
A advogada e candidata à Presidência pelo Democracia Cristã, Clariana Barão, defendeu veementemente a participação feminina na corrida eleitoral e enfatizou que "não existe democracia plena sem a participação das mulheres na sociedade e na política". As declarações, às jornalistas Denise Rothenburg e Ana Maria Campos, ocorreram na sabatina do Correio, em parceria com Anfip (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil), Febrafipe (Associação Nacional de Fiscais de Tributos Estaduais), Unafisco Nacional (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil) e Fenat (Federação Nacional dos Auditores Fiscais Tributários).
A candidata avalia ser necessário enxugar a máquina pública e promover reformas, inclusive da Previdência. Condenou a polarização e ressaltou que não anistiaria os golpistas do 8 de janeiro, mas "trabalharia a individualização e a proporcionalidade das penas".
Clariana Barão também disse defender o funcionalismo público. "Serei uma soldada dos servidores públicos." Veja a seguir os principais trechos das propostas da presidenciável.
O que a motivou a entrar na política?
Por que Clariana é candidata a presidente da República? Essa é uma pergunta que escuto muito. A primeira resposta é que não existe democracia plena sem a participação das mulheres na sociedade e na política. Quando lançamos a nossa candidatura, éramos a única opção feminina e, agora, temos também mais uma chapa feminina, o que eu acho muito plural e importante. Contudo, em um universo de 13 candidaturas, nós, com muita dificuldade, estamos conseguindo trabalhar a nossa chapa. Eu acredito, sim, que a mulher precisa estar presente, e quero ser a voz dessas mulheres nesta campanha eleitoral e como presidente deste país.
Qual é o seu entendimento em relação às indicações para o Judiciário? Hoje, temos o Supremo Tribunal Federal com uma única ministra na sua composição, e nos tribunais superiores, as mulheres também são minoria. A senhora tem o compromisso de indicar mais mulheres?
Tenho esse compromisso. O próximo presidente ou a próxima presidente escolherá quatro ministros para o STF, e o meu compromisso é que serão quatro mulheres, porque temos de trabalhar pela equidade das mulheres nos Poderes. Veja só: não apenas o STF, com 11 cadeiras, tem apenas a ministra Cármen Lúcia, mas também no TSE temos oito cadeiras e apenas uma ministra. No STJ, são 33 cadeiras, e apenas cinco mulheres. Isso demonstra um total desequilíbrio em relação ao cenário atual do país. Hoje, nós somos 52,8% do eleitorado, e 51,5% da população são mulheres. Essa falta de equidade traz um desequilíbrio, pois não conseguimos ter os nossos direitos defendidos e preservados. Nós, mulheres, somos, a todo tempo, segregadas a um segundo plano. Então, eu defendo, sim, esse equilíbrio. Claro, repito, valorizando escolhas republicanas e absolutamente técnicas. Temos um estudo que avaliou 125 países e que aponta que os governos que têm mulheres à frente são menos corruptos. E estudos de revistas renomadas, inclusive deste ano, mostram que as mulheres à frente da gestão de empresas trazem até 15% mais de lucro.
Como avalia a situação econômica do país?
É uma conta muito básica: precisamos gastar menos do que arrecadamos, e não é o que acontece. O Brasil hoje vive um endividamento de trilhões de reais, o que representa quase 81% ou 82% do nosso PIB. Essa conta não fecha. Atrelada a isso, temos uma instabilidade fiscal e uma inflação oscilante, que não consegue chegar a um patamar de equilíbrio. O que acontece? Selic a 14% e juros altos. Quem é o maior prejudicado? É o povo, porque a população não tem acesso ao financiamento da casa própria ou, se tem, é com juros altíssimos. Aquele microempreendedor ou empreendedor que quer abrir um negócio e começar a vida não consegue uma linha de crédito que atenda às suas necessidades. Então, é claro que o Brasil urge pela necessidade de passar por reformas, inclusive a reforma da Previdência, porque sabemos que a Previdência do Brasil já está em vias de quebrar. E precisamos trabalhar mais.
Quais são suas propostas?
Vamos trabalhar o cenário econômico trazendo os nossos economistas, incluindo a nossa professora e economista Elena Landau. Vamos criar uma proposta adequada. Primeiro, precisamos ter os números na mesa para poder entender a realidade. A partir do que é exposto, eu não tenho condições de criar uma estratégia, porque não acredito naquilo que se publica neste governo. Preciso ter esses dados em mãos, mas tenho certeza de que teremos uma equipe muito competente para definir esses critérios.
A senhora pretende reduzir o número de ministérios?
Acredito que temos de dar uma enxugada na máquina pública. A máquina pública do Brasil é absolutamente inflada. Voltamos àquela conta do começo: temos de gastar menos e arrecadar mais, e não é o que vem acontecendo, o que gerou essa dívida de R$ 10 trilhões. Vamos ter de enxugar, mas de forma eficiente. Não adianta enxugar aqui para dizer que cortei um ministério e pendurar todos os funcionários desse ministério em outra pasta. Temos de ter responsabilidade, principalmente responsabilidade fiscal: enxugar fazendo uma análise prévia daquilo que está sobrando e do que está sendo replicado de maneira desnecessária para, então, começar a cortar.
Como faria esses cortes?
O primeiro ponto que eu enxugaria é a publicidade. Nós temos um governo que pratica muito a publicidade. Eu, como defensora ativa das mulheres, posso citar o exemplo do Pacto Nacional de Combate ao Feminicídio, que foi assinado no começo do ano. Do começo do ano para cá, o feminicídio só aumentou — no primeiro trimestre, cresceu 7,5%. Agora, a primeira-dama pretende fazer um ato para comemorar os 200 dias da assinatura. Para quê? O que há para comemorar nisso, gastando milhões de reais de dinheiro público? Se começarmos enxugando por esse desserviço, já começamos a fazer essa conta fechar.
Que medidas adotará para combater o feminicídio?
Em 2025, nós tivemos 1.571 mulheres assassinadas vítimas de violência de gênero e, desse número, três vezes mais de tentativas de homicídio vinculadas ao gênero. O Brasil precisa agir. O feminicídio é uma epidemia no nosso país, e nós precisamos agir. Muita gente diz: "Ah, o crime ocorre dentro de casa, não temos como evitar". Veja só, e isso é muito interessante, porque quando vejo os homens debatendo, eles dizem: "Não, nós temos de fazer". Mas fazer o quê? Eu tenho uma proposta boa para isso. Nós precisamos compreender que não é a segurança pública que impede o feminicídio. Não precisamos nem de mais leis. O feminicídio hoje já tem uma pena de até 40 anos de cadeia, de modo que nós já temos o suficiente. O que precisamos fazer é criar programas que trabalhem na base. O feminicídio não acontece na primeira agressão. A agressão começa verbal, passa a ser psicológica, depois física, até que essa mulher seja assassinada. Nós temos de criar um programa que incentive essa mulher a dar o primeiro passo, que é a denúncia.Mas o que acontece hoje com a denúncia? A mulher hoje tem a atitude de dar esse primeiro passo, que é denunciar. Em vez de ela chegar a uma delegacia e ser recepcionada com o acolhimento de que precisa — porque dar esse primeiro passo custou muito a ela —, recebe uma folha com uma lista de endereços: "Olha, agora a senhora vai ao IML; amanhã, vai à Defensoria; depois, vai aqui; e este é o endereço onde a senhora vai procurar uma casa de acolhimento". Às vezes, a mulher não tem sequer o dinheiro da passagem de ônibus para buscar esse atendimento.
O que pensa para mudar isso?
Vamos criar centros integrados de atendimento à violência doméstica. Quando essa mulher tiver essa iniciativa — e nós vamos gastar uma quantia adequada de dinheiro em publicidade para incentivar a denúncia —, assim que ela pisar em um centro integrado desses, não a deixaremos sair sem amparo. Dentro desse centro, teremos uma delegacia de atendimento à mulher 24 horas, um posto do IML para atendê-la no exame de corpo de delito imediatamente, e a Defensoria Pública pronta para atendê-la, tanto na medida protetiva que ela precisará requerer quanto em questões de pensão, guarda e filhos. Teremos também ali o encaminhamento para uma casa de acolhimento que a receba, oferecendo um tratamento multidisciplinar e multiministerial. Nós vamos fazer núcleos e centros espalhados pelas regiões e trazer núcleos também para cidades pequenas, conectando-os aos grandes centros integrados para otimizar esse trabalho. No ano passado, tivemos 132 mil medidas protetivas descumpridas. Treze por cento das mulheres que morreram tinham medida protetiva em vigor. E não vamos longe: o caso da Emiliane, de Águas Claras, de quem todo mundo viu a repercussão nesta semana. Essa mulher tinha 10 boletins de ocorrência contra o ex-marido. E você sabe o que aconteceu com ela? Foi-lhe negada a medida protetiva porque entenderam que ela não tinha provas suficientes, até que ela apareceu amarrada naquelas condições que o Brasil todo viu. É isso que não podemos deixar acontecer mais. Precisamos trabalhar na prevenção.
Feminicídio ocorre em todas as classes e níveis. Como evitar que esse agressor surja na sociedade?
É um trabalho multifatorial. O centro integrado é uma medida efetiva que vamos aplicar, mas esse programa de combate ao feminicídio é muito maior. Primeiro, temos de fazer, a médio prazo, um trabalho cultural nas escolas, na primeira infância. Teremos de capacitar e valorizar os nossos professores para que tenham condições de trazer para as crianças as noções de respeito que este país perdeu há muito tempo. Esse é um trabalho fundamental, mas de médio prazo. O que pretendo fazer para descobrirmos a violência doméstica de maneira embrionária? Pretendo capacitar os agentes comunitários de saúde. Eles são os primeiros profissionais que acessam o ambiente doméstico.
Os que fazem a visita na casa?
Aqueles que fazem a visita na casa. Porque a residência que vive sob a violência familiar e doméstica apresenta sinais. Se o agente for capacitado para isso, ele observa uma coisa aqui e outra ali, elabora um relatório e sinaliza ao Conselho Tutelar e ao CRAS para avaliarem a residência, pois há indícios de violência doméstica. Assim, nós vamos identificar o problema no começo. Traremos essa família para dentro do ambiente do CRAS e do Conselho Tutelar para esmiuçar a situação. A mulher não precisará ter a coragem de denunciar sozinha, pois agiremos antes. Essa é a minha proposta.
O número de idosos no país também vem crescendo? Quais são suas propostas para esse segmento da população?
Os idosos representam, hoje, 23% do eleitorado no Brasil, e ninguém escuta propostas a respeito deles. Na verdade, atuaremos em duas frentes: temos de falar dos idosos e também de quem cuida deles. Tudo isso está contemplado em nossas propostas. A primeira questão dos idosos: precisamos capacitar as famílias para atendê-los. A maior parte dos idosos não é atendida em hospitais; o primeiro cuidado vem de quem cuida, que geralmente é a filha ou a neta. Hoje em dia, temos um número muito alto de crianças que são investidas da obrigação de cuidar, por exemplo, dos avós. Nós temos de capacitar toda uma comunidade para fazer o atendimento adequado a esses idosos, para que possam envelhecer de maneira digna. Sabemos que chega um momento em que eles podem ser acometidos por demências, por exemplo. O que acontece? Muitas vezes, por falta de instrução e apoio, esse idoso fica jogado. A realidade é essa. Nós vamos trazer centros e trabalhar não apenas nos abrigos e casas de acolhimento, porque entendo que temos de integrar a família no contexto do cuidar do idoso. Isso aumenta a qualidade de vida do idoso, quando ele está inserido no ambiente familiar, em vez de apenas segregá-lo. Vamos melhorar e capacitar a estrutura para que o idoso tenha uma vida de qualidade, com atendimento prioritário na saúde pública. Temos projetos, por exemplo, de aplicativos na saúde pública para agendar e confirmar consultas pelo celular para otimizar o sistema. Tudo isso em um projeto que envolve a família e o Estado.
Como a senhora se considera ideologicamente: de direita, de esquerda ou de centro?
Sou de Brasil. Acho que, há muito tempo, as pessoas no país perderam a noção de que a política é um instrumento para fazer o bem. A política serve para o social, para cuidar. Hoje em dia, não digo nem polarização, mas sim guerrilha. Temos dois lados dessa guerrilha. Se o lado A está no poder, segrega-se absolutamente o lado B. Se o lado B está no poder, segrega-se absolutamente o lado A, como se não houvesse boas ideias dos dois lados. Existem boas ideias de ambos os lados, que são desprezadas pela ideologia que se tornou a política. Não há mais um olhar para o Brasil, há apenas a defesa das causas próprias e das próprias ideologias. Minha tendência caminha para o centro-direita, mas sou absolutamente contra essa polarização. Olho para a frente, para o Brasil. Mais do que qualquer coisa, acho que uma grande capacidade das mulheres é ouvir e conciliar. Nós precisamos ouvir todos os lados e conciliar.
O que fazer para resolver a questão das emendas parlamentares?
O que eu tenho como um princípio inafastável no que tange às emendas é: fiscalização e prestação de contas. Nós temos de atrelar isso. Eu não sou contra as emendas. Elas representam 25% do Orçamento da União, são bilhões de reais pulverizados em emendas. Mas acho que elas têm de trabalhar sobre três pilares. O primeiro é a finalidade: a emenda tem de atender à dor daquela região, não a um show ou a privilegiar o que quer que seja. Atrelado a isso, deve haver transparência. É dinheiro público. O dinheiro não é do governo. O governo não tem uma máquina de fazer dinheiro; o dinheiro é nosso. Acho que essa pulverização parte do princípio de que isso hoje é quase uma farra, quando, na verdade, deveria ser muito ajustada com base em princípios firmes para atingir a finalidade pretendida, que é atender de fato às dores de cada região a partir dos seus parlamentares.
Como fazer isso vindo de um partido pequeno, que não tem tanta representação no Congresso, que tem um deputado em um universo de 513?
É difícil, é um fato. Mas é difícil trabalhar para todos. Por exemplo, o Lula tem a mesma dificuldade, mesmo com uma bancada grande. O Bolsonaro teve a mesma dificuldade, e ele também tinha uma bancada grande. Então, eu vou trabalhar pelo caminho da conciliação.
Como se resolve essa situação? É por meio de emenda constitucional? É como está fazendo hoje o ministro Flávio Dino, que tenta promover mais responsabilidade por parte de quem apresenta a emenda e a executa?
Exatamente. Essa responsabilidade é o que eu atrelo a esses três pilares. Essa responsabilidade tem de ser intrínseca àquele parlamentar que faz as indicações. Temos de trabalhar a partir de uma escuta muito ativa. Teremos de criar um consenso. Temos um STF que julga, legisla e que vem extrapolando os patamares de sua competência. O ministro Flávio Dino, de fato, está aguerrido na questão das emendas, e eu até suspeito que ele provocará uma reviravolta muito grande nesse particular. Mas não precisaria o STF intervir nisso. Acho que deve ser uma tomada de consciência do próprio Congresso, e nós temos de trabalhar efetivamente essa realidade, pois até quando todos os passos do Congresso terão de ser ditados pelo STF?
Mas o STF foi provocado a entrar nesse assunto. Como fazer para que a Corte não seja provocada, e o Congresso resolva as suas mazelas?
Todos sabemos que é difícil. Mas eu estarei lá e terei de mostrar a que vim, porque senão o meu governo falhará miseravelmente. Sou uma mulher que já conquistou muita coisa quando estava desacreditada. Sempre consegui vencer e conquistar. Hoje em dia, na minha região, as pessoas dizem: "Olha, se a Clariana não conseguir, ninguém consegue". Esse é um bordão que as pessoas usam sobre mim. E pretendo caminhar por aí.
Existe alguma medida que seja eficiente para, pelo menos, reduzir a corrupção no nosso país?
Leis nós já temos muitas. O que precisamos é trazer efetividade para essa legislação. As pessoas hoje têm um senso de impunidade muito grande; elas não acham que a pena as alcançará. Esse sentimento de impunidade move esse instinto, esse afã da corrupção. Precisamos trazer para as pessoas a certeza de que a pena alcançará o cidadão. Acho que essa é a primeira medida. Investigou, está errado, pune. Pune mesmo. Temos de mostrar que a punição funciona. Esse é o primeiro ponto crucial: essa sensação. Veja os processos de corrupção: eles tramitam por anos até que prescrevem. Os parlamentares não têm medo de responder a processo de corrupção porque tramitam por anos até prescreverem.
O que o Executivo pode fazer para mudar essa realidade, sendo que esse é um trâmite do Judiciário?
Nós temos de trabalhar em um alinhamento de Poderes. Cada um, claro, com a sua independência, mas trabalhando em sintonia. Temos de trazer uma percepção, primeiro levantando os números. Quando trazemos todos esses números para a mesa, conseguimos trabalhar e gerar uma conscientização. De novo, usar a nossa publicidade para assuntos que realmente importam. Vamos falar: "Olha só, o Brasil é um país corrupto, estamos perdendo tantos reais no ralo da corrupção, e precisamos mudar esse cenário com a aplicação das penas que já existem" — que não são poucas. À medida que o Judiciário encampar essa campanha, acredito realmente que teremos proveito e resultados. Só precisamos mobilizar o país nessa estrutura. De que adianta falar aqui em criar mais leis? A Lei do Feminicídio, por exemplo, aumentou a pena para 40 anos, e o feminicídio só aumenta.
A senhora apoiaria um impeachment de ministro do Supremo? Vemos que o Senado tem muitos candidatos com essa pauta.
Não faço promessas eleitoreiras. Não sou a pessoa da lacração, atrás "likes". Gosto daquilo que é crível. Não apoio nenhuma conduta que seja ilícita ou irregular. Nós temos, sim, de passar por uma reformulação, inclusive do STF. Eu tenho uma leitura de que um ministro não pode decidir monocraticamente o destino de 2 ou 3 milhões de brasileiros. Não sou favorável a decisões monocráticas. Sou favorável, por exemplo, aos mandatos. Acho que ninguém precisa se eternizar no STF, até para não ficar atrelado àquele presidente que o escolheu. Porque o presidente já fica ali pensando: "Já tenho essa base aqui, estou tranquilo. O outro presidente que entrar não terá essa facilidade".
A senhora anistiaria os condenados pelos atos golpistas?
Não, eu trabalharia a individualização e a proporcionalidade das penas. Entendo a anistia como um instrumento de pacificação social, compreendo esse argumento, mas acho que cada caso é um caso. O que considero muito errado é essas condenações acontecerem em uma vala comum, com todos jogados em um mesmo grupo e sofrendo condenações coletivas. Acredito que precisamos realmente individualizar a conduta de cada um. Eu defendo uma revisão dessas penas. Trata-se de individualizar a conduta de cada um e trabalhar pela proporcionalidade daquilo que efetivamente cometeu. O que não acho crível, por exemplo, é um estuprador ter a mesma pena de uma mulher que pintou a estátua com batom. Isso não me parece razoável.
Defende uma revisão das penas também das autoridades que foram condenadas, como o ex-presidente Jair Bolsonaro ou os oficiais das Forças Armadas?
Acredito que sim. Acho que eles, assim como todos os outros, têm os mesmos direitos. Merecem uma revisão e serem compreendidos dentro do contexto da individualização e da proporcionalidade. Se essa for a pena justa deles, então que seja. Isso passaria pela Justiça, e não pelo Executivo rever essas penas.
A senhora falou em segurança jurídica, e nós temos a reforma tributária, que foi aprovada e que, gradativamente, passará a entrar em vigor. Avalia que deve haver mudanças?
A gente trabalha, trabalha, trabalha para aprovar uma coisa e, de repente, muda a ideologia, e pronto, todo aquele trabalho não valeu nada e volta tudo para a estaca zero. Considero isso um desserviço, um retrocesso. Acho que a reforma tributária tem pontos importantes. Essa digitalização, essa intercomunicação, talvez sejam coisas que venham a beneficiar o Estado. Mas acredito que temos de olhar para a frente. Se toda vez que assumir um presidente, ele falar: "Não, eu não respondo por isso, só respondo pelo meu CPF"... Não, você responde por tudo o que foi feito até aqui. Você assumiu, sentou-se nessa cadeira, então terá de dar continuidade ao que foi construído. Se toda vez que assumimos tivemos de começar do zero, que dia o nosso país vai evoluir? Então, eu não concordo em mudar tudo. Temos um Congresso cheio de parlamentares votando, aprovando e seguindo as tramitações, passando pelas comissões. Nós temos de, no mínimo, respeitar isso.
Uma das maiores preocupações dos eleitores, segundo indicam as pesquisas, é a segurança pública. Qual é a sua visão em relação ao combate à criminalidade?
Vejo muitas pessoas falando: "Temos de considerar os faccionados como terroristas", e tudo mais. Temos uma lei antifacção aprovada que entrou em vigor em março deste ano. Temos uma PEC da Segurança Pública tramitando para aprovação, que logo mais entrará em vigor também. Em uma análise, são duas medidas extremamente proveitosas e úteis para o combate à criminalidade neste país. Acho que temos ferramentas para combater a criminalidade de maneira adequada. O meu plano combina com essa lei antifacção, por exemplo, trabalhando para perseguir o dinheiro das facções. Por que não se persegue o dinheiro? Ou, quando se persegue, é apenas de forma estratégica: "Não, vamos focar só nisto aqui". Não, vamos perseguir, vamos trazer à luz qual é o fim desse caminho. Siga o dinheiro. Até a reforma tributária vem a favor disso, porque teremos essa intercomunicação do fluxo do dinheiro. Por que não podemos saber quem está lá na ponta? Nós temos de estrangular as facções criminosas. E fazemos isso com uma gestão integrada. Sou a favor de que estados, municípios e a União trabalhem em conjunto, em consonância, mas cada um mantendo a sua independência. Essa ideia de passar tudo para a tutela da União, eu não apoio. Acho que teríamos de mudar de maneira muito complexa o ordenamento jurídico do país para que as coisas acontecessem assim, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, mas essa não é a nossa realidade. Acho que temos de trabalhar com essa independência, mas, antes de tudo, com integração. Temos de integrar forças, integrar entes e ampliar esse combate, porque hoje temos 25% das famílias brasileiras vivendo sob a tutela do crime organizado. Famílias que têm de comprar o gás da facção, comprar a internet de quem eles mandam.
Em relação ao servidor público, o que eles podem esperar do seu governo?
Podem esperar um governo justo, que valorize os servidores, que pense nas mães servidoras públicas e amplie e traga uma rede de atenção com creches, por exemplo. Um governo que pense nos auxílios, em expandir o auxílio-saúde para as crianças até determinada idade. Um governo que respeite a recomposição salarial. Eu defendo o funcionalismo público, defendo as mulheres servidoras. Precisamos criar uma estrutura para que as pessoas possam trabalhar com dignidade neste país. Com certeza, serei uma soldada dos servidores públicos.
Há economistas dizendo que é preciso fazer uma reforma administrativa para eliminar a sobreposição de funções e de ações no serviço público. O que pensa em relação ao assunto?
Trabalho com essa mesma linha de pensamento. Acho que temos de evitar o retrabalho. Sem dúvida nenhuma, não podemos onerar a máquina pública. Temos de criar condições para enxugar a máquina. De novo, é aquela conta básica: gastar menos do que arrecada. Esse é o princípio macro da economia. Vamos precisar enxugar o retrabalho que acontece. Concordo, inclusive, com a fusão de ministérios. Vamos enxugar, sem dúvida nenhuma, essa máquina pública. Agora, nós daremos condições. Não tem cabimento um governo entrar e sair aplicando demissão em massa. Vou dar um exemplo: nós temos 4,5% do PIB do Brasil comprometidos em incentivos fiscais. Vamos buscar essas empresas que recebem incentivos fiscais e exigir delas a oferta de postos de trabalho qualificados. Essa conta tem de fechar; é a mesma matemática para os incentivos. Temos ferramentas para abrir postos de trabalho qualificados, de modo que, se for necessário enxugar a máquina pública — o que não me parece que deva ser feito por meio da demissão de servidores, mas sim porque a estrutura em si é cara e ineficiente, gerando uma morosidade que onera o trabalho —, nós faremos.
Cortaria os incentivos ou faria uma revisão?
Faria uma revisão. O Brasil, como eu disse, compromete 4,5% do seu PIB em incentivos fiscais. São R$ 612 bilhões comprometidos para o ano de 2026. É muito dinheiro. O que nós precisamos saber são perguntas básicas: "Essa empresa está produzindo quanto? Quanto ela está trazendo de arrecadação para os cofres do Brasil? Quanto trará de investimento do exterior? Quantos postos qualificados de trabalho ela está gerando?". Colocamos tudo isso na ponta da caneta. Se a isenção ou incentivo fiscal que ela recebe gera um superavit, o incentivo é viável. Se não há superavit, corta-se o incentivo, porque tivemos uma massa de incentivos fiscais concedidos por meio de decisões não republicanas, decisões que contrariavam o interesse do Brasil.
E na educação, qual é o seu principal projeto?
Precisamos cuidar desde a primeira infância. Primeiro, precisamos de mais creches para que as mães possam trabalhar. Esse é um ponto. Precisamos trabalhar no contraturno, ampliar o ensino em tempo integral. O ensino de tempo integral hoje está na casa de 20% a 25%, precisamos ampliar isso. Por quê? Porque no Brasil temos uma estatística muito alta de crianças que saem do nono ano analfabetas. E não é analfabetismo de não saber fazer contas, é o analfabetismo de não saber ler e escrever. Que futuro conseguiremos oferecer para uma criança que sai do nono ano sem saber ler e escrever? Precisamos trabalhar o contraturno e ampliar o ensino técnico, sem dúvida nenhuma. Temos vários exemplos de sucesso que já funcionam no Brasil e que nós vamos replicar.
Estagiário sob a supervisão de Cida Barbosa

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