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EUA exigiram concessões eleitorais e comerciais por tarifas; Brasil rejeitou

Governo Trump quis sujeitar participação no pleito de "dissidentes políticos" à negociação do tarifaço. Proposta foi rechaçada

Vieira, Lula, Trump e o vice J.D. Vance no Salão Oval da Casa Branca. Propostas queriam atrelar Brasil aos EUA -  (crédito: Ricardo Stuckert/PR)
Vieira, Lula, Trump e o vice J.D. Vance no Salão Oval da Casa Branca. Propostas queriam atrelar Brasil aos EUA - (crédito: Ricardo Stuckert/PR)

O governo dos Estados Unidos apresentou ao Brasil, em outubro do ano passado, uma proposta que misturava temas comerciais a questões da política interna brasileira, num momento em que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentava destravar o diálogo com Washington devido às sobretaxas impostas às exportações para os EUA. Entre as condições estavam garantias para a participação de "dissidentes políticos" nas eleições de 2026, a compra de aeronaves da Boeing por companhias aéreas nacionais e uma espécie de preferência para empresas norte-americanas em negócios envolvendo minerais críticos. Essas e outras propostas da administração Trump foram integralmente rechaçadas.

A informação foi trazida pelo jornal O Estado de S.Paulo e confirmada pelo Correio. O documento chegou ao governo brasileiro em 16 de outubro de 2025, quando o chanceler Mauro Vieira estava na capital norte-americana para se reunir com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer. O encontro também ocorreu semanas depois da aproximação entre Lula e o presidente Donald Trump durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas.

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O texto foi encaminhado pela área técnica da administração norte-americana e chegou a Vieira por meio de auxiliares do Ministério das Relações Exteriores. O chanceler comunicou o teor ao Palácio do Planalto e rejeitou as condições apresentadas. Segundo interlocutores ouvidos pelo Correio, os pontos considerados mais sensíveis sequer foram levados à mesa na conversa com Rubio e Greer. E não voltaram a integrar as tratativas posteriores.

Reservadamente, integrantes da diplomacia brasileira classificaram a iniciativa como uma espécie de "bullying". Para eles, a proposta "nasceu morta", uma vez que parte das demandas extrapolava as atribuições do Executivo ou esbarrava na legislação nacional.

A referência a "dissidentes políticos" foi um dos pontos imediatamente rechaçados. O entendimento no Itamaraty era de que a expressão não encontra respaldo jurídico no sistema eleitoral brasileiro e que o Executivo não poderia interferir nas regras de elegibilidade ou assegurar a participação de determinados nomes no pleito. A minuta vinculava, assim, uma negociação de natureza econômica a uma questão interna submetida às leis e instituições brasileiras.

Outro trecho envolvia a compra de aeronaves da Boeing. Para o governo brasileiro, seria inviável assumir um compromisso dessa natureza porque as companhias aéreas que operam no país são responsáveis pela escolha dos aviões para compor a frota. A condição foi interpretada como uma tentativa de levar uma decisão empresarial para uma negociação entre governos.

Pix e terras raras

A lista norte-americana também alcançava o Pix. Washington defendia a adoção do chamado "princípio da neutralidade competitiva" em relação à atuação do Banco Central como regulador e supervisor dos meios eletrônicos de pagamento. O sistema brasileiro já havia se tornado um dos pontos de interesse dos EUA nas discussões comerciais envolvendo serviços digitais.

Havia ainda pedidos para a retirada de tarifas de importação incidentes sobre produtos fabricados nos EUA, como etanol, químicos, máquinas e equipamentos, veículos e bens de alta tecnologia. O pacote ampliava, portanto, o alcance das conversas para diferentes setores da relação econômica bilateral.

Outro eixo considerado estratégico era o de minerais críticos. A administração Trump queria ser previamente informada sobre eventuais transferências de controle de ativos do setor e defendia que companhias norte-americanas tivessem oportunidade preferencial antes de negócios com compradores de outros países. O tema ganhou peso na agenda internacional diante da disputa pelo acesso a matérias-primas utilizadas em baterias, semicondutores e outras tecnologias.

Apesar do conteúdo da minuta, as condições rejeitadas não apareceram publicamente no resultado da reunião de 16 de outubro. Em comunicado conjunto divulgado após o encontro, Vieira, Rubio e Greer classificaram as conversas como "muito positivas" e afirmaram que Brasil e EUA estabeleceriam uma agenda de trabalho em diferentes frentes. A nota também registrou a intenção de organizar um encontro entre Lula e Trump, sem mencionar eleições de outubro próximo ou "dissidentes políticos".

À época, integrantes do governo brasileiro avaliaram a reunião como o início efetivo de uma negociação para tentar reduzir as sobretaxas impostas pelos EUA. Vieira voltou a pedir a retirada das tarifas, enquanto Greer ficou encarregado de conduzir a frente comercial e organizar um cronograma de conversas entre as equipes dos dois países.

Para interlocutores brasileiros, o fato de as exigências políticas não terem avançado permitiu que a discussão prosseguisse concentrada em temas econômicos. A leitura no Itamaraty é de que a recusa ao documento não inviabilizou o canal aberto com Washington.

 

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AH
postado em 18/09/2026 03:55
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