
A nova pesquisa Datafolha, publicada nesta terça-feira (22/6), mostra que 59% dos brasileiros concordam, total ou parcialmente, com a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facões Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Simultaneamente, 74% dos consultados, ou seja, 3 em cada 4 brasileiros, reprovam a eventual intervenção norte-americana contra integrantes dessas facções em território nacional, sem aprovação prévia do governo brasileiro.
A preocupação dos brasileiros com o crime organizado explica mais esse cenário do que qualquer alinhamento ideológico com a política externa dos Estados Unidos.
Isso se dá porque os problemas de segurança pública e criminalidade são considerados por 16% de brasileiros como o maior desafio enfrentado no país. A saúde lidera as preocupações com 20%, enquanto a economia fica em 3º lugar com 11%, conforme pesquisa Datafolha de dezembro de 2025.
Para além desse fator, um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em maio deste ano, indicou que 41% da população do Brasil vivem em zonas influenciadas pelo crime organizado.
A mais recente Datafolha ouviu 2.004 pessoas maiores de 16 anos, em 139 municípios, entre os dias 17 e 18 de junho. A pesquisa possui margem de erro de 2 pontos percentuais e foi registrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-09956/2026.
Conhecimento sobre o assunto
A maior parte dos brasileiros afirma estar a par da decisão dos Estados Unidos de classificar as duas principais facções criminosas do país como organizações terroristas. Segundo o levantamento, 83% dos entrevistados disseram conhecer a medida, enquanto 72% afirmaram estar bem informados (35%) ou mais ou menos informados (37%) sobre o tema.
Os dados indicam ainda amplo apoio à classificação. A percepção parece estar associada à preocupação da população com a violência e com o avanço do crime organizado, fenômeno que há anos impacta a rotina de moradores em diferentes regiões do país.
Apesar disso, a opinião pública se divide quando o assunto é a motivação do governo norte-americano. Metade dos entrevistados (50%) acredita que os Estados Unidos atuam com intenção de auxiliar o Brasil no enfrentamento às facções. Em sentido oposto, 47% avaliam que a medida serve de pretexto para ampliar a influência de Washington sobre assuntos internos do país.
Perfil de preferência política
A pesquisa também revela diferenças significativas conforme a preferência política dos entrevistados. Entre os eleitores que se identificam com o Partido Liberal (PL) ou declaram voto em Flávio Bolsonaro, prevalece a visão de que a iniciativa americana representa uma colaboração no combate ao crime.
Já entre os simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a avaliação predominante é a de que os Estados Unidos buscam interferir em questões que deveriam ser tratadas exclusivamente pelo Brasil.
Mesmo com essa divisão, existe um ponto de convergência: a rejeição a qualquer atuação unilateral estrangeira em território nacional. De acordo com o levantamento, 74% dos consultados discordam que os EUA tenham direito de realizar ações contra integrantesde facções criminosas no Brasil sem autorização prévia do governo brasileiro.
Fator Bolsonaro
Outro dado apontado pela pesquisa é a percepção sobre a influência política do senador Flávio Bolsonaro no episódio. Para 54% dos entrevistados, o parlamentar teve participação ou influência na decisão americana. Entre esse grupo, 57% consideram que a eventual atuação foi prejudicial ao Brasil, enquanto 37% a avaliam como positiva.
Os números também sugerem que a discussão sobre segurança pública, combate ao crime organizado e soberania nacional tende a ocupar espaço relevante no debate político e eleitoral. Ao mesmo tempo em que parte expressiva da população defende medidas mais duras contra as facções, permanece forte a resistência a qualquer iniciativa que possa ser interpretada como interferência estrangeira em assuntos internos do país.
A classificação
As facções brasileiras Comando Vermelho (Comando Vermelho) e Primeiro Comando da Capital (Primeiro Comando da Capital) passaram a ser oficialmente classificadas pelo governo dos Estados Unidos como organizações terroristas no dia 5 de junho. A medida marcou uma mudança na forma como o país trata os grupos, que deixam de ser enquadrados apenas como organizações criminosas ligadas ao narcotráfico e passam a integrar a lista de entidades associadas ao terrorismo na legislação norte-americana.
A decisão havia sido anunciada anteriormente, em 28 de maio, pelo governo do presidente republicano Donald Trump, o que abriu um período de negociações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. Desde então, o governo brasileiro buscou diálogo para tentar reverter ou ao menos mitigar os efeitos da classificação, enquanto analistas passaram a avaliar possíveis impactos práticos da medida nas relações bilaterais e na cooperação em segurança.
Na prática, a designação amplia o alcance de sanções dos EUA, permitindo maior pressão sobre bancos, empresas e indivíduos que tenham qualquer vínculo com as facções, além de prever restrições migratórias e possíveis bloqueios de ativos sob jurisdição americana.

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