
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega a Assunção, no Paraguai, para participar de reuniões da cúpula do Mercosul em um cenário politicamente adverso. Entre os integrantes do bloco e seus Estados associados, somente o Brasil e o Uruguai têm governos considerados do campo progressista. Por sinal, a presidência do bloco será transferida do direitista Santiago Peña, presidente do Paraguai, para o esquerdista Yamandú Orsi, chefe do Executivo uruguaio.
A expectativa da delegação brasileira é sobre os próximos passos dos governos de Keiko Fujimori, no Peru, e de Abelardo de la Espriella, na Colômbia. E não apenas porque pretendem manter estreita relação com o governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, mas porque ainda não se manifestaram sobre a associação dos dois países com o Mercosul. Fontes do Ministério das Relações Exteriores (MRE) lembram que, quando da campanha presidencial, o hoje presidente Javier Milei afirmou várias vezes que um dos seus primeiros atos na Casa Rosada seria retirar a Argentina do Mercosul. O que era uma pretensão tornou-se bravata eleitoral, pois a saída do bloco deveria ser aprovada pelo Congresso argentino, onde Milei não tem maioria.
O cenário para o Brasil, porém, é desconfortável e não somente por Keiko, De la Espriella e Milei. A atual guinada à direita da América do Sul conta, ainda, com Chile e o Equador, igualmente associados ao Mercosul, e a Bolívia, que está em fase de inclusão no bloco. Ainda que o panorama político do continente seja, hoje, de conservadorismo e alinhamento com Washington, paira o fantasma de que cresçam tensões que possam enfraquecer a estrutura do Mercosul — ou mesmo de afastamento das nações que, atualmente, estão na condição de associadas.
Há, entretanto, um trunfo: o acordo entre o bloco e a União Europeia. O acerto passou a vigorar em maio, mas de forma provisória. O tratado foi assinado pelos blocos e ratificado por instâncias como o Senado brasileiro, só que o texto ainda tramita no Tribunal de Justiça da União Europeia para checar a compatibilidade com as normas do bloco. Nos bastidores do governo e da diplomacia brasileira, há o entendimento de que as questões econômicas superam as divergências ideológicas no Mercosul.
Crime organizado
Isso não quer dizer que esta cúpula em Assunção se fixará apenas nas conexões comerciais. O combate ao crime organizado é uma pauta que integra todos os participantes, apesar das divergências de propostas sobre como combater os cartéis colombianos e facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) — classificadas pelo governo de Washington como terroristas. Ambas organizações têm correlação direta com as produções de coca da Colômbia e do Peru, e são as responsáveis pela logística de exportação para os Estados Unidos e a Europa.
Outra pauta a ser tratada na cúpula será o terremoto na Venezula, que fez quase mil mortos e deixou mais de 50 mil desaparecidos. O país há tempos vive uma crise de desabastecimento e o tremor piorou uma situação que já se apresentava precária. A embaixadora Gisela Maria Figueiredo Padovan, secretária de América Latina e Caribe do MRE, confirmou as discussões sobre o tema.
"Os países do Mercosul foram convidados a discutir o tema, nesse espírito de que essa também é uma questão de muita importância. É só a gente observar o que aconteceu na Venezuela para ver como é importante que a região esteja preparada. Porque, infelizmente, a perspectiva é de que os desastres aumentem", disse.
A embaixadora, porém, nega a a possibilidade de retorno da Venezuela ao Mercosul, uma vez que ainda nos tempos do ditador Nicolás Maduro foi rompida a cláusula democrática a ser respeitada pelos integrantes do bloco. "Em nenhum momento do semestre foi levantada a questão da suspensão (e retorno) da Venezuela", apontou.
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