ELEIÇÕES 2026

Jones Manoel defende soberania digital e agenda popular no Congresso

Deputado federal eleito por Pernambuco fala sobre a campanha presidencial, influência da Meta nas eleições e segurança pública

Jones avalia que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa apresentar uma perspectiva concreta de futuro para conquistar apoio à reeleição -  (crédito: Divulgação)
Jones avalia que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa apresentar uma perspectiva concreta de futuro para conquistar apoio à reeleição - (crédito: Divulgação)

Eleito o segundo deputado federal mais votado de Pernambuco pelo PSol, Jones Manoel chega ao cenário político nacional defendendo transformações estruturais na economia, na segurança pública e nas relações de trabalho. Historiador, educador popular, escritor, comunicador e doutorando em Serviço Social pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), ele construiu trajetória política a partir da vivência na periferia do Recife, da cultura hip-hop e da militância comunista.

Agenda de futuro para Lula 

Ao Correio, Jones avalia que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa apresentar uma perspectiva concreta de futuro para conquistar apoio à reeleição. Segundo ele, o descontentamento de parte da população não se limita à avaliação de governos específicos, mas está relacionado às dificuldades cotidianas e à percepção de que as condições de vida avançam pouco.

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Como resposta à essa realidade, Jones defende que a campanha de Lula priorize propostas capazes de dialogar diretamente com as demandas da classe trabalhadora. Entre as pautas que considera estratégicas estão o fim da escala de trabalho 6x1, a tarifa zero no transporte público e o debate sobre a proposta de corte de R$ 250 bilhões, chamada de “tesouraço”, do candidato Flávio Bolsonaro (PL).

Assista a entrevista completa:

Jones frisa, ainda, que a força política de uma agenda não depende exclusivamente da composição parlamentar, mas também da capacidade de mobilizar a sociedade e transformar reivindicações coletivas em pressão institucional. Nesse cenário, o deputado eleito demonstra confiança na possibilidade de Lula reverter resistências e avançar rumo à reeleição.

O deputado eleito também argumenta que a reconstrução da esquerda brasileira exige um programa político que vá além da administração do modelo econômico vigente. Para ele, o enfrentamento à extrema-direita depende de uma esquerda capaz de apresentar mudanças profundas nas estruturas sociais e econômicas do país.

“Se queremos enfrentar a extrema-direita e reconstruir uma esquerda no Brasil, essa esquerda precisa ser radical e revolucionária, que aponte para transformações profundas e não se proponha a ser gestora do modelo neoliberal”, afirma.

Início da trajetória

Nascido e criado na Favela da Borborema, no bairro de Boa Viagem (PE), Jones afirma que o rap teve papel decisivo em sua formação política. Foi por meio da música que ele encontrou as primeiras ferramentas para compreender as desigualdades sociais e a realidade brasileira.

Artistas como Racionais MC's, GOG e Sabotage estão entre as referências citadas pelo deputado eleito, que considera o gênero musical uma porta de entrada para a consciência política e crítica. Ele foi o primeiro da família a ingressar em uma universidade e associa essa experiência à busca por instrumentos teóricos que permitissem aprofundar as questões levantadas pela cultura periférica.

“O rap dá a primeira base para a formação de consciência política e crítica. Depois que eu encontro o marxismo, consigo ter a ferramenta teórica para entender o mundo e o Brasil e, consequentemente, atuar politicamente para transformá-lo”, explica.

Soberania nacional passa pelo controle da tecnologia e da economia

A defesa da soberania brasileira é um dos eixos centrais do pensamento político de Jones Manoel. Para ele, a autonomia de um país não pode ser medida apenas pela existência de instituições e de um Estado nacional formalmente independente, mas é necessário também ter capacidade de controlar os meios de produção, a infraestrutura tecnológica e os recursos estratégicos da economia.


O deputado eleito critica a concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia, as chamadas big techs, e aponta a relação entre essas companhias e os interesses geopolíticos dos Estados Unidos. “A localização geográfica das big techs não é mera coincidência. Está comprovado que elas atuam de maneira orgânica e coordenada junto com o governo dos Estados Unidos para defender os interesses norte-americanos”, afirma.

Jones defende que o Brasil desenvolva capacidade tecnológica própria para armazenar e processar dados, além de produzir redes sociais e aplicativos nacionais. Na avaliação dele, a dependência de plataformas estrangeiras limita a autonomia do país e deixa informações estratégicas sob o controle de empresas sediadas nos Estados Unidos.

Jones também critica a atuação da Meta no contexto eleitoral brasileiro e afirma que há interferência no processo democrático. “Está acontecendo uma tentativa de fraudar as eleições do Brasil”, cita.

Para Jones, a soberania digital está diretamente ligada à soberania econômica. “Juridicamente, o Brasil é um país soberano, que tem Estado nacional próprio. Mas o que traz soberania de fato são as relações econômicas. O Brasil não será soberano enquanto tiver a economia controlada pelo capital estrangeiro. Precisamos de uma economia realmente controlada pela classe trabalhadora”, defende.

Segurança pública exige investigação financeira

Na área da segurança pública, Jones Manoel critica o chamado populismo penal, que reúne propostas como a redução da maioridade penal, o aumento de penas e a castração química. Segundo ele, medidas dessa natureza não enfrentam as causas estruturais da violência e tampouco garantem, por si só, a redução da criminalidade.

“Criar novos tipos penais no Brasil e sair matando em favelas são ações feitas há mais de 30 anos, e alguém se sente mais seguro?”, questiona.

Como alternativa, o parlamentar defende uma política de segurança pública orientada por evidências científicas e dados, com atenção especial ao financiamento das organizações criminosas. Para ele, o combate às fontes de recursos das facções é indispensável para impedir a expansão e reduzir a capacidade de recrutamento. “Facções não se expandem sem dinheiro”, resume.

Jones afirma que pretende levar o tema ao Congresso Nacional a partir de 2027, com a defesa de uma legislação rigorosa contra instituições financeiras envolvidas em esquemas de lavagem de dinheiro. A proposta, segundo ele, é responsabilizar bancos, fundos de investimento e fintechs quando houver comprovação judicial definitiva de participação nesses crimes.

“Quando eu estiver no Congresso em 2027, vou abrir um debate sobre a necessidade de uma legislação penal duríssima contra instituições financeiras envolvidas na lavagem de dinheiro. Todo banco, fundo de investimento e fintech que estiver comprovadamente envolvida na lavagem de dinheiro, com trânsito em julgado, precisa ser fechado e apropriado pela estrutura pública”, declara.

Na avaliação do deputado eleito, aumentar indiscriminadamente as penas dos integrantes da base das facções não resolve o problema enquanto as organizações criminosas mantiverem recursos para financiar as atividades e recrutar novos membros.

“Muita gente fala que precisamos aumentar a pena para figuras envolvidas em facções. Isso não faz diferença, pois, se pegar um soldado da base da facção e jogar a pena para 50 anos, por exemplo, enquanto a facção tiver dinheiro, ela vai recrutar mais gente”, argumenta.

Jones também questiona a legitimidade da família Bolsonaro para liderar o debate sobre segurança pública. Ao comentar a atuação de Flávio Bolsonaro, menciona a defesa de um projeto de lei relacionado ao fim da marcação dos cartuchos de munição e critica a ausência de posicionamento contra as milícias. “No debate da Band, Flávio foi incapaz de falar que vai combater milícias, porque o entorno dele é cheio de milícias”, afirma.

Mobilização popular 

Diante do cenário de um Congresso Nacional com forte presença da direita a partir de 2027, Jones Manoel aposta na mobilização popular como instrumento de pressão sobre deputados e senadores. Para ele, a aprovação de pautas com amplo apoio social pode constranger parlamentares contrários a determinadas medidas, mesmo quando há resistência dentro do Legislativo.

O parlamentar eleito cita o debate sobre o fim da escala 6x1 como exemplo de uma pauta capaz de mobilizar trabalhadores e pressionar o Congresso. “Propostas com apelo popular e adesão da maioria da classe trabalhadora emparedam esse Congresso. A maioria do Congresso não queria aprovar o fim da escala 6x1, e não foi aprovado?”, questiona. Considerada uma das principais bandeiras da campanha de Lula, a redução da jornada de trabalho foi aprovada no Senado e promulgada pelo Congresso na semana passada.

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postado em 19/10/2026 14:20 / atualizado em 20/10/2026 07:41
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