
Para Rogério Sottili, diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, o plano do governo norte-americano para interferir nas eleições de outubro está em curso, e não de agora. Ele lista uma série de circunstâncias que mostram o quanto o governo de Donald Trump vem tentando interferir na política interna brasileira. E adverte: se os EUA não reconhecerem o resultado do pleito presidencial, sob qualquer alegação, a democracia brasileira estará em perigo. E o restante das nações não ficará imune a isso. Leia a seguir a entrevista ao Correio.
A interferência nas eleições brasileiras pelos Estados Unidos está em execução ou sendo planejada?
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Está em execução pelo governo Trump desde o ano passado. Ao acompanharmos a soma dessas ações e avaliarmos as diversas iniciativas, percebemos que foi se constituindo um processo articulado e organizado de ingerência sobre o processo eleitoral brasileiro. (O plano) está em curso e é muito bem articulado e acompanhado pelo governo norte-americano. Podemos identificar várias questões nesse nível. Inclusive, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) lançou um relatório, na semana passada, em que classifica como "crítico" o nível de interferência externa norte-americana sobre o Brasil. O documento identifica tanto a propaganda, que eles chamam de “propaganda adversa”, quanto um processo coordenado de desinformação, além de contatos com agentes de influência e de apoio político e material, possivelmente destinados a grupos de oposição.
O que confirma que essa ingerência está em marcha?
Se começarmos a identificar os fatos desde 2025, mais concretamente, vamos encontrar vários movimentos que configuram essa ingerência. Um deles é a própria estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos de considerar a América Latina uma prioridade para a disputa política, retomando a chamada Doutrina Monroe — uma política externa criada pelos EUA em 1823 para impedir novas intervenções e tentativas de colonização de países europeus no continente americano. É uma manifestação importante se nós articulamos isso com a declaração, no ano passado, também do Trump, de que declarou emergência nacional sobre o Brasil. Na ocasião, ele vinculou os processos judiciais envolvendo os presos — entre eles o ex-presidente Bolsonaro — à questão das eleições no Brasil, afirmando que essas prisões comprometem a realização de eleições livres. É uma ingerência total de um outro país sobre uma questão interna. Imagine o contrário: o Brasil falar sobre os EUA a respeito de algo interno deles, condicionando dessa forma: “Soltem os presos que nós apoiaremos”. É quase isso. Nesta semana, também veio a público que, no ano passado, durante as negociações comerciais com o ministro (das Relações Exteriores) Mauro Vieira e com o vice-presidente (Geraldo) Alckmin, que representava o Brasil, eles condicionaram a liberação do tarifaço, entre outras questões, à soltura de presos, também condicionando isso à realização de eleições livres e chamando-os de "dissidentes políticos". Presos são criminosos que articularam uma tentativa de assassinato de um presidente da República, de um vice-presidente e de um ministro do Supremo Tribunal Federal (Alexandre de Moraes), além da depredação do patrimônio público e de uma tentativa de golpe de Estado. É disso que se trata. E eles são assim: “Soltem os presos que a gente relaxa o tarifaço”. É uma ingerência absurda sobre isso. Outra coisa: o próprio candidato (Flávio) Bolsonaro, em uma reunião no Texas, este ano, em março, pediu na Conservative Political Action Conference (CPAC) que os países exercessem uma “pressão diplomática”, sobre o Brasil. Mais um ponto: Trump recebe o candidato da oposição, tira foto no Salão Oval, na Casa Branca. Isso nunca aconteceu em outros casos.
Tem o lançamento de desconfianças sobre as urnas eletrônicas...
Há uma prática sistemática de questionamento do processo eleitoral brasileiro feita pelos EUA, colocando em dúvida as instituições brasileiras e o sistema eleitoral brasileiro, que está mais do que provado que é uma referência internacional. Isso é o que se chama de tentativa de enfraquecer essas instituições. Teve também a questão da Lei Magnitsky, em dezembro do ano passado (contra o ministro Moraes). Por meio do Flávio Bolsonaro, também soltaram a falsa informação, absurda — e repercutiram isso —, de que a empresa Smartmatic fornecia as urnas e o software eleitoral para o Brasil. Essa empresa já estava envolvida em outros problemas em outros países. Mas isso era uma inverdade total. Essa empresa nunca teve nada a ver com o sistema eleitoral brasileiro. Tentaram enviar para o Brasil representantes do governo publicamente conhecidos como articuladores de processos de desestabilização da democracia, como Darren Beattie e Riley Barnes, além de outras pessoas do Departamento de Estado. Teve uma reunião no Consulado norte-americano, aqui em São Paulo, com influenciadores brasileiros para discutir liberdade de expressão, ambiente digital, pressão política e sanções. Se você pegar cada caso desses isoladamente, pode ter um olhar sobre cada um. Mas, ao longo de um ano, é um conjunto de ações. É evidente que isso configura ingerência em um processo já em curso.
Considerando todas essas ações, quais seriam as consequências nas eleições brasileiras?
Eles classificaram as organizações criminosas como terroristas e criticaram o Brasil, dizendo que o país falhava no combate às organizações terroristas. São inúmeras manifestações públicas. Se você juntar isso, pressão econômica, ameaça de sanções, interferência no debate sobre regulação de plataformas, condicionamento sobre as instituições brasileiras — seja no mundo jurídico, no Supremo etc. —, mais uma articulação internacional, isso se configura, evidentemente, como uma guerra híbrida, que tem como objetivo incidir sobre o processo eleitoral brasileiro a favor de um dos candidatos. E, caso eles não consigam obter vitória nesse processo, isto é, se o candidato deles perder a eleição, eles vão tentar desqualificar as instituições e alegar que pode ter havido fraude. E não reconhecer o processo eleitoral brasileiro, o resultado das eleições, provocando uma instabilidade política no país da maior envergadura.
Quais seriam as consequências práticas desse questionamento?
Podem não reconhecer o resultado eleitoral brasileiro, já vêm falando que o sistema é frágil e pode ter fraude. Isso eles tentaram nas eleições de 2022 também. Só não tiveram êxito porque, à época, o governo (do presidente Joe) Biden mandou um recado dizendo que os EUA reconheciam o sistema eleitoral brasileiro como uma referência mundial e que não iriam aceitar qualquer movimento golpista que desconsiderasse o resultado eleitoral. O presidente Biden ligou, em questão de horas depois da eleição, para o presidente eleito Lula, cumprimentando-o e reconhecendo o resultado eleitoral. A consequência concreta, neste momento, pode ser o não reconhecimento imediato do processo eleitoral, dando elementos para uma grande crise política e para que pessoas, a partir da violência, possam tentar desestabilizar o Brasil, como aconteceu no 8 de Janeiro. A gente sabe que tem um grupo, extremamente violento, armado. A gente sabe que isso é um processo de desestabilização do Brasil.
Diante de tudo isso, como o senhor vê a posição do governo brasileiro?
É de tentar garantir, no âmbito do Poder Executivo, o melhor processo para que tudo corra bem. Acreditamos que isso esteja acontecendo dessa forma e que funcione, que as polícias, tanto a Federal quanto as demais, garantam um pleito com a maior tranquilidade possível. O governo e a Justiça também têm que garantir o processo eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem que acompanhar de forma muito clara, transparente e firme, para inibir qualquer tentativa de deslegitimar o processo eleitoral. Todas as instituições têm que estar muito atentas a isso. E, por meio do Itamaraty, devem ser feitos comunicados importantes a todos os países com os quais o Brasil se relaciona, para que acompanhem e sejam informados diretamente.
De que forma as Nações Unidas podem ajudar?
Estamos pedindo que, por meio da ONU, seja feito um comunicado a todos os países associados que reconheçam imediatamente o resultado eleitoral brasileiro, que acompanhem esse processo com muita atenção e que conclamem os países a respeitar o resultado eleitoral e a soberania nacional. Além de acompanharem os sinais de ingerência, particularmente dos EUA, no processo eleitoral brasileiro, condenando e desencorajando o uso de instrumentos econômicos, diplomáticos ou tecnológicos para interferir nas eleições. Quando estamos falando de instrumentos econômicos, os EUA já fizeram uso de vários para incidir nas eleições. E de diplomáticos também, fazendo reuniões com influenciadores para criar um nível de desestabilização. Têm ainda os tecnológicos, pois sabemos que as grandes plataformas que operam de forma ainda não regulamentada no Brasil têm um poder de incidência e de decisão sobre o processo eleitoral. Então, temos que comunicar esses fatos à comunidade internacional, na ONU, na União Europeia, em outros países, sobre esses acontecimentos.
O que o Brasil perde?
Qualquer processo de prejuízo à democracia brasileira, pela importância que o Brasil tem no cenário internacional e mundial da democracia, e diante de uma grave crise democrática no mundo, não será um problema apenas do Brasil. Terá reflexos em todo o mundo sobre a democracia internacional. Esse é o cuidado. Esse é o nosso apelo, que estamos fazendo pela ONU a todos os países.
As Nações Unidas têm condições de impedir algo?
Não, não tem condições de impedir. Vai haver uma reunião importante (amanhã) com todos os países presentes. O presidente Lula vai estar, Trump vai estar, e podem, sim, fazer manifestações. E a manifestação inibe, constrange. Se você não disser que isso está acontecendo, ele se sente muito à vontade para fazer acontecer. A carta tem esse objetivo, de alertar a ONU e pedir para que os países acompanhem o que está acontecendo no Brasil.
Como isso afeta a sociedade?
Todo mundo deve temer, não só os brasileiros. Se a gente permitir uma ingerência dessas em um país como o Brasil — já fizeram isso na Venezuela, na Bolívia, na Colômbia, no Peru —, o que será da democracia? Não vai sobrar nada. Devemos temer, sim, porque um processo eleitoral sendo questionado acaba com a soberania nacional. E, quando acaba com a soberania nacional, sobre que interesses isso acontece? Com quem vão ficar as riquezas do Brasil? O que vai sobrar da Amazônia? O que vai ser do nosso petróleo, das terras raras, das águas do Brasil? É dramático. Haverá reflexos não só no Brasil, mas em todo o planeta.
Apesar da crise em que está mergulhado, o Supremo Tribunal Federal tem como agir?
Todo esse processo faz parte dessa guerra híbrida para desqualificar as instituições brasileiras. Sem querer ignorar todos os problemas que o sistema de Justiça tem, que devem ser apurados, tratados e corrigidos, talvez até por meio de uma reforma do Judiciário. E por que isso vem com tanta força no momento das eleições, se não é para embaralhar o processo eleitoral brasileiro? O Supremo está muito enfraquecido. Se tivesse um STF forte, poderia, sim, fazer frente e sustentar todo o processo de questionamento jurídico.
As instituições brasileiras foram avisadas?
Havíamos enviado uma carta com algumas análises semelhantes ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin. Também enviamos ao ministro das Relações Exteriores (Masuro Vieira) e, agora, com muito mais argumentos, enviamos para a ONU. Vamos enviar, nesta semana, para a presidente da Comissão Europeia (Ursula von der Leyen) e para praticamente todos os países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas. Estamos enviando informações e fazendo e pedidos para que acompanhem o processo eleitoral.
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