
Em outubro, o Senado Federal passará por uma renovação de dois terços das suas cadeiras. Cada cidadão poderá votar em dois senadores para as 54 vagas que serão abertas. Diante dessa oportunidade, o plano do PL é eleger a maior bancada da Casa Alta para dar andamento a pautas de interesse, como o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Nessa semana, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, estimou que o partido elegerá 28 senadores. No entanto, o otimismo do chefe do partido contrasta com a realidade das pesquisas. Segundo um cruzamento com os últimos resultados, nove candidatos do PL seriam eleitos e outros quatro estariam empatados com outras siglas, ainda podendo reverter o cenário.
Em um cenário otimista, em que todos obtenham êxito, seriam 13 senadores eleitos pelo PL em 2026. Esse número se soma ao de oito senadores que permanecem na Casa até 2030, tendo em vista que foram eleitos em 2022 e seguem com mandatos de oito anos. Nesse cenário, a bancada do PL na Casa seria de 21 senadores. Um número que ainda está abaixo dos três quóruns necessários para aprovação de matérias no Senado.
Para a aprovação de projetos, é necessário o voto da maioria simples, ou seja, 41 senadores. Para a aprovação de Emenda à Constituição (EC), 49 parlamentares. No caso do impeachment de ministros do STF ou presidente da República, depende-se do voto favorável de 54 senadores.
O vice-líder do PL no Senado, Izalci Lucas (PL-DF), está otimista com uma mudança desse cenário. "Eu acredito que vai crescer ainda e vamos fazer realmente uma boa bancada", afirmou ao Correio. Na avaliação dele, as atuais pesquisas são um retrato de um momento no qual muitos dos eleitores ainda não definiram seus senadores. A perspectiva, segundo ele, é que, com a aproximação de outubro, os números mudem.
Porém, o cenário atual já aponta para algo que deve se concretizar: o PL dependerá das alianças com outros partidos para ter o andamento da pauta de impeachment. O Novo, por exemplo, que defende publicamente a destituição de ministros do cargo, pode eleger dois senadores em um cenário otimista, o que ajudaria nos planos do bolsonarismo. No entanto, para garantir o andamento dessa agenda, a sigla terá que convencer mais partidos.
Carlos Eduardo Borenstein, doutor em ciência política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), avalia que a necessidade de aliança com outras siglas ainda se soma a outros fatores, como a conjuntura. "Eu acho que o bolsonarismo dificilmente vai ter maioria, e ele ainda dependeria de outros partidos e do clima político, que vai ser influenciado também pela condução de agenda de um próximo governo", explicou.
Com um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a pauta do impeachment tende a perder tração, ainda que surjam novos acontecimentos, como os do Banco Master, que aumentaram as críticas da população contra o Supremo. Com uma eleição de Flávio Bolsonaro (PL), a depender da condução que ele escolher seguir, a matéria tende a ganhar força.
Ainda a própria presidência do Senado também tem poder de veto sobre a matéria, se desejar. Com o senador Davi Alcolumbre (União-AP) comandando a Casa nos últimos dois anos, o impeachment de ministros da Corte não entrou na pauta, independente do apelo de senadores. Um novo presidente em 2027 pode alterar o cenário. No entanto, nos bastidores, Alcolumbre já se articula para se manter no poder.
Para além do PL, segundo um levantamento feito pelo partido Novo em 2025, o União Brasil, o Podemos, o Progressistas (PP) e o Republicanos têm grande parte da bancada do Senado favorável ao impeachment do ministro Alexandre de Moraes. Pesquisas atuais mostram que o União poderia eleger sete senadores, por exemplo, o que pode favorecer os planos do PL. No entanto, o segundo partido que se destaca no maior número de senadores a serem eleitos é o MDB.
Borenstein ainda alerta que um Senado formado em sua maioria por partidos historicamente ligados à direita não é garantia de um impeachment de ministros. "Tem muito senador que é de direita e que, não necessariamente, vai aderir a essa pauta, que na verdade é bolsonarista", avaliou.
Gustavo Ribeiro, mestre em ciência política pela Sorbonne, apontou ao Correio que o PL pode estar querendo garantias de um Centrão que, atualmente, caminha para não se comprometer com o apoio de Flávio à Presidência. "A oposição conta sua bancada pelo rótulo ideológico, mas o impeachment exige disciplina de bancada — e disciplina é exatamente o que o Centrão está se recusando a vender", analisou.
A pulverização de candidatos
Em São Paulo, por exemplo, a direita conta com mais de três candidaturas ao Senado Federal que, juntas, somam cerca de 30% das intenções de voto. No entanto, separados, perdem para Marina Silva (Rede), que lidera com 14%, e para Simone Tebet (PSB), com 12%. Isso porque quanto mais candidatos, mais distribuídos os votos do eleitorado ficam.
As pesquisas atuais mostram que, no Sudeste, maior colégio eleitoral do país, o PL não elegeria senadores. Em Minas Gerais, a candidata do PT, Marília Campos, lidera com mais de 20% dos votos, enquanto o PL tenta negociar um governador que fará palanque para Flávio no estado.
“Existe um problema de unidade interna na direita em São Paulo e aí tem uma fragmentação. Se eventualmente eles tiverem três ou quatro candidaturas na eleição, eles correm o risco de eventualmente não eleger nenhum senador, por causa dessa falta de coordenação”, avaliou Borenstein.
Já na avaliação de Ribeiro, é muito difícil que São Paulo não eleja alguém ao Senado ligado ao governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos). “Tradicionalmente leva pelo menos uma (...). É difícil imaginar um cenário em que a direita não elege nenhum senador em São Paulo, com o governador provavelmente vencendo com folga”, pontuou.
No Rio de Janeiro, a candidata do PT, Benedita da Silva, também lidera as pesquisas, seguida por Marcelo Crivella do Republicanos, ligado ao bolsonarismo. No entanto, o candidato do PL, Carlos Portinho, aparece em quinto nas pesquisas. Outro exemplo de uma pulverização de candidaturas.
Há dois estados que estariam no caminho do “ideal” para o PL. É o caso de Santa Catarina e de Mato Grosso do Sul, que elegeriam dois senadores do partido. Segundo levantamento da OCP News/Neokemp Pesquisas divulgado no último dia 27, Carlos Bolsonaro (PL) lidera as intenções de votos, com 27,7%, enquanto Caroline De Toni (PL) ocupa a segunda colocação, com 21%.
No Mato Grosso do Sul, a pesquisa Campo Grande News/Novo Ibrape divulgada na última semana aponta os candidatos Reinaldo Azambuja (PL) e Capitão Contar (PL) nas duas primeiras posições para o Senado.
Ainda é cedo
A maré ainda pode mudar para o PL. Ribeiro alerta que as atuais pesquisas apontam mais para o nível de lembrança do senador na memória do eleitorado, do que a intenção de voto. "Pesquisa para Senado em julho não traduz cenário nenhum. O eleitor simplesmente não está prestando atenção. Corrida para o Senado se decide nas últimas semanas e talvez dias", explicou.
No mesmo sentido, Borenstein avalia que, no momento, o eleitor está mais atento à eleição presidencial. "Somente após a definição do voto para presidente e para os governos estaduais é que vai se pensar na eleição para o Senado. E têm muitos eleitores que vão saber muito próximo da eleição que eles terão que votar em dois senadores", comentou.

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