
O governo Lula aproveitou a sexta reunião plenária do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão, para renovar o brio nacional. Sob o lema "Da Soberania nacional ao protagonismo global", o encontro foi planejado para divulgar as realizações da atual administração, com uma boa dose de patriotismo. Em recado direto ao governo Trump, sem necessidade de tradução, o presidente Lula e ministros posaram com uma placa imitando a bandeira verde-amarela e os dizeres: "O Pix é do Brasil". O gesto reiterou o protesto improvisado no último dia 2, quando o presidente segurou uma cartolina com a mesma mensagem durante evento em Catalão (GO).
De lá para cá, o Palácio do Planalto tomou outras iniciativas em relação ao Pix. Além de produzir uma nova imagem síntese da defesa do sistema de pagamentos que se tornou unanimidade nacional e incomoda os Estados Unidos, o governo federal providenciou o registro do Pix como marca de alto renome no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Com esse reconhecimento, a ferramenta financeira passa a ter proteção reforçada em todos os ramos da atividade econômica, dificultando a entrada da concorrência.
Na reunião do Conselhão, a defesa do Pix entrou no contexto do discurso geral adotado por integrantes da Esplanada. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, ressaltou fortemente a visão de uma soberania econômica brasileira. Descreveu o Pix como uma importante inovação tecnológica e ferramenta essencial para promover a bancarização no país, sem representar custos para a população. Esses motivos justificariam a blindagem ao sistema de pagamento. "A primeira demanda, a primeira tarefa que eu tenho é proteger a soberania ao lado do presidente Lula, em especial no nosso Pix", afirmou Durigan.
O chefe da equipe econômica também deu ênfase à segunda metade do lema que inspirou a reunião do Conselhão — o protagonismo global. A relevância do Brasil no cenário internacional é consequência de uma política de valorização do potencial do país. "No debate econômico, no debate ambiental, no debate de combustíveis, de fontes alternativas de combustível, o Brasil é a liderança mundial, e a gente não abre mão de ser tratado com respeito e tratar com respeito a todos os outros países, a todas as outras comunidades e culturas do mundo", completou Durigan.
O vice-presidente Geraldo Alckmin, figura-chave nas negociações comerciais com os Estados Unidos e muito envolvido no processo de reindustrialização nacional, também reforçou o significado de soberania em um contexto globalizado, com duas guerras em curso. "Para nós, soberania não é conflito estéril. É diálogo e resiliência. Soberania não é isolacionismo, mas é integração ao mundo, fortalecimento do multilateralismo. Soberania não é protecionismo, mas é abrir mercado, fazer acordos comerciais. O Brasil, num momento de dificuldade, mostra bom caminho para a gente não ir para o antagonismo, mas nos unirmos naquilo que é mais importante", definiu o vice-presidente.
A afirmação do Brasil soberano em resposta às ameaças tarifárias dos Estados Unidos vem no mesmo dia em que os termômetros atualizam a temperatura da campanha pré-eleitoral. O ato conduzido no Palácio do Itamaraty ocorreu horas depois de a pesquisa da Genial Quaest indicar que o pré-candidato à reeleição ampliou a vantagem sobre Flávio Bolsonaro, o adversário, a preços de hoje, com mais chances de ir para o segundo turno. Os números reforçam a leitura que já havia sido feita no ano passado, na primeira onda do tarifaço trumpista: defender a soberania nacional aumenta a popularidade junto ao eleitorado; aplaudir a ofensiva tarifária norte-americana revelou-se um revés para os planos bolsonaristas.
Em relação a Flávio Bolsonaro, o levantamento divulgado pela Genial Quaest confirma o momento difícil pelo qual o senador vem passando. É a segunda fotografia que detecta uma queda na intenção de voto ao filho do ex-presidente. Não se pode dizer, contudo, que o retrato que veio a público nessa quarta-feira seja um contraponto à decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, de suspender a divulgação da pesquisa realizada pelo instituto AtlasIntel. Naquela ocasião, o foco das perguntas era o áudio que revelou a relação entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, por meio de uma transação de R$ 60 milhões para financiar o filme Dark Horse.
Independentemente do momento captado pelas pesquisas de opinião, alguns fatos ganham nitidez. Com a interferência política dos Estados Unidos, o governo Lula ganhou uma oportunidade de explorar o orgulho brasileiro, além de expor as realizações deste mandato. Flávio Bolsonaro, por sua vez, continua com o desafio de se descolar das decisões de Washington e encontrar o ponto ideal para fazer oposição ao incumbente. É a corrida eleitoral a caminho de uma definição.
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