Beto Seabra — especial para o Correio
Nomes engraçados ou diferentes são sempre um bom assunto para conversas e piadas. Num país com milhões de silvas e outros tantos milhões de franciscos e marias, um nome ou sobrenome fora do comum pode fazer a pessoa ter um sentimento de se achar acima da média e virar alguém "de nome", mesmo sem renome.
Recentemente, o IBGE soltou uma pesquisa sobre os nomes e sobrenomes mais comuns entre os brasileiros. Sem surpresas. Os silvas e os santos são os campeões, de um lado, e as marias e josés, de outro. Mas o que chamou a atenção foram os nomes de famosos adotados pelas famílias brasileiras. E, entre eles, o do craque argentino Riquelme, na verdade sobrenome de Juan Román, que foi ídolo do Boca Juniors e chegou à seleção argentina. Apesar de não ter sido campeão do mundo pelo seu país, como o Messi, Riquelme ganhou três vezes a Libertadores da América e por isso seu nome ficou marcado entre os torcedores brasileiros. Mas só isso não explica o fato de que existam no Brasil milhares de riquelmes.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
- Leia também: Cidade Nossa: 2026: O repouso é a batalha
Segundo o IBGE, são aproximadamente 25.900 riquelmes no Brasil, contra "apenas" 363 messis e 128 maradonas. Não é fantástico isso? Fico imaginando uma família, quando nasce o garotinho, a mãe sonhando com nomes grandiosos, como Augusto César ou Maria Elizabeth, e lá vem o pai da criança dizendo que registrou o filho com o nome de Riquelme dos Santos Ferreira. Como num passe de mágica, o sobrenome de origem espanhola virou prenome no Brasil, e um dos mais escolhidos. Se no passado a preferência era por Michael Jackson, agora as famílias decidiram simplificar e pegar apenas o sobrenome dos ilustres jogadores de futebol.
E com a nossa tradição de conhecermos os nossos grandes jogadores pelo apelido ou apenas pelo primeiro nome (Pelé, Garrincha, Zico ou Ronaldo), fica difícil comparar as escolhas, pois dificilmente um cartório aceitaria o nome Pelé da Silva ou Zico da Fonseca, ainda que possam existir um aqui e outro acolá. Mas por que tantos riquelmes? Mais exatamente, repito, 25.900? Que obsessão é essa do brasileiro pelo sonoro nome do craque argentino, que, aliás, foi o algoz de mais de um time do nosso país? Difícil encontrar uma explicação.
-
Leia também: Cidade Nossa: Novo desafio
Ou talvez ela esteja em outro campo, não o de futebol, mas o da antropologia. Somos um país de triste tradição escravocrata, isso todos nós sabemos. Milhões de africanos foram arrancados de suas terras, trazidos para cá acorrentados e aqui foram rebatizados, com nomes e sobrenomes europeus. O mesmo aconteceu com os nossos indígenas. Sem contar os judeus, que tiveram que adotar nomes de cristãos novos.
Os milhões de silvas, santos e pereiras de hoje certamente foram tupinambás, nalungas e goldbergs no passado. Ao escolher Riquelme, Maradona ou Messi para o nome de batismo do filho, o pai ou mãe parecem estar dizendo: meu sobrenome é Silva, Santos ou Coelho porque foram impostos, mas o nome do meu filho será como eu quiser. Faz sentido.

Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio