Maioria do eleitorado brasileiro, as mulheres ainda encontram pouco espaço quando a disputa é pelo comando dos governos estaduais. Levantamento feito pelo Correio com 150 candidaturas nas 27 unidades da Federação mostra que apenas 25 são mulheres, o equivalente a 16,7% do total. Os homens somam 125 nomes e representam 83,3% dos postulantes analisados.
A diferença se torna ainda mais expressiva quando comparada à composição do eleitorado. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que 83,8 milhões dos 158,7 milhões de brasileiros aptos a votar em outubro são mulheres. Elas representam 52,81% do eleitorado nacional, contra 74,8 milhões de homens.
A maioria feminina no eleitorado, no entanto, não se reproduz entre aqueles que pretendem ocupar os palácios estaduais. Em nove estados, nenhuma mulher aparece entre os candidatos reunidos pelo levantamento: Amapá, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Rondônia e Roraima. Em um terço das unidades da Federação, portanto, a escolha pelo próximo governador ocorrerá exclusivamente entre homens.
Para Priscila Lapa, doutora em ciência política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a disparidade é resultado de fatores culturais e estruturais que historicamente afastaram as mulheres dos espaços de liderança e de tomada de decisão. "É indissociável a percepção do papel da mulher na sociedade, historicamente posto como restrito aos cuidados domésticos, e jamais adequado aos espaços públicos e de liderança. Assim, a política reforçou esse papel e essa percepção de que esse não é um espaço adequado à presença das mulheres", afirma.
Segundo Lapa, a desigualdade também passa pela estrutura interna das legendas. "Os espaços de microdecisão, como os partidos políticos, são dominados por homens, que tomam todas as decisões olhando para as suas necessidades e interesses", avalia. Para ela, o resultado é a falta de estímulo à entrada de mulheres nos espaços de poder. "Quem domina não quer deixar de dominar, não quer abrir espaços para a presença de outros grupos sociais", acrescenta.
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A sub-representação é ainda maior na corrida pelos governos do que no conjunto das eleições. Em agosto, o TSE contabilizou 20.560 candidaturas para estabelecer os percentuais usados na distribuição dos recursos partidários e eleitorais. Desse universo, 7.165 eram de mulheres, ou 34,85%. Entre os postulantes aos governos analisados pelo Correio, a participação feminina não chega à metade desse percentual.
A distribuição das 25 candidatas entre os partidos também revela concentração. Sozinha, a Unidade Popular (UP) lançou 11 mulheres aos governos estaduais, o equivalente a 44% de todas as candidatas identificadas no levantamento. PSD e PSTU têm duas candidatas cada. PL, PP, União Brasil, MDB, PSol, Agir, PDT, PSDB, DEMO e DC aparecem com uma mulher cada.
Avaliação
Partidos com presença relevante nas disputas estaduais, por outro lado, não apresentam mulheres como candidatas a governadora na base analisada. É o caso do PT: os 11 candidatos petistas identificados são homens. O mesmo ocorre com Republicanos, PSB e Novo, cada um com cinco nomes masculinos.
Na avaliação de Lapa, a ausência de mulheres em nove disputas estaduais está "profundamente relacionada" à maneira como as legendas constroem suas candidaturas e distribuem oportunidades e recursos. "Não há um compromisso genuíno com esse processo de inclusão das candidaturas femininas, sob a desculpa de que não há o interesse por parte das próprias mulheres", afirma.
A cientista política defende que a participação feminina precisa ser construída antes do período eleitoral. "Esse investimento tem que ser de longo prazo, antes, formando quadros, dando suporte genuíno para que essa opção de se candidatar seja possível", diz. Para ela, também é necessário ampliar as referências de mulheres que chegam aos espaços de poder sem depender necessariamente de vínculos familiares com políticos.
"Precisamos expandir essas referências, de que elas conseguiram chegar lá, mas sem necessariamente pela via do parentesco. Mulheres que possam chegar por opção, escolha, visão de mundo e desejo genuíno de participar do processo de tomada de decisão na vida política", completa.
Mesmo entre os estados com presença feminina, há diferenças importantes. No Rio Grande do Sul e em São Paulo, as mulheres representam metade das candidaturas levantadas: são três entre seis nomes em cada. No Pará, duas das quatro candidaturas são femininas. Pernambuco também conta com duas mulheres entre os sete concorrentes: a governadora Raquel Lyra (PSD), que tenta a reeleição, e Camila da Silva (UP).
O cenário ocorre apesar dos mecanismos criados para ampliar a participação das mulheres na política. A legislação estabelece um mínimo de 30% de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais, regra que alcança as disputas para a Câmara dos Deputados e assembleias legislativas, mas não impõe percentual semelhante para as candidaturas majoritárias aos governos estaduais.
