
As mudanças climáticas tornaram a drenagem urbana um dos maiores desafios das cidades brasileiras. Enchentes, alagamentos e deslizamentos denunciam os limites de um modelo de infraestrutura baseado em canalizar rapidamente a água da chuva, sem considerar os processos naturais de infiltração e recarga dos aquíferos. Essa é a principal reflexão de Infraestrutura Urbana: Planejar e Projetar Cidades Mais Sustentáveis, novo livro da arquiteta Maria do Carmo de Lima Bezerra, professora da Universidade de Brasília (UnB). A obra reúne mais de três décadas de experiência em ensino e pesquisa, e propõe uma revisão dos paradigmas que orientam o planejamento urbano brasileiro. Com prefácio da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, o livro defende soluções baseadas na natureza, maior integração entre infraestrutura e urbanismo e uma mudança na forma de pensar as áreas verdes, que, segundo Maria do Carmo, deixaram de cumprir funções ecológicas para atender, predominantemente, a critérios estéticos. Ao Correio, a professora afirma que o Distrito Federal ilustra os desafios dessa transição. Para ela, grandes obras de drenagem continuam reproduzindo modelos ultrapassados, quando seria possível reduzir alagamentos por meio de áreas permeáveis, jardins de chuva e sistemas que devolvam a água ao solo. Leia a entrevista a seguir.
Que lacuna na formação de arquitetos e urbanistas o livro busca preencher?
O livro nasceu da minha experiência de 32 anos lecionando infraestrutura urbana na UnB. Ao longo desse período, percebi que existia uma lacuna na formação dos estudantes de arquitetura e urbanismo. A proposta foi reunir, de forma didática, os conhecimentos sobre infraestrutura urbana articulados ao planejamento e ao projeto das cidades, mostrando como decisões urbanísticas afetam sistemas de água, esgoto, drenagem, mobilidade e energia.
Em um cenário de mudanças climáticas, qual é hoje o principal desafio da infraestrutura urbana brasileira?
Sem dúvida é a drenagem. É onde os impactos das mudanças climáticas aparecem de forma mais evidente para a população, com alagamentos, enchentes e deslizamentos. O modelo tradicional tenta retirar a água o mais rápido possível da cidade. O que precisamos fazer é justamente o contrário: favorecer a infiltração da água no solo, reproduzindo o funcionamento da natureza e reduzindo tanto as inundações quanto a escassez hídrica.
Como funcionam as soluções baseadas na natureza e por que elas são importantes?
Elas procuram imitar os processos naturais. Em vez de concentrar toda a água em galerias e levá-la para outro lugar, utilizam jardins de chuva, áreas de infiltração e infraestrutura verde para que a água permaneça onde caiu, recarregando os lençóis freáticos. O conceito é trabalhar um metabolismo circular da cidade, em vez de um metabolismo linear que simplesmente transfere o problema para outro ponto.
O Distrito Federal tem investido em grandes obras de drenagem. Elas seguem esse conceito?
Não. O Brasil continua muito preso aos modelos tradicionais, que já vêm sendo questionados internacionalmente há décadas. A solução adotada continua sendo ampliar tubulações. Isso resolve o problema por um tempo, mas, com o aumento da impermeabilização e das chuvas extremas, esses sistemas voltam a ficar obsoletos. Poderíamos combinar intervenções menores com soluções baseadas na natureza, reduzindo custos e impactos urbanos.
Em relação a Brasília, o que poderia ser feito de forma diferente?
Brasília tem uma grande vantagem — dispõe de extensas áreas verdes. O problema é que muitas delas deixaram de cumprir funções ecológicas. Hoje, os gramados são pensados principalmente para serem bonitos. Precisamos recuperar sua capacidade de infiltração, descompactando o solo e transformando essas áreas em parte do sistema de drenagem. As áreas verdes precisam voltar a desempenhar funções ambientais, além das funções paisagísticas.
Quais são os maiores obstáculos para implementar cidades mais resilientes?
O principal desafio é romper paradigmas. Existe uma cultura consolidada na engenharia, no mercado e até na própria sociedade de repetir as mesmas soluções. Muitas pessoas acreditam que o modelo tradicional é sempre o melhor porque foi o que historicamente receberam. Mudar essa lógica exige formação técnica, divulgação de conhecimento e novas gerações de profissionais preparadas para pensar de outra forma.
Eventos extremos, como as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, reforçam essa necessidade?
Sim. O desastre mostrou que não basta construir obras cada vez maiores. É preciso rever o uso do solo em escala urbana e regional. A impermeabilização das cidades, o manejo inadequado das áreas agrícolas e a perda da vegetação reduzem a capacidade de infiltração da água. Se essas causas não forem enfrentadas, continuaremos apenas remediando os efeitos.
Existe uma solução única para todas as cidades brasileiras?
Não. Esse é justamente um dos princípios das soluções baseadas na natureza. Cada região tem características próprias de clima, relevo, vegetação e ocupação. As respostas precisam considerar essas diferenças. O objetivo não é eliminar completamente a infraestrutura convencional, mas utilizá-la apenas quando as soluções naturais não forem suficientes. O planejamento urbano precisa aprender a trabalhar em parceria com a natureza, e não contra ela.
Que mudança de mentalidade o livro pretende incentivar em quem trabalha com planejamento urbano?
Quero mostrar que infraestrutura urbana não é apenas uma questão de engenharia. Ela influencia diretamente a qualidade de vida, a sustentabilidade e a capacidade das cidades de enfrentar as mudanças climáticas. O livro busca formar novos profissionais e também servir de referência para técnicos e gestores públicos, que precisam planejar cidades mais resilientes e preparadas para o futuro.
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