A participação de jovens na política institucional não esbarra na falta de interesse, mas nas condições oferecidas pelos partidos para que eles transformem o engajamento em mandato. É o que aponta a pesquisa “Juventudes e participação partidária”, realizada pela Legisla Brasil, organização suprapartidária voltada à qualificação e à representatividade do Legislativo. O levantamento mostra que, embora quase 30 mil pessoas entre 18 e 29 anos tenham disputado as eleições de 2024, a juventude ainda encontra dificuldades para conquistar espaço nas urnas.
O estudo cruzou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre filiação partidária, candidaturas e eleições e ouviu 62 jovens que são ou já foram filiados a 16 partidos de centro, direita e esquerda, em todas as regiões do país. Também foram considerados depoimentos de uma consulta pública com 94 jovens e de dois grupos focais.
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Um dos principais obstáculos identificados está no financiamento das campanhas. Em 2024, uma candidatura jovem recebeu, em média, R$ 23.028, valor equivalente a 64% dos R$ 36 mil destinados, em média, às candidaturas de faixas etárias mais elevadas.
A diferença aparece também na conversão das candidaturas em mandatos. Segundo os dados analisados pela Legisla Brasil, quanto mais jovem o candidato, menor a taxa de sucesso eleitoral. O fenômeno foi observado nos quatro ciclos eleitorais analisados, entre 2018 e 2024, inclusive nas eleições municipais, consideradas a principal porta de entrada para a carreira política institucional.
Em 2024, por exemplo, somente 7,1% dos candidatos de 18 a 20 anos conseguiram se eleger. Entre aqueles de 35 a 44 anos, o índice chegou a 16%. Naquele pleito, candidatos de 18 a 29 anos representaram apenas 6% dos vereadores eleitos no país.
“Ainda que faça sentido a ideia de que a taxa de sucesso de uma pessoa mais experiente seja mais alta, há uma diferença muito significativa em relação às possibilidades de eleição de uma candidatura jovem disputando pela primeira vez as eleições municipais. Embora não tenha dificuldade para entrar no partido, a juventude é barrada na hora de se eleger e isso desincentiva a participação dos jovens na política institucional”, analisa a pesquisadora da Legisla Brasil, Synthya Maia, autora do estudo.
Experiência não explica tudo
Os números de reeleição, contudo, apresentam um cenário diferente. Entre os vereadores jovens que já ocupavam mandato, o desempenho na tentativa de permanecer no cargo foi superior ao registrado entre os candidatos mais velhos. Em 2020, a taxa de reeleição dos jovens foi de 57%, ante 53,6% dos demais. Em 2024, os índices foram de 64,6% e 59,3%, respectivamente.
Para Fernando Haddad Moura, diretor executivo da Legisla Brasil, o resultado indica que a dificuldade não está necessariamente relacionada à capacidade dos jovens de exercer um mandato, mas às condições para conquistar o primeiro espaço eletivo.
“Isso nos faz levantar a hipótese de que o que falta aos jovens é, principalmente, oportunidade e investimento para conseguir realizar seu trabalho e colocá-lo à prova da avaliação dos eleitores”, diz.
Gênero e raça
O estudo também mostra que a desigualdade se acentua quando o recorte considera gênero e raça. As mulheres jovens apresentam uma das maiores dificuldades para transformar candidaturas em mandatos. Em 2024, a taxa de sucesso eleitoral delas foi de 5,3%, enquanto a dos homens jovens chegou a 16,9%.
A diferença significa que as mulheres jovens se elegeram a uma taxa inferior a um terço da registrada pelos homens da mesma faixa etária. Foi também entre os jovens que a pesquisa encontrou a maior desigualdade de gênero.
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O recorte racial amplia ainda mais o fosso. Segundo a pesquisa, uma jovem mulher negra tem pouco mais de um décimo da chance de eleição de um jovem homem branco. Mesmo quando são controlados fatores como patrimônio, escolaridade, região e partido, ser mulher reduz em 79% a possibilidade de eleição, enquanto ser preto ou pardo reduz essa chance em cerca de 40%.
Dinheiro concentra vantagem
A distribuição dos recursos de campanha aparece como um dos fatores associados às diferenças de desempenho eleitoral. Em 2020, homens brancos correspondiam a 27% das candidaturas jovens, mas receberam 42% de todo o dinheiro destinado a candidatos de 19 a 29 anos.
As mulheres negras, por outro lado, tiveram maior acesso proporcional aos recursos entre os jovens: 26,5% delas receberam algum financiamento e a mediana dos repasses chegou a R$ 2.020. O resultado está relacionado às regras de distribuição de recursos destinadas a promover maior participação de grupos subrepresentados.
O cenário muda, entretanto, quando se observa o grupo de candidatos que recebeu os maiores volumes de dinheiro. Entre os 25% mais bem financiados, os homens brancos receberam a partir de R$ 33.976, enquanto as mulheres negras receberam R$ 650.
“Embora mais jovens negras tenham tido acesso a recursos, os valores foram distribuídos entre elas de forma pulverizada. Enquanto isso, os jovens brancos receberam financiamento de forma concentrada, o que tende a tornar suas candidaturas mais competitivas. Esses números mostram que onde a regra obriga, a distribuição dos recursos melhora; onde o partido é livre para decidir, a desigualdade permanece”, avalia Synthya Maia.
Jovens relatam falta de espaço
Além dos números eleitorais, a pesquisa procurou entender como os próprios jovens percebem sua relação com as estruturas partidárias. Os relatos apontam uma contradição: ao mesmo tempo em que são tratados como jovens demais para participar de determinadas decisões, eles também são cobrados por uma experiência considerada incompatível com a idade.
A crítica aparece em diferentes espectros ideológicos e regiões do país. Um jovem branco do Nordeste, filiado a um partido de direita, questiona a separação entre as estruturas partidárias destinadas aos jovens e os demais espaços de participação.
“A maioria desses movimentos — juventude disso, juventude daquilo — infantiliza as pessoas jovens. Só porque a pessoa tem 20 e poucos anos, tem que ter uma entidade separada para ela, porque não pode debater com os adultos”, disse sem se identificar.
Outro problema apontado pelos entrevistados é a utilização dos jovens durante os períodos eleitorais, sem que isso necessariamente se converta em participação política efetiva. Um jovem pardo do Nordeste, filiado a um partido de esquerda, relata ter sido chamado para atividades de campanha sem remuneração ou espaço nas decisões.
“Chegava o período de eleição, a juventude não era convidada, era convocada a fazer panfletagem, um trabalho de comunicação de um candidato — muitas vezes sem nenhuma ajuda financeira, só pela causa”, disse ele.
Os depoimentos indicam, portanto, que a relação dos partidos com suas bases jovens não se limita à oferta de espaços formais de participação. Há uma demanda para que os integrantes dessa faixa etária tenham influência real na formulação de estratégias e na tomada de decisões.
Direita amplia formação política
Outro resultado apontado pelo levantamento contraria uma percepção tradicional sobre a formação de jovens quadros partidários. Segundo os entrevistados, integrantes de partidos de esquerda identificam maior investimento de legendas de direita e centro-direita na capacitação de suas juventudes.
Uma jovem branca do Nordeste, filiada a um partido de esquerda, reconhece esse movimento, embora faça uma ressalva sobre seu caráter.
“A direita investe muito na juventude, tudo pago — eventos, cursos, formação. Uma pena que seja para incentivo da direita; para a esquerda fica meio de lado”, comenta.
Entre os jovens de direita e centro-direita ouvidos pela pesquisa, foram relatadas iniciativas como academias partidárias, cursos regulares, clubes de leitura, programas de formação e mecanismos de incentivo à participação. Algumas dessas ações têm alcance nacional e utilizam aplicativos para acompanhar o engajamento dos participantes.
Entre os 17 entrevistados de partidos de esquerda, 10 classificaram a formação oferecida pelas legendas como insuficiente ou limitada. Muitos afirmaram ter encontrado fora dos partidos, sobretudo em movimentos sociais e estudantis, as principais fontes de formação política.
Confiança baixa, mas permanência na política
Apesar das críticas, os jovens ouvidos pela Legisla Brasil não demonstram intenção de abandonar a política institucional. Em uma escala de zero a cinco, a confiança nos partidos ficou em 2,5. Quando a avaliação considera especificamente o partido ao qual o jovem pertence ou pertenceu, a média sobe para 3,5.
Ainda assim, 80% dos participantes da consulta pública afirmaram que pretendem continuar atuando politicamente. O resultado sugere que a insatisfação com as estruturas partidárias não significa necessariamente desistência da política.
Para os pesquisadores, o desafio está em transformar esse interesse em participação efetiva e em condições para que os jovens possam disputar eleições em condições menos desiguais. A baixa presença de pessoas entre 18 e 29 anos nos Legislativos, portanto, não seria consequência de desinteresse, mas também do modo como os partidos distribuem recursos, oportunidades e espaços de poder.
“Estabelecer estratégias para reter e desenvolver a juventude importa não apenas para os partidos, mas para a nossa própria democracia”, diz Synthya Maia, autora do estudo.
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