
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou a devolução de R$ 4,7 bilhões aos cofres da União em uma disputa envolvendo precatórios do setor sucroalcooleiro. O caso se relaciona ao Banco Master, de Daniel Vorcaro, que acumulou uma carteira bilionária de créditos do setor e passou a aparecer nas investigações sobre as relações do ex-banqueiro com integrantes do Judiciário.
A decisão cautelar, assinada pelo corregedor nacional de Justiça, ministro Benedito Gonçalves, atende a um pedido da Advocacia-Geral da União (AGU) e determina o cancelamento de 16 precatórios. Os recursos, atualmente depositados em contas judiciais, deverão retornar à Conta Única do Tesouro Nacional, acrescidos dos respectivos rendimentos.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
O elo com o Master está justamente na origem dos créditos. O banco de Vorcaro investiu pesadamente em direitos relacionados às indenizações cobradas da União por usinas de açúcar e álcool em razão da política de controle de preços adotada pelo antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Investigações e documentos revelados nas últimas semanas mostram que a instituição mantinha bilhões de reais nesses ativos.
A dimensão dessa carteira também ajuda a explicar o interesse de Vorcaro nas disputas que chegaram aos tribunais superiores. O ex-controlador do Master chegou a participar de audiências com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para tratar de processos relacionados aos créditos do setor. Em abril de 2024, por exemplo, Vorcaro e advogados do banco foram recebidos pelo ministro Gilmar Mendes para discutir uma causa que poderia afetar ativos mantidos pela instituição.
Gilmar posteriormente votou contra a tese que interessava ao Master naquele processo. O ministro também adotou posição contrária à liberação de recursos em outros casos envolvendo empresas do setor sucroalcooleiro.
Precatórios antes da decisão definitiva
No caso analisado agora pelo CNJ, os R$ 4.738.065.026,73 estavam depositados judicialmente desde dezembro de 2023. O problema apontado pela União é que os precatórios foram expedidos antes do trânsito em julgado da fase de execução — quando ainda não havia uma definição definitiva sobre os valores que deveriam ser desembolsados pelo poder público.
O CNJ considerou que os chamados "precatórios bloqueados", nos quais o dinheiro é separado e depositado mesmo antes do encerramento dessa discussão, não possuem respaldo legal e contrariam entendimento anterior do próprio Conselho.
Benedito Gonçalves também suspendeu decisões da Presidência do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) que impediam o cancelamento das ordens de pagamento. O tribunal terá cinco dias para cancelar os 16 precatórios e devolver os valores ao Tesouro.
Até que isso ocorra, estão proibidos levantamentos, transferências, expedição de alvarás e destaques de honorários envolvendo os recursos.
R$ 18,2 bilhões
A decisão amplia para R$ 18,2 bilhões o montante de precatórios cujo cancelamento foi determinado em 2025 e 2026 após atuação da AGU. Boa parte das disputas envolve justamente indenizações do setor sucroalcooleiro.
Neste ano, decisões da 6ª Vara Federal do Distrito Federal já haviam determinado o cancelamento de mais de R$ 11 bilhões em requisições expedidas antes do trânsito em julgado da execução.
Desse total, R$ 6,3 bilhões retornaram aos cofres públicos em setembro no processo envolvendo a Agroindustrial Tabu, após decisão do STF. O caso também aparece no entorno das investigações do Master: Vorcaro chegou a se reunir com o ministro André Mendonça para tratar da disputa judicial envolvendo os precatórios da empresa.
Os R$ 4,7 bilhões restantes permaneceram bloqueados por decisão monocrática do TRF1. Agora, com a cautelar do CNJ, o dinheiro deverá retornar ao Tesouro.
Política
Política
Política
Política
Política