Saúde

Quando o corpo rejeita: o mistério das alergias tardias

Médicos esclarecem por que e como algumas pessoas desenvolvem alergias ou intolerâncias ao longo da vida

A intolerância ao leite causa desconfortos como inchaço e dor abdominal e não envolve o sistema imunológico, diferente da alergia alimentar  -  (crédito: Freepik)
A intolerância ao leite causa desconfortos como inchaço e dor abdominal e não envolve o sistema imunológico, diferente da alergia alimentar - (crédito: Freepik)

Essenciais para a defesa do organismo, as reações do sistema imunológico têm como função proteger o corpo contra agentes nocivos. No entanto, quando essa resposta acontece de forma exagerada diante de substâncias comuns, como alimentos, medicamentos, poeira ou cosméticos, surgem as alergias. Já as intolerâncias alimentares, apesar de frequentemente confundidas com alergias, têm outra origem e exigem abordagens diferentes. Entender essas distinções é fundamental para evitar riscos à saúde e restrições desnecessárias.

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Segundo a médica alergologista e imunologista do Instituto Nutrindo Ideais Camilee Tostes, as alergias podem se manifestar em qualquer fase da vida, embora muitas tenham início na infância. "Elas se desenvolvem quando o sistema imunológico passa a reagir de forma exagerada a certas substâncias que, geralmente, não representam perigo", explica. Nesse processo, o organismo produz anticorpos específicos, principalmente a IgE e, a partir do contato com o agente desencadeador, ocorre a liberação de mediadores inflamatórios, como a histamina, responsável pelos sintomas alérgicos, que podem variar de leves a graves.

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A predisposição genética tem um papel importante nesse contexto. Ter pais alérgicos aumenta significativamente o risco de desenvolver doenças atópicas, como rinite, asma, dermatite atópica e alergias alimentares. Ainda assim, Camilee destaca que genética não é destino. "O ambiente, a alimentação, o microbioma intestinal e o estilo de vida tem um papel decisivo na expressão, ou não, dessa predisposição", afirma.

Nem toda alergia, porém, é permanente. Algumas, em especial na infância, podem regredir com o tempo. Outras tendem a persistir, mas isso não significa conviver para sempre com os sintomas. "Hoje sabemos que, ao tratar o paciente de forma integral, controlando o ambiente, a inflamação e modulando o sistema imunológico, é possível reduzir ou até eliminar manifestações alérgicas", explica a especialista, sobretudo em quadros leves ou moderados.

Uma das confusões mais comuns ocorre entre alergia alimentar e intolerância alimentar. Embora possam causar sintomas semelhantes, como dor abdominal, distensão, náuseas ou manifestações na pele, os mecanismos envolvidos são diferentes. Na alergia alimentar, há participação direta do sistema imunológico e risco de reações imediatas e potencialmente graves, como urticária, dificuldade respiratória e anafilaxia. Já a intolerância alimentar não envolve o sistema imune e está relacionada, em geral, à dificuldade de digestão ou metabolização de determinados alimentos, por deficiência enzimática, alterações da microbiota intestinal ou inflamação da mucosa.

As intolerâncias também costumam apresentar sintomas dependentes da quantidade ingerida, como ocorre na intolerância à lactose. "Elas não envolvem o sistema imunológico, diferentemente das alergias", reforça Camilee. O atraso no surgimento dos sintomas e a sobreposição de sinais entre as duas condições explicam por que o diagnóstico correto é tão importante.

Mitos, sinais e diagnóstico

O intestino desempenha papel central nesse processo. De acordo com o médico de família da Amparo Saúde Felipe Bruno Santos da Cunha, alterações na microbiota intestinal influenciam diretamente o surgimento de alergias e intolerâncias. "Crianças com alergia alimentar apresentam menor diversidade de bactérias benéficas, como Bifidobacteria e Clostridia, favorecendo respostas inflamatórias e reduzindo a tolerância imunológica", explica. Estratégias com probióticos e prebióticos, quando indicadas, podem ajudar a restaurar o equilíbrio intestinal.

Outro ponto de atenção são as alergias a medicamentos. Elas ocorrem quando o sistema imunológico reconhece o remédio ou seus metabólitos como uma ameaça. As manifestações podem variar desde coceira e manchas na pele até reações sistêmicas graves. Por isso, é fundamental diferenciar alergia verdadeira de efeitos colaterais ou reações adversas, que nem sempre envolvem mecanismos imunológicos.

O diagnóstico das alergias começa pela história clínica detalhada, considerada a etapa mais importante do processo. A partir dela, podem ser solicitados testes cutâneos, exames de sangue, testes de provocação e avaliações complementares. "O diagnóstico moderno vai além de identificar o agente causador. Ele busca entender por que aquele organismo está reagindo daquela forma", afirma Camilee, destacando a importância de uma abordagem individualizada.

Alguns sintomas indicam risco de anafilaxia e exigem atendimento médico imediato, como vermelhidão generalizada de início súbito, inchaço dos lábios, língua ou rosto, dificuldade respiratória, queda da pressão arterial, desmaio, vômitos persistentes e dor abdominal intensa.

No senso comum, ainda persistem mitos sobre o tema. Nem todo desconforto abdominal após comer é alergia, exames sem indicação médica não diagnosticam intolerâncias, restrições alimentares sem orientação podem causar deficiências nutricionais e detox ou testes "milagrosos" não substituem avaliação clínica, segundo Felipe Bruno Santos da Cunha.

As pessoas desenvolvem reações adversas a alimentos comuns devido a condições individuais diretamente relacionadas a fatores genéticos, ambientais e imunológicos. A predisposição atópica, as alterações na barreira da pele e a exposição precoce a alérgenos favorecem situações alérgicas comuns. Além disso, a presença de doenças de pele na infância, como o eczema ou dermatite, e o histórico familiar aumentam o risco de alergia alimentar, enquanto outros pacientes nunca apresentaram sintomas por desenvolverem tolerância oral adequada aos alimentos.

A frequência e a quantidade de consumo de um alimento podem influenciar o desenvolvimento de alergia, especialmente em indivíduos geneticamente predispostos. A introdução tardia de alimentos potencialmente alergênicos, como o ovo e o amendoim, após os 6 a 12 meses de vida, aumenta o risco de sensibilização, enquanto a exposição à janela de oportunidade, aos 6 meses de vida, pode promover tolerância imunológica. No caso de intolerâncias, os sintomas geralmente dependem da dose ingerida, como ocorre na intolerância à lactose.

 


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postado em 15/02/2026 06:00
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