Nos últimos meses, o cardio interativo virou tendência nas redes sociais. A ideia é transformar exercícios cardiovasculares em desafios guiados por vídeos que simulam jogos, feitos em frente à televisão. Em meio à busca pelo "shape ideal" no início do ano, muita gente trocou a esteira e a bicicleta ergométrica por esse formato mais dinâmico, que promete unir diversão e gasto calórico na sala de casa.
Na prática, o funcionamento é simples: o participante segue comandos exibidos na tela, com movimentos como polichinelos, agachamentos, corridas estacionárias e saltos. A dinâmica lembra videogames de movimento e exige respostas rápidas aos estímulos visuais. A promessa é tornar o treino menos repetitivo, mas será que misturar diversão com exercício realmente funciona?
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Para o personal trainer Alex Jr. (personal_alexjr), a resposta depende da forma como a atividade é conduzida. Segundo ele, quando não há planejamento ou controle de intensidade, o formato tende a assumir caráter recreativo. "Quando há monitoramento da frequência cardíaca, definição de tempo, intensidade e regularidade, a prática pode, sim, se tornar estruturada", explica.
O também personal trainer Isaac Alves (@oisaacmorais) acrescenta que um treino estruturado envolve variáveis como volume, intensidade, intervalo entre séries e frequência semanal bem definidos. Para ele, o cardio interativo pode atender a esses critérios, mas a organização da rotina é determinante, já que os períodos de descanso influenciam diretamente nas adaptações fisiológicas.
A popularidade do formato está ligada à forma como o cérebro percebe o esforço. Pessoas que não se adaptam ao ambiente, muitas vezes considerado repetitivo ou intimidante, tendem a se envolver mais com a proposta. "Ele reduz a percepção de cansaço. Quando o exercício é associado ao entretenimento, o foco deixa de ser o desgaste físico e passa a ser o desafio", afirma Alex.
Isaac explica que a musculação tradicional exige foco introspectivo, como contar repetições, controlar postura e coordenar respiração. "Isso demanda disciplina e esforço mental, o que pode dificultar a adaptação no início", pontua. O cardio interativo, por outro lado, utiliza a distração cognitiva para tornar uma tarefa fisiologicamente exigente mais lúdica, o que facilita a permanência na prática.
Condicionamento e gasto calórico
Em termos de condicionamento, os especialistas são categóricos, pois o que determina os resultados é a intensidade. "Se o praticante atinge zonas adequadas de frequência cardíaca e mantém constância, há melhora cardiovascular. Sem intensidade suficiente, o estímulo pode ser leve demais", diz Alex.
Isaac reforça que o corpo responde à demanda imposta, independentemente do formato do exercício. "O sistema cardiovascular e respiratório não sabem se você está dançando ou correndo. Ele apenas responde à necessidade de sangue e oxigênio exigida. Quanto maior a demanda, maior o estímulo para adaptação", afirma. O risco, segundo ele, está em transformar o treino apenas em atividade recreativa, sem desafio real.
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Outro ponto de atenção é o gasto calórico. Por ser divertido, o praticante pode superestimar os resultados. "Movimento não significa automaticamente alto gasto energético. Intensidade, tempo e esforço real fazem diferença", alerta Alex. Isaac complementa que há diferença entre percepção e esforço real, e que o uso de marcadores de frequência cardíaca ajuda a manter o treino em zonas adequadas de adaptação.
Os especialistas também destacam que cardio e musculação produzem efeitos distintos no organismo e não são excludentes. Enquanto o treino cardiovascular melhora a capacidade cardiorrespiratória, a musculação está associada ao aumento de força e massa muscular. "A quantidade de massa muscular, por exemplo, é um dos indicadores utilizados para estimar a capacidade de recuperação em situações graves de saúde", observa Isaac.
Para iniciantes ou pessoas sedentárias, o cardio interativo pode ser uma porta de entrada eficiente, especialmente por ser feito em casa e em ambiente confortável. Já para quem busca evolução física mais consistente, melhora de performance ou composição corporal, a recomendação é utilizá-lo como complemento e não substituição de um programa estruturado.
Quem já aderiu
Entre quem já testou o formato está Janaína Matos, 40 anos, personal trainer e fisioterapeuta. Ela conta que pratica o cardio interativo eventualmente, como alternativa de treino em casa. "Conheci o formato por meio de vídeos nas redes sociais e resolvi testar por ser profissional da área. Percebi que poderia ser uma ótima opção para quem treina em casa e também para incluir na rotina dos meus alunos de consultoria on-line", afirma.
Para Janaína, a modalidade não é necessariamente mais fácil nem mais difícil do que a academia tradicional. Segundo ela, trata-se de mais uma possibilidade dentro do universo de exercícios físicos. "A intensidade pode ser ajustada de acordo com o nível do praticante, então tudo depende de como o treino é conduzido", explica.
Embora não pratique com frequência suficiente para avaliar resultados a médio ou longo prazo, ela relata perceber respostas imediatas do corpo durante as sessões. "Em uma única prática já notei aumento da respiração, aceleração dos batimentos cardíacos, exigência muscular e gasto de energia. Esses são sinais claros de que o corpo enfrentou uma atividade aeróbia válida", pontua.
A personal acredita que o cardio interativo deve ganhar ainda mais espaço. "As pessoas estão cada vez mais conectadas à tecnologia e muitas preferem treinar em casa, seja por economia de tempo ou por não terem com quem deixar os filhos. É uma opção prática e divertida", diz.
Ela ressalta, no entanto, a importância da orientação profissional. "O ideal é que haja um acompanhamento para escolher vídeos adequados ao nível de cada pessoa e evitar lesões. Como profissional, utilizo os treinos interativos de forma planejada dentro da prescrição de exercícios", conclui.
*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Fernandes
