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Depois das derrotas no Congresso, governo aposta no fim da 6 x 1

Com os reveses da rejeição de Messias e da derrubada do veto presidencial à dosimetria, ex-ministros vão aos atos do Dia do Trabalhador para defender a redução da jornada — parte do pacote de melhoria da imagem de Lula junto ao eleitorado

Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitaram as manifestações pelo Dia do Trabalhador para dar fôlego à proposta de fim da escala 6 x 1 e tentar superar os impactos das duas graves derrotas desta semana — a rejeição, pelos senadores, do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a 11ª cadeira do Supremo Tribunal Federal; e a derrubada, na sessão conjunta do Congresso, dos vetos presidenciais ao Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, que reduz o tempo de pena dos golpistas do 8 de Janeiro. Na noite de quinta-feira, o governo deu o primeiro passo na estratégia de amenizar os reveses com o pronunciamento em que Lula anunciou alguns dos pontos do programa Desenrola 2, que permitirá a renegociação de dívidas.

Na linha de frente da defesa do presidente, os ex-ministros Fernando Haddad (pré-candidato ao governo paulista) e Simone Tebet (pré-candidata ao Senado) representaram o governo no evento do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo (SP). Em clima de palanque eleitoral, defenderam a redução da jornada de trabalho, mais um dos pilares da campanha de Lula à reeleição.

"Agora, vamos lutar pela jornada 5 x 2, de 40 horas (semanais). E nós vamos lutar na jornada 7 x 0 para reeleger o presidente Lula, porque não vamos descansar enquanto não enxergarmos, em outubro, um horizonte pela frente que não seja o desastre que foi o governo anterior", disse Haddad.

Ele defendeu o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que estaria empenhado em fazer a redução de jornada avançar na Casa. "Estamos confiantes de que vamos conseguir entregar, até o fim do ano, essa pauta, como fizemos com o salário mínimo e com a isenção do Imposto de Renda no ano passado", acrescentou.

Tebet aproveitou para rebater as críticas e o temor sobre a perda de produtividade ou de empregos com a redução da escala. "O trabalhador precisa de tempo para dormir, descansar, estar com os filhos, ir à igreja, visitar os pais idosos. Garanto para vocês que o Brasil não quebra, assim como não quebrou quando a gente passou de 15 dias de férias para 30 dias, com o 13º e com as horas extras", enfatizou.

A ex-ministra Marina Silva, também pré-candidata ao Senado por São Paulo, esteve em um segundo evento comemorativo ao Dia do Trabalhador e, como Haddad e Tebet, destacou o impacto da redução da jornada de serviço para as mulheres. "Quando você só tem um dia, não é descanso. Principalmente para nós, mulheres, o dia de descanso é quando a maioria trabalha mais, e volta na segunda-feira mais cansada do que na sexta", afirmou.

Lula, por sua vez, passou o dia em Brasília, sem compromissos públicos. É o segundo ano seguido que deixa de participar de atos de 1º de Maio, depois do fiasco do evento de 2024, no Itaquerão, estádio do Corinthians, que reuniu público muito menor do que o previsto.

Por causa do forte apelo popular, o governo defende que a escala seja limitada a 40 horas por semana, contra as 44 horas atuais, e que haja obrigatoriedade de duas folgas consecutivas no período, preferencialmente aos fins de semana. O Palácio do Planalto enviou ao Congresso um projeto de lei (PL), em regime de urgência, para a mudança. Mas os parlamentares optaram por fazer tramitar duas propostas de Emenda à Constituição (PECs), que já estão sendo analisadas em comissão especial. Hugo Motta, aliás, convocou sessões deliberativas do Plenário da Câmara de segunda a sexta-feira da próxima semana. O plano é acelerar a contagem do prazo para a apresentação de emendas ao tema.

Já o Desenrola 2 se propõe a reduzir a parcela recorde das famílias endividadas, que atingiu 80,4% do total em março, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Para o Planalto, esse endividamento impede que resultados positivos na economia, como o aumento na renda e o baixo desemprego, revertam-se em aprovação positiva para Lula.

O presidente também quer aprovar, este ano, a regulamentação do trabalho por aplicativos, mas essa negociação está travada.

Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, divulgou um vídeo nas redes sociais também por ocasião do Dia do Trabalhador. Ele afirma que a população enfrenta dificuldades relacionadas ao custo de vida, à carga tributária e ao endividamento. E criticou o que considera uso inadequado de recursos públicos pelo governo.

"Só no cartão corporativo, Lula já gastou mais de R$ 1,4 bilhão para passear em hotéis de luxo pelo mundo afora, comer bem, tomar vinho caro. É o suor do seu trabalho esquentando a vida de luxo daquele que se diz o pai dos pobres", acusou.

Segundo o pré-candidato, o país precisa de um cenário de maior prosperidade e oportunidades. "Não estou fazendo promessa. Até porque promessa não enche barriga de ninguém. O que eu estou fazendo aqui é um compromisso", garantiu.

Provocações e agressões

O Dia do Trabalhador não foi apenas de manifestações, mas, também, de confusão. Em Brasília, um grupo de bolsonaristas resolveu protestar no mesmo local em que ocorria um ato plajenado por centrais sindicais no Eixão Sul, na altura da SQS 106. Começou logo que quatro homens exibiram um totem com a imagem de Jair Bolsonaro e evoluiu para ofensas e provocações.

Quando a imagem do ex-presidente foi destruída, houve troca de socos. A Polícia Militar interveio. Um dos bolsonaristas foi conduzido para próximo da viatura e, mesmo assim, tentaram agredi-lo. Não houve registro de prisões ou feridos.

Também na Avenida Paulista houve confusão. Aproximadamente 100 bolsonaristas reuniram-se em frente ao prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Um grupo começou a fazer provocações. Foi quando manifestantes do grupo "Patriotas do QG" partiram para cima de uma mulher — derrubada e agredida. A guarnição da PM que fazia a segurança do ato retirou-a. Em outro momento, uma jovem gritou "sem anistia" e a confusão recomeçou. Estava acompanhada do namorado, houve empurrões e, ainda assim, os policiais militares controlaram a situação.

Enquanto a confusão não interrompeu o ato em Brasília, o ato organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Distrito Federal e pela Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) pedia o fim da escala 6 x 1 e da "pejotização", além de combate mais duro ao feminicídio. A senadora Leila Barros (PDT), presente à manifestação, defendeu a redução de jornada, criticou tentativas de "precarização e desconstrução" de conquistas dos trabalhadores e lamentou a diferença salarial entre homens e mulheres.

"Sou mulher, mãe e sei que há algo além do trabalho do formal. Temos uma jornada extenuante, cuidamos dos afazeres domésticos, das nossas famílias e dos nossos filhos. É desigual", frisou.

Também presente à manifestação, a deputada federal Erika Kokay (PT) previu que o atual Congresso "não sobreviverá às eleições deste ano". "O tempo é nosso, os corpos são nossos, os sonhos são nossos", salientou.

Houve também em Belo Horizonte, Recife, Salvador e Rio de Janeiro.

 

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