
A pressão para que o Senado abra um processo de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ganhou novo componente nos bastidores do Congresso. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), sinalizou a parlamentares que um eventual avanço contra o magistrado poderia ser acompanhado da abertura de um processo semelhante contra o ministro André Mendonça. Na prática, seria uma espécie de "impeachment cruzado" com os dois.
A sinalização, segundo congressistas do Centrão ouvidos pelo Correio, teve efeito imediato sobre as articulações na Casa. A possibilidade de uma reação contra Mendonça, indicado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, mexeu com o cálculo de setores da oposição interessados em aumentar a pressão sobre Moraes.
Não significa, porém, que Alcolumbre tenha decidido abrir processos. O movimento é interpretado no Centrão como um instrumento de contenção. Ao colocar na mesa uma ofensiva simultânea contra ministros identificados com campos ideológicos opostos, o presidente do Senado eleva o custo de levar a disputa adiante.
A estratégia ganhou força com o acirramento da crise no Supremo. Esse cenário dá sustentação ao recado de Alcolumbre, pois se o Senado for cobrado a agir diante das acusações que pesam sobre Moraes, haveria argumento para que se analisasse questionamentos envolvendo Mendonça.
A decisão sobre dar andamento a pedidos de impeachment contra ministros do Supremo passa pelo presidente do Senado. É Alcolumbre quem controla a pauta e, até agora, não se montrou disposto a levá-la adiante.
Parlamentares avaliam ainda que a abertura de processo contra um ministro do STF produziria uma crise institucional maior do que a atual. E atingir dois integrantes da Corte envenenaria a relação entre os Poderes.
Isso explica por que o recado de Alcolumbre é visto como uma forma de frear a escalada. Nesta semana, ele afirmou que precisará responder às "agressões" que tem recebido como presidente do Senado e saiu em defesa de Moraes. Ao comentar as acusações ao ministro, provocou dizendo que "todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para a mesma pessoa (Daniel Vorcaro, dono do Banco Master) para fazer um filme. E agora o culpado sou eu e o ministro Alexandre de Moraes?" A alfinetada era no senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e em seus apoiadores.
Isso, porém, não impediu o senador Carlos Viana (PSD-MG) de cobrar, ontem, mais uma vez, a abertura de impeachment contra Moraes. O parlamentar defendeu, ainda, a retomada dos trabalhos do Senado, que tem funcionado em regime especial nesta campanha eleitoral, para tratar do assunto.
Já o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou pedido de impeachment de Moraes por suposto crime de responsabilidade. A representação questiona possíveis conflitos de interesse envolvendo o ministro e a mulher, Viviane Barci de Moraes, além de Vorcaro. Até senadores da base governista — como Leila Barros (PDT-DF) e Jorge Kajuru (PSB-GO) — assinaram a petição.
Colaborou Rafaela Bomfim, estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi*
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