
Funcionalidade com afeto, cores cheias de personalidade, maximalismo e sustentabilidade deixaram de ser tendências pontuais para se tornarem diretrizes do morar contemporâneo. É o que mostrou a 16ª edição da ABCasa Fair, realizada no Expo Center Norte, em São Paulo, considerada a maior feira B2B do setor de casa e decoração da América Latina.
Com mais de 380 expositores, 75 mil metros quadrados de área e cerca de 45 mil visitantes profissionais, o evento movimentou aproximadamente R$ 2 bilhões em negócios e funcionou, mais uma vez, como termômetro do que deve ganhar espaço nas vitrines e, principalmente, dentro dos lares brasileiros no próximo ano.
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Se em outros momentos a decoração priorizava a estética quase cenográfica, agora o foco é outro: significado. Segundo a curadora da feira, Luciana Locchi, 2026 consolida uma virada de chave em que beleza e funcionalidade caminham juntas — e sempre conectadas à rotina real.
Essa leitura é reforçada por Daniel Galante, diretor-executivo da ABCasa. Para ele, o comportamento do consumidor ajuda a explicar o momento do setor. “As pessoas começaram a viver mais a própria casa. Antigamente, ela era vista quase como um lugar de dormir. Hoje, é um espaço de convivência, de trabalho, de descanso e de identidade. A tendência é que cada vez mais o consumidor invista no detalhe, personalize e coloque a alma dele dentro do lar”, afirma.
Segundo Galante, o setor de casa e decoração tem acompanhado o ritmo da economia brasileira, mantendo crescimento consistente. A casa deixa de ser “vitrine de Instagram” para se afirmar como refúgio. Objetos precisam organizar, facilitar, acolher. Mas também contar histórias. Essa leitura conversa com o comportamento do consumidor identificado pela própria associação: o brasileiro segue consumindo, mas de forma mais estratégica, atento ao custo-benefício, à durabilidade e à utilidade.
Maximalismo: mais alma, mais cor
Se há uma palavra que resume o clima visto nos corredores da feira, é a liberdade. O minimalismo total, branco e neutro, perde espaço para composições mais ousadas, com mistura de cores, texturas e estilos. “O maximalismo é muito forte. As pessoas querem mais vida, mais cor. Antes, havia receio de ousar, medo de enjoar. Hoje, existe mais liberdade para experimentar. A casa precisa refletir quem mora ali”, explica Galante.
Não se trata de excesso desordenado, mas de identidade. O que se vê é uma composição mais intuitiva, com sobreposição de objetos, memórias afetivas e peças que contam histórias.
As paletas apontam três caminhos principais:
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Tons naturais e terrosos: areias, argilas, off-whites quentes, que remetem ao acolhimento.
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Azuis e verdes profundos, associados à estabilidade emocional e à conexão com a natureza.
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Cores vibrantes, como cítricos e corais, usadas como pontos de energia e frescor.
Entre os destaques cromáticos estão o branco “Cloud Dancer” (Pantone 2026) e o verde-azulado profundo “Transformative Teal”, apontado pela WGSN como tonalidade-chave do período.
Natureza em evidência
Outro movimento muito evidente na feira foi a presença marcante da natureza — não apenas nas cores, mas nos temas e nas formas. Muito verde, estampas botânicas, folhagens, flores permanentes e arranjos que remetem a jardins internos reforçam a busca por conexão com o natural. Frutas, especialmente cítricas, como limão e laranja, aparecem como elementos decorativos em louças, estampas e objetos de mesa postas, trazendo frescor e leveza.
Elementos marinhos também ganham espaço: conchas, corais estilizados, peixes e texturas que lembram areia e água ajudam a criar atmosferas que remetem ao litoral. Tons de azul suave e verde aquático reforçam essa estética.
Animais, sejam representados em esculturas, estampas, seja em detalhes lúdicos, também aparecem como parte dessa narrativa mais orgânica e afetiva. A ideia é trazer a sensação de natureza viva para dentro de casa, mesmo em ambientes urbanos.
Funcionalidade inteligente
Outro eixo central para 2026 é a funcionalidade aliada à estética. Não existe mais espaço para o “bonito que não serve” e nem para o “útil sem graça”. Para Galante, não existe mais essa separação clara. “É quase um paradoxo. Não existe funcionalidade sem estética. As pessoas querem os dois. Querem algo bonito, mas que facilite a vida”, afirma.
Peças com tecnologia embarcada, soluções que otimizam o dia a dia e produtos que facilitam a organização ganham protagonismo. Espelhos com iluminação em LED integrada, utensílios mais ergonômicos, eletroportáteis com design retrô e cores tendência são exemplos desse cruzamento entre praticidade e identidade.
A tecnologia, inclusive, aparece como aliada da criatividade. Novos processos produtivos ampliam as possibilidades de formas, acabamentos e combinações, permitindo que marcas ofereçam mais variedade com escala e preço competitivo.
Artesanal, afetivo e sustentável
O feito à mão também ganha força, e não apenas como estética, mas como valor. Peças artesanais, com pequenas variações e acabamento mais orgânico, reforçam a ideia de autenticidade. Na feira, empresas tradicionais dividiram espaço com projetos de impacto social e iniciativas que conectam artesãos ao mercado, mostrando que o consumo também pode carregar propósito.
Já a sustentabilidade deixou de ser diferencial para se tornar requisito básico. Do uso consciente de matéria-prima ao desenvolvimento de produtos mais duráveis e recicláveis, o tema atravessa toda a cadeia. Para o consumidor atual, impacto ambiental é critério de decisão.
Segundo Galante, marcas que não investirem em práticas responsáveis tendem a perder espaço.“Não é mais opcional. Desde a matéria-prima até o produto final, a sustentabilidade precisa estar presente. O consumidor entende isso como algo fundamental”, pontua. O tema aparece tanto em processos produtivos quanto na valorização do artesanal, da produção local e de iniciativas de impacto social.
O morar em 2026 é mais sensorial. Texturas agradáveis ao toque, tecidos naturais, iluminação acolhedora e objetos que estimulam pequenas pausas no cotidiano refletem um desejo coletivo por equilíbrio.
Esse movimento dialoga com o que o setor experimentou na pandemia: a redescoberta da casa como centro da vida. Mesmo com a retomada das atividades externas, o investimento no lar continua. A busca agora é por ambientes que traduzam quem mora ali, com conforto, cor e história.
O que veio para ficar
Entre modismos passageiros e transformações estruturais, algumas direções parecem consolidadas:
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A casa como espaço emocional e multifuncional.
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A união definitiva entre estética e funcionalidade.
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A personalização como resposta ao consumo massificado.
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A sustentabilidade como premissa.
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O uso estratégico da cor.
Mais do que seguir tendências, o consumidor quer criar a própria narrativa dentro de casa. E se depender do que foi apresentado na ABCasa, 2026 será o ano em que o morar ganha ainda mais identidade, menos cenário, mais verdade.
*Estagiaria sob supervisão de Sibele Negromonte

Revista do Correio
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