
Especial para o Correio — Beto Seabra
Você estava pensando em retomar a leitura daquele livro, mas aí o Zap tinha 125 mensagens, foi só dar uma olhada e... esqueceu o livro. Caiu na bobeira de abrir o Face, mas tinha tantas postagens novas, e algumas até legais, que desistiu de fazer aquela caminhada planejada. O amigo que quase nunca manda nada enviou um link pelo Insta, você entrou lá e, quando viu, ficou mais de uma hora no scrolling, e aquele filme ficou para depois.
Sei que é difícil lembrar como era a vida antes das redes sociais, mas uma coisa é certa: ela era mais sua. Você tinha mais poder de decisão sobre o que iria fazer ou deixar de fazer, sobre o que iria ler ou ver, ou deixar de ler ou ver. Em menos de uma década, nossas vidas — corpos e mentes — foram colonizadas por infinitas decisões que estão além da nossa vontade.
Você não acordou hoje pensando em ler uma reportagem sobre o dia mais quente do século na terra do Papai Noel, mas aí um amigo postou no grupo, você achou o título interessante e, como diriam os franceses, voilà!: você foi fisgado.
Sei que pode parecer lenga-lenga; afinal, eu não sou obrigado a frequentar as redes sociais e, se entrei nelas, é porque, de alguma forma, beneficio-me dessa espécie de bazar virtual. É verdade. Mas a questão aqui é outra.
As tecnologias de informação e comunicação que surgiram antes das redes sociais traziam benefícios e também promoviam estragos. Basta pensar no telefone celular. Não o smartphone, mas o velho e bom celular usado apenas para falar e ouvir. Lembro que anos antes de eu ter o meu primeiro aparelho móvel, ali pelo início dos anos 1990, vi um celular que ficava acoplado em um carro oficial do órgão público no qual eu trabalhava. E lembro que o servidor que o utilizava, do alto escalão, vaticinou: "Essa porcaria vai acabar com a nossa privacidade".
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Ele lamentava que a secretária do governante ao qual ele era subordinado o encontrava onde estivesse, graças ao celular do carro, o que não acontecia antes. Mas, de certa forma, você ainda tinha o mínimo de poder de decisão sobre a sua vida. E, vamos combinar, o celular é hoje uma ferramenta indispensável. Claro que é possível viver sem ele, mas com ele tudo fica mais fácil.
Agora, cá entre nós, quais benefícios mesmo as redes sociais trouxeram para a sua vida? Digo benefícios mesmo, não vale dizer que elas "aproximam as pessoas" ou algo do tipo. Toda tecnologia nos traz alguma facilidade para o dia a dia. O sistema de correios permitiu que o ser humano se correspondesse com pessoas localizadas em outras cidades ou países, o telefone inaugurou o diálogo a distância, o rádio trouxe para dentro da sua casa o noticiário e o universo musical, etc.
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Mas ainda tento entender que benefícios as redes sociais trazem. Claro que elas são uma mão na roda (que expressão antiga, meu Deus!) quando você quer divulgar o seu produto ou espalhar aos quatro ventos (outra expressão fora de moda) o quanto a sua vida é bacana e como você tem ideias legais. Mas isso nos torna melhores ou a nossa vida mais confortável?
Às vezes acho que as redes sociais são como o refrigerante ou o cigarro. Não trazem nada de bom para o nosso corpo ou a nossa mente, mas a gente gosta delas. E viciam também, tal como o açúcar e a nicotina. Ou seja: vieram para ficar.

Revista do Correio
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