aplicativo, em mais uma ação para auxiliar determinadas categorias de trabalhadores.
Apresentar ao eleitor um conjunto positivo de indicadores econômicos tornou-se uma espécie de mantra das campanhas eleitorais. Ainda hoje é reconhecida a célebre frase "É a economia, estúpido!", eternizada pelo estrategista James Carville ao então candidato Bill Clinton nas eleições de 1992. Em busca de um quarto mandato, o governo Lula mostra que pretende rezar a cartilha dos americanos democratas.
Mas há temas espinhosos nessa área. As projeções de inflação para 2026 ficaram, pela primeira vez, acima do patamar de 5%, e a taxa de juros permanece proibitiva no Brasil. Para esses problemas, as perspectivas não são alvissareiras.
Saiba Mais

Política
Política
Política
Política