
Conversas obtidas pela Polícia Federal (PF) mostram que Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, não apenas colocava o caixa da instituição à disposição do Banco Master, mas, também, era usado para auferir vantagens pessoais junto a Daniel Vorcaro. Em uma das mensagens, PHC afirma ao ex-banqueiro que estavam "juntando" suas vidas, após ter negociado o recebimento de imóveis em troca de aportes bilionários do BRB. Em outro diálogo, Costa pergunta ao dono do Master qual seria "sua necessidade de caixa" para poder viabilizar os repasses ao banco privado.
As conversas estão nos celulares apreendidos pela PF na Operação Compliance Zero, que investiga o megaesquema de fraudes encabeçado por Vorcaro. "Qual sua necessidade de caixa? Você pode me enviar um cronograma tentativo", indaga Costa ao ex-banqueiro, que responde: "Vou preparar e te enviar".
Mais adiante, PHC responde, em uma mensagem que os investigadores acreditam ser a cobrança de propina em forma de imóveis. "Amigo, queria te pedir uma atenção também ao nosso cronograma pessoal para acertar, inclusive, o contrato de moradia em SP. Este é um assunto que está mais na sua mão. Sei que você tem outras coisas mais importantes para se preocupar. Mas é um passo importante para mim", cobrou.
Os diálogos foram divulgados primeiramente pelo jornal O Estado de S.Paulo e confirmados pelo Correio junto a fontes na PF. O apoio de PHC a Vorcaro, de acordo com os investigadores, seria em troca de uma propina de até R$ 150 milhões, paga por meio de imóveis de luxo. Em novembro de 2024, o dono do Master teria orientado uma corretora a encontrar imóveis no condomínio Heritage, no Itaim Bibi, bairro elegante em São Paulo. Entre as exigências feitas pelo ex-presidente do BRB, estaria a necessidade de que o residencial contasse com uma quadra de tênis.
Após pedido do banqueiro, a corretora teria encontrado um apartamento decorado, no 13º andar de um prédio, por R$ 45 milhões. Na sequência, Costa envia uma mensagem a Vorcaro afirmando que eles "estavam juntando suas vidas". Em outra mensagem, ainda em novembro de 2024, o dono do Master teria enviado uma mensagem ao ex-presidente do BRB pedindo uma reunião.
"Bom dia, meu amigo. Quando puder, vamos falar hoje no tel (telefone) só para darmos uma alinhada, se possível", escreveu às 7h45. PHC afirma em seguida: "Marquei uma reunião às 09:00 para repassar todas as carteiras e ter um cenário mais claro. Te aviso quando sair da reunião."
A Polícia Federal identificou, também, um grupo de WhatsApp usado por Vorcaro para orientar a produção de documentos fraudulentos a fim de mascarar fraudes no BRB. De acordo com as investigações, o grupo "Info BRB" era usado na produção de comprovantes de valores de carteiras de créditos imprestáveis.
Em uma das mensagens, Vorcaro se irritou com a produção de documentos falsos de uma carteira de crédito bilionária ligada à Tirreno, que seria uma empresa de fachada no esquema do Master. "Pessoal. Saldo não pode ser 6.400!!! Era 7.200. Valor da recompra", escreveu o ex-banqueiro. As diligências apontam que ele estava se referindo a valores de R$ 6,4 bilhões e R$ 7,2 bilhões. De acordo com os investigadores, a Tirreno foi a principal origem dos títulos podres comprados ao Master pelo BRB.
Os documentos fraudulentos foram apresentados ao Banco Central (BC). O relatório parcial da investigação aponta que a "manipulação do valor final do extrato relativo ao pagamento da Tirreno pelo pagamento dos créditos originados e posteriormente cedidos ao BRB". As conversas no grupo envolviam Vorcaro, Alberto Félix — à época superintendente de tesouraria do Master — e Ângelo Silva, diretor financeiro do banco, antes de ser liquidado pela autoridade monetária.
Os documentos fraudulentos eram registrados em cartório e Vorcaro demonstrava pressa, a fim de repassar com celeridade os títulos imprestáveis ao BRB. A compra destes papeis deixou um rombo bilionário no Banco de Brasíia — que tem até sexta-feira para divulgar o balanço financeiro, que deveria ter sido apresentado em 31 de março.
Castro e a conexão via Rioprevidência
A estreita relação entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro está por trás do aporte de R$ 3,7 bilhões de recursos públicos do governo fluminense no conglomerado do dono do Master, em diferentes ocasiões. Foi isso que levou a PF à casa do ex-governador do Rio de Janeiro, na 8ª fase da Operação Compliance Zero, ontem de manhã. O dinheiro, segundo a investigação, era do Rioprevidência, fundo que gere aposentadorias e pensões de 235 mil inativos do estado.
Relatório enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), traz vários diálogos e relatos de encontros entre Castro e Vorcaro, no Brasil e no exterior. O ex-governador foi alvo de busca e apreensão na cobertura do prédio em que mora na Península, condomínio de alto padrão na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. Os agentes ficaram cerca de 3 horas na residência e deixaram o local às 9h10, com dois celulares apreendidos. Foi a segunda incursão na casa do ex-governador em menos de 15 dias — a anterior foi por causa da Operação Sem Refino, contra supostas fraudes fiscais na Refit, a antiga Refinaria de Manguinhos.
"A atuação do ex-governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master, caracterizado por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do RioPrevidência", destaca a decisão de Mendonça. "O acervo até aqui reunido inclui mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, a reconstituição da cronologia de encontros e aportes, os documentos administrativos do Rioprevidência (Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro), os registros de credenciamento, as referências de auditorias do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro) e da Secretaria de Regime Próprio e Complementar do Ministério da Previdência Social, além de elementos que indicam decisões sucessivas em desconformidade com a política de investimentos, com a regulação prudencial e com os deveres de diligência dos gestores", frisa o ministro.
A investigação de Castro é desdobramento da Operação Barco de Papel, que identificou aportes suspeitos do Rioprevidência no Master — foram R$ 970 milhões, entre outubro de 2023 e julho de 2024. Deflagrada em janeiro, foi a que levou à prisão Deivis Marcon Antunes, presidente do fundo à época, no início de fevereiro. Àquela ocasião, ele já tinha sido exonerado pelo então governador.
A folha de pagamento do Rioprevidência inclui 241.927 servidores, segundo dados de abril divulgados pela Subsecretaria de Gestão de Pessoas, da Casa Civil do governo fluminense. O desembolso mensal com aposentadorias e pensões é de R$ 2,1 bilhões. (Colaborou Fabio Grecchi)
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