ASILO POLÊMICO

Deputado brasileiro nos EUA critica proteção de Trump à família Bolsonaro

Felipe Sousa-Lazaballet aponta contradição em abrigar investigado enquanto o governo Trump intensifica deportações

Grupo de 25 congressistas democratas deu prazo até 13 de novembro para o Departamento de Estado esclarecer a entrada de Flávio Bolsonaro nos EUA -  (crédito: Reprodução/Redes sociais)
Grupo de 25 congressistas democratas deu prazo até 13 de novembro para o Departamento de Estado esclarecer a entrada de Flávio Bolsonaro nos EUA - (crédito: Reprodução/Redes sociais)

A permanência de integrantes da família Bolsonaro nos Estados Unidos, após a fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil em descumprimento de uma determinação judicial, foi criticada pelo brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet, eleito deputado estadual na Flórida.

Durante entrevista ao UOL News, nesta quarta-feira (4/11), o democrata acusou o governo de Donald Trump de oferecer proteção ao parlamentar e desrespeitar a soberania brasileira.

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Para Sousa-Lazaballet, a autorização concedida a Flávio e seus familiares para permanecer em território norte-americano representa uma interferência em decisões tomadas pelo Judiciário brasileiro.

O deputado eleito também questionou o tratamento dispensado ao senador, investigado por suspeitas de crimes financeiros, em comparação com as medidas adotadas pelo governo Trump contra imigrantes que trabalham no país.

Ao defender que as determinações judiciais brasileiras sejam respeitadas, ele condenou a postura da administração republicana.

"Ela fez uma decisão e os EUA estão cobrindo o Bolsonaro aqui, sem respeitar o Judiciário e os votantes do Brasil. Esses são fatos. Eu obviamente estou contra isso."

A crítica ocorre pouco mais de uma semana depois de Flávio Bolsonaro deixar o Brasil, acompanhado da esposa e das duas filhas, após ser derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro.

O senador havia sido intimado a entregar seus passaportes por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mas seguiu para os Estados Unidos, onde recebeu autorização humanitária para permanecer por um ano.

Sousa-Lazaballet considerou contraditório que Washington tenha permitido a entrada da família Bolsonaro enquanto intensifica a retirada de trabalhadores estrangeiros sem antecedentes criminais. Segundo ele, a política migratória americana deveria considerar essa diferença de tratamento, em vez de beneficiar pessoas submetidas a investigações no país de origem.

O deputado eleito afirmou que pretende acompanhar as discussões sobre o caso, embora reconheça que as decisões relativas à imigração são de competência federal. Ele relatou manter conversas com o congressista democrata Maxwell Frost sobre possíveis abusos cometidos pelo governo Trump e manifestou expectativa de que o Congresso investigue as circunstâncias da entrada dos brasileiros.

A possibilidade de abertura de uma investigação ganhou força com uma iniciativa de parlamentares democratas que cobram esclarecimentos da Casa Branca: "Haverá muitas investigações e imagino que essa será uma delas."

A declaração faz referência a uma carta enviada por 25 integrantes da Câmara dos Representantes ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, em 29 de outubro.

Liderado pelas deputadas Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, e Dina Titus, de Nevada, o grupo questionou se autoridades norte-americanas auxiliaram Flávio Bolsonaro a deixar o Brasil e ingressar nos Estados Unidos, apesar das restrições impostas pelo STF.

Os congressistas também querem saber quando o governo Trump tomou conhecimento da ordem judicial brasileira, quem autorizou a entrada do senador e se houve participação de funcionários americanos na organização de sua viagem. O documento solicita respostas por escrito e uma reunião com representantes do Departamento de Estado até 13 de novembro.

Insatisfação com Trump nas urnas

A entrevista de Sousa-Lazaballet ocorreu após as eleições legislativas de terça-feira (3/11), nas quais os democratas conquistaram o controle da Câmara e do Senado dos Estados Unidos. O resultado representou uma derrota para o Partido Republicano e ampliou a capacidade da oposição de fiscalizar a administração Trump.

Na Flórida, onde o brasileiro foi eleito pelo Distrito 42, os republicanos mantiveram o governo estadual e a maioria no Legislativo, mas perderam espaço para os democratas. A oposição conquistou 16 cadeiras anteriormente ocupadas pelo partido de Trump na Câmara estadual, rompendo a maioria qualificada republicana.

Ao analisar o desempenho eleitoral, Sousa-Lazaballet atribuiu parte do avanço democrata à insatisfação dos americanos com o aumento do custo de vida. Na avaliação dele, questões como o preço dos alimentos, o acesso à moradia e as dificuldades para encontrar emprego passaram a ter maior influência sobre o eleitorado, que cobra dos governantes mais atenção aos problemas internos do país.

"Os americanos estão falando para todas as pessoas eleitas aqui que temos que estar preocupados com o que está acontecendo aqui, com o preço da moradia e da comida, com a vida. O sonho americano está cada vez mais difícil."

O endurecimento das medidas contra imigrantes também foi apontado pelo deputado eleito como um fator de desgaste político, especialmente entre as comunidades latinas da Flórida.

Ele argumentou que a promessa de Trump de priorizar a expulsão de estrangeiros envolvidos em atividades criminosas deu lugar a operações que também atingem pessoas que trabalham regularmente em diferentes setores da economia, mesmo quando não possuem autorização migratória.

"Houve uma promessa do Trump de deportar criminosos. Mas o que acabou acontecendo é que a empregada doméstica, o jardineiro, as pessoas que estão trabalhando aqui estão sendo deportadas de maneira horrível."

Da derrota eleitoral à chegada de Flávio aos EUA

A crise envolvendo Flávio Bolsonaro começou a ganhar novos contornos em 25 de outubro, quando Lula foi reeleito presidente da República com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador. Na mesma noite, a Polícia Federal solicitou ao STF medidas cautelares contra o candidato derrotado, após identificar risco de que ele deixasse o país.

No dia seguinte, Flávio foi intimado a entregar seus passaportes e ficou proibido de viajar ao exterior. A decisão de Alexandre de Moraes ocorreu no âmbito de uma investigação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Embora tenha declarado publicamente que permaneceria no Brasil para liderar a oposição ao governo Lula, o senador não cumpriu a determinação, e seus documentos brasileiros foram cancelados.

Na noite de 27 de outubro, Flávio atravessou a fronteira com a Argentina acompanhado da esposa, Fernanda, e das duas filhas.

Ele utilizou um passaporte italiano para entrar no país vizinho, de onde a família embarcou em uma aeronave particular que fez escala no Equador antes de chegar a Miami, na manhã de 28 de outubro. A Polícia Federal informou que não encontrou registro de sua passagem pelos controles migratórios brasileiros e passou a investigar as circunstâncias da saída do país.

Nos Estados Unidos, o senador recebeu uma autorização humanitária de entrada, válida até outubro de 2027, que não equivale à concessão de um visto permanente. Donald Trump confirmou ter autorizado sua entrada no país, enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, negou que o governo americano tivesse participado diretamente da organização da viagem.

Flávio também contestou o resultado da eleição presidencial brasileira, embora não tenha apresentado provas de irregularidades capazes de alterar a apuração.

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postado em 05/11/2026 12:04
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