Análise

Alexandre Garcia: 100 dias

A campanha, de fato, já está nas redes e não custa lembrar que a Justiça Eleitoral existe para organizar eleições, não para vigiar e censurar o debate político

Estamos a quase 100 dias das eleições. Se o Brasil fosse realmente uma república federativa, como está na Constituição, as eleições mais importantes do 4 de outubro próximo seriam as de governador, mas não é assim. O governo federal concentra recursos e poderes e, de fato, somos uma república unitária. Assim, vivemos mais uma hipocrisia e nos acostumamos a ela. Então, as escolhas mais decisivas serão na área federal, tanto no Executivo quanto no Legislativo, onde será renovada a Câmara, de 513 deputados, e dois terços do Senado — 54 senadores, dois por unidade da Federação. As forças mais barulhentas não estão nos partidos, mas nas ideologias, com esquerda e direita já se digladiando nas redes sociais, a grande ágora digital.

Do lado da esquerda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer ser eleito pela quarta vez. Pré-candidatos do lado da direita, o senador que leva o sobrenome Bolsonaro e os dois governadores de estados centrais. A quase 100 dias do primeiro turno, há desgastes provocados pelos próprios postulantes. Flávio escondeu por tempos a relação de pedinte de Vorcaro, e, com a revelação, desgastou-se bastante. Estava à frente de Lula e, agora, está atrás nas pesquisas. O mais grave é que passou à frente de Lula em rejeição, segundo o Datafolha. Pelo acervo de votos que tem, Jair Bolsonaro conserva potencial de procurar compor as forças contra a esquerda.

Lula, por sua vez, demonstra a toda hora que é volúvel, como mencionou Donald Trump (e não "volátil" como traduziram mal). A última foi dizer para a diretora do FMI e o chanceler alemão que nunca foi esquerdista — o que é risível, mas não é surpresa para quem acompanha as declarações de Lula em sua história política.

Contra Flávio devem pesar na campanha as idas à Casa Branca. Será acusado de atrair governante estrangeiro para a eleição brasileira. Mas Lula não fica atrás. Será acusado de provocar briga com Trump num momento em que deveria conversar para aliviar tarifas. Terá que explicar a semelhança de compra votos com a infinidade de benesses em véspera de eleição, que desviam os impostos do custeio de serviços que o Estado deveria prestar.

Ônus Vorcaro

E ainda há o "Ônus Vorcaro": por enquanto, a reunião que teve com o dono do Master, o envolvimento de seu líder no Senado e as raízes no importante PT baiano. Nesta quarta-feira, vai arrumar briga com os donos de veículos a gasolina, com a adição de mais etanol — três vezes o máximo suportável pelos motores.

A favor de Flávio está o fato de que não é responsável pela atual situação de queixa generalizada do comércio, indústria e agro contra o governo. Romeu Zema e Ronaldo Caiado tampouco são responsáveis pelo aperto causado pelo excesso de gastos do governo federal e suas consequências na inflação e juros.

Mas, enquanto Lula carrega esse peso provocado por sua própria administração, o lado anti-Lula se enfraquece com brigas internas em que as emoções são mais fortes do que a razão. Já as manifestações de fanatismo revelam empate na insensatez. Se no fim der empate, como no Peru e na Colômbia, quem impediu comprovante em papel do voto digital vai se arrepender.

Na última eleição presidencial, tivemos um virtual empate e não aprendemos com as consequências dele no 8 de Janeiro. A campanha, de fato, já está nas redes e não custa lembrar que a Justiça Eleitoral existe para organizar eleições, não para vigiar e censurar o debate político. Que os fatos escandalosos do Centro de Combate à Desinformação, revelados pelo celular de Eduardo Tagliaferro, nunca mais se repitam. Em eleição democrática, os antagonistas é que se vigiam.

 

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