O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, admitiu, nessa terça-feira, mais um fato que mostra a proximidade dele com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. O parlamentar disse ter ido à casa do empresário após ele ser alvo de operação da Polícia Federal, ter sido preso e posteriormente liberado com tornozeleira eletrônica.
A declaração ocorreu em entrevista coletiva, depois da reunião da bancada do PL, em Brasília, convocada para tentar conter os efeitos da crise na pré-candidatura do senador. A campanha do parlamentar foi abalada com as revelações de que ele pediu dinheiro a Vorcaro, supostamente, para custear o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Flávio relatou ter procurado Vorcaro em São Paulo depois que o empresário passou a ser alvo de medidas judiciais. O objetivo, segundo disse, foi encerrar pendências relacionadas ao projeto. "Eu fui, sim, ao encontro dele, para botar um ponto-final nessa história", alegou. "Quando Vorcaro foi preso, tivemos uma virada de chave e entendemos que a situação era grave", frisou. A declaração de Flávio vai na contramão das primeiras alegações dele, de que não tinha nenhuma proximidade com Vorcaro.
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O parlamentar reiterou ter conhecido Vorcaro no fim de 2024, durante um jantar em que discutia as dificuldades para financiar a produção no Brasil. Segundo ele, empresários brasileiros demonstravam resistência em associar suas marcas a um filme sobre Jair Bolsonaro, o que levou os organizadores a estruturarem o projeto nos Estados Unidos.
Na coletiva, Flávio disse que Vorcaro era visto à época como um empresário "acima de qualquer suspeita", com trânsito entre ministros do Supremo Tribunal Federal, integrantes do governo e empresários.
De acordo com ele, o banqueiro chegou a cumprir parte dos pagamentos previstos em contrato, mas deixou de honrar parcelas a partir de maio de 2025. Flávio afirmou que a produção tentou obter respostas sobre a continuidade do financiamento e que o áudio divulgado recentemente ocorreu justamente em meio à tentativa de evitar a paralisação do longa. "O filme já estava no grande eixo. Encerrar aquilo seria uma catástrofe", afirmou.
Transparência
Interlocutores ouvidos pelo Correio disseram que a estratégia do entorno do senador agora será apostar na "transparência" para tentar reduzir os danos políticos da crise.
Na coletiva, Flávio destacou que os valores investidos por Vorcaro na produção serão separados e colocados à disposição das autoridades brasileiras caso a obra tenha retorno financeiro.
Segundo o senador, o pedido já foi encaminhado à produtora responsável pelo longa e ao fundo ligado ao investimento do projeto. Ele também disse ter solicitado uma prestação de contas detalhada sobre os recursos recebidos.
"Foi pedido à produtora e ao fundo que façam uma prestação de contas transparente, em até 30 dias, de todas as despesas feitas em função desse investimento no filme", declarou.
Conforme o pré-candidato à Presidência, a intenção é garantir transparência diante da repercussão do caso. "Assim que o filme começar a dar resultado, o valor aplicado por intermédio da empresa indicada pelo Daniel Vorcaro vai ser destacado e separado para ficar à disposição das autoridades brasileiras para fazer o que entenderem que deve ser feito", disse.
Também na entrevista, Flávio tentou desviar o foco da crise ao citar reportagens que apontam encontros entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — pré-candidato à reeleição — e Vorcaro. Segundo ele, os fatos reforçam a necessidade de instalação de uma comissão parlamentar mista de inquérito para investigar o caso."É mais urgente do que nunca a CPMI do Banco Master. Vai ser a única forma de separar bandido de inocente", frisou.
Nos bastidores, aliados avaliam que a divulgação do áudio de Flávio com Vorcaro provocou ruídos no mercado financeiro e aumentou a pressão sobre a pré-campanha do senador.
O líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), saiu em defesa de Flávio Bolsonaro após a coletiva.
"Essa questão do filme e do Daniel Vorcaro é uma página virada. Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos e das investigações", afirmou.
Questionado sobre o fato de Flávio inicialmente ter negado qualquer relação com Vorcaro antes da divulgação do áudio, o deputado afirmou que o senador explicou a situação de forma "clara e objetiva" aos parlamentares do partido.
Segundo Cabo Gilberto, Vorcaro mantinha relações com diferentes grupos políticos e empresariais antes de virar alvo das investigações envolvendo o Banco Master.
"O Daniel Vorcaro frequentava Supremo, Lula, bancou filme de Lula, bancou filme de Temer. Ele frequentava todos os meios ideológicos e partidários", declarou.
Na avaliação do parlamentar, o empresário teria pedido discrição sobre a participação no financiamento do longa-metragem, o que explicaria a postura inicial adotada por Flávio. "Ele disse: 'eu quero investir, mas não quero que meu nome seja divulgado'. E foi isso que ocorreu", sustentou.
Hoje, Flávio chega a São Paulo para encontrar com empresários na tentativa de conter danos. Nos bastidores da Faria Lima, investidores passaram a discutir os impactos da crise sobre a corrida presidencial. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, empresários que mantinham diálogo frequente com o entorno do senador passaram a demonstrar cautela após a repercussão do caso.
Um interlocutor próximo à pré-campanha frisou que Flávio tenta agora "reafirmar alianças e recuperar confiança" junto ao empresariado.
Aliados admitem, reservadamente, que, caso a situação política do senador se agrave, crescerá dentro de setores da direita a discussão sobre alternativas para a disputa presidencial. Entre os nomes mencionados está o da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, vista por integrantes do partido como possível "plano B" para a legenda.
Estocadas
Ex-aliados do clã Bolsonaro dispararam críticas a Flávio. Pré-candidato à Presidência, o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema voltou a dar uma alfinetada o senador. Postou um vídeo no qual ressalta nunca ter sido procurado por Vorcaro. "É estranho, né? Eu moro em Belo Horizonte, a mesma cidade que esse bandido banqueiro mora, eu nunca o encontrei, nunca tive uma reunião com ele. Não é estranho? Não tenho ele na minha agenda telefônica, ele nunca me procurou. Me parece que assombração sabe para quem aparecer e para mim não apareceu, porque a minha postura sempre foi de combater a corrupção", disparou.
O jornalista Rodrigo Constantino foi mais incisivo e chamou de "irresponsável" e "amadora" a postura de Flávio, ao comentar a justificativa do senador para a visita a Vorcaro. "Para pedir dezenas de milhões de dólares, ele liga, mas para falar tchau, ele faz uma visitinha pessoal, e querem que a gente repita essa narrativa? É tratar o público como idiota", protestou.
Pesquisa
Em meio à crise, Flávio acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta terça-feira. O levantamento aponta crescimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em cenários de primeiro e segundo turnos contra o senador após a repercussão das conversas envolvendo Vorcaro.
Na pesquisa anterior, de abril, Lula e Flávio apareciam tecnicamente empatados em um eventual segundo turno. O senador tinha 47,8% das intenções de voto, enquanto o presidente registrava 47,5%. Na nova sondagem, Lula aparece com 48,9%, enquanto Flávio soma 41,8%
Em nota, o Partido Liberal afirmou que a ação protocolada no TSE questiona a metodologia utilizada pela pesquisa e sustenta que o questionário teria sido estruturado de forma a induzir uma percepção negativa sobre o parlamentar.
Aplausos
Enquanto tenta justificar sua relação com Vorcaro, Flávio buscou palanque na Marcha dos Prefeitos, nessa terça-feira, e conseguiu. Ele foi ovacionado pelos chefes dos Executivos municipais em um discurso de cerca de 30 minutos.
A ideia do evento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) era que ocorresse uma sabatina. Na prática, no entanto, Flávio falou sem interrupções e não respondeu a perguntas.
Em clima de campanha, ele prometeu um governo com menos impostos, repasses que garantam maior autonomia aos municípios e endurecimento das medidas de segurança pública. Listou propostas em debate no Congresso, como o fim da escala 6x1, e defendeu anistia aos golpistas de 8 de janeiro, além disso prometeu reduzir o endividamento das famílias brasileiras.
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