ELEIÇÕES 2026

Lula exige remoção de sigilo do Master: "Doa a quem doer"

Para presidente, está havendo "vazamentos seletivos", o que arrasta seu governo para a crise do Supremo Tribunal Federal e respinga na campanha à reeleição

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa durante a cerimônia do Dia da Amazônia no Palácio do Planalto, em Brasília, em 8 de setembro de 2026. Lula formalizou a demarcação de áreas de preservação ambiental -  (crédito: Sergio Lima/AFP)
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa durante a cerimônia do Dia da Amazônia no Palácio do Planalto, em Brasília, em 8 de setembro de 2026. Lula formalizou a demarcação de áreas de preservação ambiental - (crédito: Sergio Lima/AFP)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou, ontem, a quebra completa do sigilo das investigações relacionadas ao Banco Master e criticou o que classificou como "vazamentos seletivos" em meio à crise que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF). Ele considera que a divulgação parcial de informações pode produzir efeitos sobre a disputa eleitoral de 2026.

Em publicação nas redes sociais, Lula afirmou que a dimensão das suspeitas envolvendo o Master exige respostas das autoridades e defendeu que as investigações alcancem todos os envolvidos, independentemente de cargos ou relações políticas. "Se faz necessário mais transparência e não vazamentos seletivos que impactam a disputa eleitoral", escreveu o presidente.

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Lula também citou a Operação Spoofing, conduzida no Supremo pelo então ministro Ricardo Lewandowski, como exemplo de divulgação de informações que, segundo ele, deveriam ser seguidas no caso Master. A operação foi uma investigação da Polícia Federal (PF), deflagrada em 23 de julho de 2019, para apurar a invasão de contas do aplicativo Telegram de autoridades públicas, incluindo o então ministro da Justiça Sergio Moro, magistrados e procuradores ligados à Operação Lava-Jato.

Lula reforçou que nenhum dos envolvidos no Caso Master deve ser poupado — "doa a quem doer". Isso representa que um colaborador de longa data do presidente, o senador Jaques Wagner (PT-BA), poderia ficar exposto. O parlamentar é investigado pela PF acusado de usar o mandato para apoiar matérias de interesse do Master no Congresso. Em contrapartida, investigadores apontam supostos recebimentos de vantagens indevidas, como um imóvel avaliado em R$ 2,5 milhões em Salvador.

A manifestação ocorre em meio ao aumento da tensão dentro do STF após decisões divergentes envolvendo a direção da PF. Na terça-feira, o ministro André Mendonça havia determinado o afastamento cautelar do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada. Nesta quarta-feira, o ministro Flávio Dino suspendeu a medida, determinou o retorno dos dois aos cargos e encaminhou a controvérsia para análise do plenário da Corte. A sequência de decisões também alimentou o debate sobre os limites da atuação individual dos ministros e sobre a necessidade de uma decisão colegiada para solucionar o impasse.

Para o advogado Ernesto Tzirulnik, a situação exige uma resposta institucional da Corte. “A crise no STF é séria e precisa de uma resposta rápida e firme. A decisão do ministro Flávio Dino recoloca a bola no chão, uma vez que a decisão anterior do ministro André Mendonça, que havia afastado o diretor-geral da Polícia Federal, carecia de fundamento. Por que afastar o delegado que cumpriu sua ordem e prendeu Daniel Vorcaro, desbaratou a quadrilha do INSS e identificou a lavanderia do PCC na Faria Lima?", indagou, para acrescentar: "Contudo, é importante que todos os ministros do Supremo Tribunal Federal se reúnam, o Pleno, portanto, para tomar uma decisão coesa e definitiva. Afinal, se um ministro pode adotar determinada medida, por que outro não poderia, diante da casuística assustadora vivida no Supremo?”.

O advogado Erico Carvalho, sócio do escritório Erico Advogados e especialista em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, também defendeu uma solução colegiada. Segundo ele, o afastamento de Andrei passou a ser discutido simultaneamente em diferentes frentes dentro do Supremo, o que levanta questionamentos sobre os limites de atuação de cada relator. “O afastamento está em discussão na Segunda Turma, pelo referendo da decisão do ministro André Mendonça, e na Presidência, pela suspensão de liminar submetida ao ministro Edson Fachin. A decisão do ministro Flávio Dino abre uma terceira frente no processo de sua relatoria. Essa sobreposição suscita uma questão delicada sobre os limites da atuação de cada relator”, afirmou.

Carvalho avalia que o próprio Supremo deve estabelecer esses limites. “Não conheço precedente com a configuração atual, de intervenção de outro relator para preservar processos próprios. O Plenário é a saída para resolver o afastamento e delimitar essas competências”, destacou.

Discurso eleitoral

Dentro do PT, a decisão de Dino foi interpretada como uma reação institucional diante do que integrantes do alto escalão do partido consideram uma ofensiva contra a PF. A avaliação de pessoas próximas a Lula é que a defesa da decisão deverá seguir a linha de que medidas adotadas por Mendonça poderiam enfraquecer a instituição.

Essa argumentação deverá ser relacionada, segundo essas fontes, a iniciativas recentes de políticos aliados do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) que poderiam produzir efeitos semelhantes sobre a PF. Um dos exemplos citados é a comparação entre a decisão de Mendonça e o texto inicial apresentado pelo deputado federal Guilherme Derrite (PP) para o projeto de lei anti-facção. Na ocasião, especialistas apontaram que a proposta poderia reduzir recursos destinados às investigações da PF.

O PT também vem defendendo mudanças no Judiciário. Na semana passada, o presidente da legenda, Edinho Silva, apontou uma reforma do Judiciário como possível resposta às investigações que indicaram uma relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do banco Banco Master. A tese também foi apresentada por Lula em vídeo publicado nas redes sociais na semana passada.

Abertura de informações

O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, reforçou a cobrança pela abertura dos processos e direcionou críticas à condução das investigações relacionadas ao Banco Master. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele afirmou que a crise no STF estaria sendo utilizada como instrumento eleitoral e questionou a atuação do ministro responsável pela relatoria do caso. “Está rolando intromissão nas eleições, é chegada a hora de reagir, está rolando intromissão nas eleições no Brasil e nossa democracia está sim em risco”, cobrou.

Valadares afirmou que suspeitas relacionadas ao caso deveriam ser integralmente investigadas e retomou a orientação de Lula para que as apurações alcancem todos os envolvidos. “Presidente Lula, já foi mais do que claro que se investigue todo mundo, seja político, delegado ou juiz, doa a quem doer. Mas não é isso que está sendo feito”, afirmou.

O secretário questionou especificamente a manutenção do sigilo sobre informações que, segundo ele, envolveriam Flávio. “Tem áudio, tem nota fiscal, tem reunião, tem repasse de milhões de dólares, tem vazamento sobre todo mundo, mas as provas sobre Flávio Bolsonaro continuam em segredo. Por que esse sigilo seletivo? É para beneficiar a candidatura de Flávio?”, questionou.

A cobrança por transparência também chegou formalmente ao Supremo. A deputada Érika Hilton (PSol-SP) protocolou um ofício dirigido a Fachin, Mendonça e Dino, no qual pede o levantamento do sigilo das investigações relacionadas ao Master e a Vorcaro.

Para a parlamentar, a existência de processos públicos e sigilosos sobre um mesmo conjunto de fatos pode gerar uma “assimetria informacional” e dificultar o acompanhamento das apurações. “A publicidade seletiva de informações pode produzir efeitos concretos sobre reputações, instituições e sobre o próprio processo democrático”, afirma Érika.

A deputada argumenta ainda que a abertura dos autos poderia proteger os próprios investigados, ao reduzir a possibilidade de utilização política de trechos isolados e informações fora de contexto.

O pedido inclui o levantamento do sigilo externo do Inquérito nº 5.026/DF e das Petições nº 16.662/DF, 15.676/DF e 16.669/DF, além dos processos apensados relacionados ao Master. Érika também solicita a divulgação de decisões judiciais, manifestações da Procuradoria-Geral da República, relatórios da Polícia Federal, depoimentos e documentos já incorporados aos autos.

Críticas

A crise também se estendeu às investigações sobre o esquema de descontos indevidos contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O líder do governo Lula na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), criticou as decisões de Mendonça que flexibilizaram medidas cautelares contra investigados.

Entre as decisões citadas pelo deputado estão a soltura de Virgílio Oliveira, procurador do INSS, e a retirada da tornozeleira eletrônica de José Carlos Oliveira, ex-ministro da Previdência durante o governo Jair Bolsonaro. Pimenta classificou os dois como “figuras-chave” para o esclarecimento das fraudes. “Olha, pessoal, são muito graves as informações que o ministro André Mendonça determinou a soltura do Virgílio Oliveira, procurador do INSS, figura-chave no esquema das fraudes do INSS, e também mandou retirar a tornozona eletrônica do José Carlos Oliveira, que era o ministro da Previdência do governo Bolsonaro”, afirmou.

O deputado associou os dois casos a supostas conexões entre o INSS, o Master e a Conafer, além de mencionar nomes ligados a Bolsonaro e Vorcaro. “Esses dois nomes são os principais elos da ligação do INSS com o Banco Master, com o esquema da Conafer, as principais contribuições da campanha do Bolsonaro e do Tarciso foram feitas pelo esquema do Vorcaro, pelo esquema do Banco Master”, declarou.

Pimenta também criticou a atuação de Mendonça e afirmou que a flexibilização das medidas poderia dificultar o avanço das apurações. “O ministro está agindo de forma parcial, está colocando os principais envolvidos para fora da investigação, talvez com medo de uma delação, com medo de que a gente possa avançar e provar que Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Daniel Vorcaro, todos esses nomes estão totalmente envolvidos no esquema do Bolsonaro”, afirmou.


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AH
postado em 10/09/2026 05:00
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