Na pista, os corpos não pedem licença. Eles ocupam. Desfilam, giram, mergulham no chão em um dip preciso e se levantam como quem reivindica o próprio direito de existir. Cada movimento carrega história. Cada pose carrega memória. A cultura ballroom, que há décadas pulsa como resistência negra e latina, encontrou no Brasil, e especialmente em Brasília, um território fértil para florescer como arte, família, formação política e projeto de futuro.
Nascida nos bailes underground de Nova York, entre as décadas de 1960 e 1980, a ballroom foi criada por pessoas negras e latinas LGBTQIAPN como estratégia de sobrevivência diante da exclusão racial, social e sexual. Expulsas de espaços tradicionais, inclusive dentro da própria comunidade LGBT branca, essas pessoas organizaram uma estrutura própria de sociabilidade. Mais do que uma cena de dança, a ballroom se consolidou como organização comunitária, articulada em casas (houses), categorias e balls — eventos competitivos que produzem reconhecimento, visibilidade e pertencimento.
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As houses funcionam como famílias escolhidas. Há mães, pais, princesas, imperadores, filhos. Títulos que não são apenas simbólicos, organizam cuidado, hierarquia, responsabilidade e formação. As balls, por sua vez, são vitrines de excelência e celebração, em que categorias, que vão da moda à dança, exaltam corpos que, fora dali, muitas vezes são alvo de violência ou apagamento.
Ao atravessar fronteiras e chegar ao Brasil, a cultura ganhou contornos próprios, atravessados por raça, território, desigualdade social e regionalidade. No Distrito Federal, a ballroom ocupa tanto o espaço institucional quanto a rua. Está no câmpus universitário e nas praças da periferia. Está no teatro e no espelho escondido.
Acolhimento e educação
Na Universidade de Brasília (UnB), a Vivência Ballroom completa 10 anos em 2026. O projeto foi criado em 2016 por Legendary Founder Mother Simone DQ Laffond e Legendary Founder Papi Guaja Onijá, à época estudantes e integrantes da House of Caliandra. "A cultura ballroom chega a nós a partir das trajetórias pessoais, seja por amizades, lugares que visitamos, seja por vídeos na internet", explica Ciellen Selene, que hoje integra a gestão ao lado de Caiuá Onijá, Guilherme Macedo, Nico de Abloh e OA Princess Ciel Onijá.
Segundo Ciellen, a inserção da ballroom na universidade ocorreu como projeto de extensão, o que permitiu expandir as atividades para além do câmpus. "Ela se adapta ao contexto da UnB nesse formato, respeitando os fundamentos históricos e políticos da cultura e realizando ações tanto dentro da universidade quanto em espaços da comunidade do DF", afirma. A proposta articula ensino, pesquisa e, principalmente, extensão, por meio de balls, oficinas formativas, rodas de conversa e sessões de cine ballroom. Atualmente, os encontros ocorrem no Núcleo de Dança, próximo ao Instituto de Artes e ao Departamento de Música.
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Para além da performance, viver a ballroom no espaço acadêmico é um gesto político. "Não se limita ao momento da ball", diz Guilherme Macedo. "Fala sobre nossas vidas no dia a dia, sobre formação, empregabilidade, saúde e acesso. É cuidado, construção coletiva e afirmação de existências historicamente marginalizadas." Ele destaca que, dentro da universidade, a ballroom cria redes de apoio e valoriza saberes não hegemônicos, tensionando normas de gênero, raça e classe. "É resistência e é criar nosso próprio lugar de pertencimento."
A dimensão do pertencimento aparece com força na fala de Caiuá Quarela. Para ele, a ballroom produz espaços onde pessoas LGBTQIAPN , especialmente negras, trans e periféricas, podem existir sem a vigilância constante. "Nomeamos nossas identidades, valorizamos nossas trajetórias e reconhecemos nossas potências. Na universidade, isso é essencial para a permanência estudantil e para um estar na academia menos solitário."
Os elementos estruturantes da cultura, houses, categorias e balls assumem papéis complementares nesse processo. "Os encontros em comunidade são os mais potentes para quem está chegando", afirma Ciellen. "É no convívio diário que aprendemos com os mais velhos o que é, como é e por qual motivo é." As houses funcionam como famílias escolhidas, oferecendo orientação e acolhimento. Já as categorias permitem explorar diferentes formas de expressão artística, enquanto as balls se tornam momentos de celebração e visibilidade coletiva. Há ainda quem opte por ser 007 — não integrar uma casa específica, mas fomentar a cultura de forma autônoma.
Pioneirismo na capital
Se na universidade a ballroom ganha contornos institucionais, sua história em Brasília começa muito antes, marcada pela rua e pela resistência cotidiana. A pioneira House of Hands Up surgiu de um coletivo de pessoas LGBTQIAPN que buscava discutir danças de cunho LGBT em um cenário de danças urbanas que não acolhia essas expressões. "Nos reunimos para pesquisar mais sobre waacking, vogue e referências LGBT na dança, e descobrimos a comunidade ballroom", relembra Eduarda Kona Zion, 33 anos, found mother da casa, conhecida na cena como Trailblazer ICON Biological Muva.
Antes mesmo de se afirmarem como house, já existia uma estrutura familiar: figura materna, paterna, irmãos e filhos. Os primeiros treinos ocorriam no espelho d'água escondido do Museu da República, em meio a episódios de transfobia e abordagens policiais. "Ser afeminado, ser bicha, lésbica ou pessoa trans à luz do dia era muito complicado", conta. A busca por espaços seguros foi um dos maiores desafios iniciais, até que, com o tempo, conseguiram estúdios, teatros e salas de ensaio.
Para Eduarda, a house é, antes de tudo, casa. "Precisa ser lugar de conforto, descanso, confiança e sabedoria." A Hands Up chegou a ser também casa física, abrigando membros por noites, meses e anos. Alimentação, formação profissional, acesso a saúde e lazer faziam parte da organização interna. "A gente imagina casa como esse espaço de criação, educação e acolhimento."
O pioneirismo gerou frutos. Muitas pessoas conheceram a ballroom por meio da Hands Up e, depois, fundaram suas próprias casas. "É uma semente plantada que gerou vários frutos", resume Eduarda. Hoje, a cena brasiliense dialoga com outras cidades e integra o mapa latino-americano da ballroom,
com reconhecimento internacional de suas icons.
A dimensão política permanece central. "O simples fato de corpos dissidentes ocuparem a universidade já é político", afirma Guilherme. A presença da ballroom tensiona colonialidades do saber e reafirma a universidade como espaço público e diverso. Ao mesmo tempo, atua como ferramenta de cuidado coletivo. "Às vezes, é o que te faz levantar da cama, alongar o corpo, conversar com pessoas", diz Caiuá. Em um contexto de altos índices de sofrimento psíquico entre estudantes LGBTQIAPN , a vivência constrói redes que reduzem o isolamento. "Não substitui políticas institucionais, mas amplia as possibilidades de acolhimento."
A trajetória de Eduarda sintetiza essa potência. Expulsa de casa aos 16 anos, hoje é reconhecida como icon da cena ballroom brasileira e internacional. "Ser uma travesti de 33 anos, mãe de uma criança de um ano, viva e atuante na cena, já é um legado", afirma. Para ela, o maior legado será ver a filha crescer em uma comunidade que a acolha.
Casas que sustentam a cena
O pioneirismo da Hands Up, criada em 2012, gerou frutos. Muitas pessoas conheceram a ballroom por meio da house e, depois, fundaram outras casas. A cena brasiliense passou a se renovar constantemente, aprendendo com erros anteriores e ampliando acesso à informação e à referência. Hoje, Brasília está no mapa da cena latino-americana e internacional.
Nas praças da Ceilândia, a Casa Abloh começou a se estruturar antes de expandir para outros estados e somar hoje sete capítulos e 33 integrantes. Inspirada na trajetória de Virgil Abloh — estilista negro que ascendeu ao comando criativo de uma das maiores maisons francesas, a Louis Vuitton — a house brasiliense constrói uma narrativa própria: transformar dissidência em luxo e periferia em centro.
"Ser mother é uma maneira de honrar minha criança ancestral", afirma Gabrielle Paju, 25, comunicóloga e liderança da casa. Para ela, ocupar esse posto é devolver à comunidade o acolhimento que um dia recebeu. "É como criar uma família onde antes houve rejeição. A gente transforma sonho em realidade juntas."
Apesar da pista ser o palco dessa cultura, a vida acontece nos bastidores, em almoços coletivos, orientações profissionais, conversas sobre identidade e apoio em momentos de crise. As balls, eventos competitivos em que integrantes disputam categorias que vão da moda à dança, são apenas uma parte dessa engrenagem. "Os corpos dissidentes, negros e trans são exaltados ali. É um protagonismo que muitas vezes nos é negado na vida cotidiana", diz Gabrielle.
Em Brasília, outra house ajuda a sustentar essa rede, as Rattunas. Com 13 anos de atuação na cena, Raio de Sol, 28, ocupa o posto de good mother, uma espécie de madrinha que aconselha, orienta e media conflitos. "A ideia de casa já carrega cuidado. O posto existe porque alguém zela pelo coletivo", explica.
Títulos dentro das houses
As casas se organizam como famílias escolhidas. Entre os principais postos estão:
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Mother/father — Lideranças responsáveis por orientar e cuidar dos integrantes
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Overall mother/father — Liderança geral quando há mais de um capítulo
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Princess/prince — Membros em formação para futuras lideranças
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Imperator/imperatriz — Cargos estratégicos dentro da estrutura da casa
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Good mother — Madrinha que aconselha e fortalece a house
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Icon/legend/pioneer — Títulos honoríficos concedidos a quem marca a história da cena
Como funcionam as performances
As balls são eventos competitivos organizados por categorias que avaliam técnica, criatividade e presença. Entre as principais estão:
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Vogue Femme — Estilo mais performático e fluido, com giros, dips e dramatização corporal
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Old Way — Movimentos geométricos e poses inspiradas em revistas de moda
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New Way — Ênfase em flexibilidade, linhas e precisão
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Runway — Desfile que avalia postura, look e atitude
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Face — Categoria que destaca beleza e expressão facial
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Bizarre — Criatividade extrema em figurino e conceito
Os jurados atribuem notas (os famosos “tens”) e podem conceder o Grand Prize à melhor performance.
Família escolhida, política vivida
A cultura ballroom nasceu nos Estados Unidos, estruturada principalmente por pessoas negras e latinas LGBTQIAPN que foram excluídas de espaços tradicionais de sociabilidade. No Brasil, ela ganha contornos próprios, atravessados por raça, território, migração e desigualdade social.
Para o psicólogo e sexólogo Felipe Medeiro, fundador das clínicas Refúgio e Orgulho e do Instituto Pride, chamar a ballroom de "família escolhida" não é metáfora. "É uma realidade psíquica concreta. Muitas pessoas LGBTQIAPN rompem com suas famílias biológicas e encontram nas
houses o primeiro espaço de pertencimento real", afirma.
Segundo ele, o impacto na saúde mental é significativo. A rejeição familiar está associada a índices mais altos de ansiedade, depressão e o chamado estresse de minoria. "A ballroom organiza aquilo que muitas vezes está fragmentado: identidade, corpo e vínculo. A pessoa não precisa se explicar o tempo inteiro. Ela pode existir."
Essa dimensão protetiva aparece com força nos relatos das lideranças brasilienses. Raio de Sol afirma que o senso de pertencimento costuma ser imediato. "A gente passou a infância ouvindo que não se encaixava em lugar nenhum. De repente, existe um espaço onde querem que você fique."
A house, nesse contexto, funciona como um "nível acima" desse acolhimento. Não é apenas sobre competir em categorias como Vogue Femme ou Runway, mas sobre aprender a escrever projetos, acessar cursos de DJ, costura, maquiagem, dança. "A ballroom gera emprego, profissionaliza, salva vidas", diz Raio.
Esse processo de fortalecimento coletivo também envolve informação e prevenção. Em muitas balls, lideranças reforçam alertas sobre saúde sexual, ISTs e direitos básicos. A proteção histórica a pessoas soropositivas é um dos pilares da cultura.
Amazônia em vogue
Fundada em Belém em 2019, a Casa Maniva nasceu como projeto artístico, político e pedagógico. Hoje, é considerada a casa em funcionamento mais antiga da região Norte. Com capítulos no Pará e em São Paulo, é formada exclusivamente por pessoas nortistas.
Juani Maniva, father da casa e uma das primeiras lideranças da cena na região, define o próprio corpo como "arquivo". "Eu guardo a memória de quando quase ninguém sabia o que era ballroom no Norte. A gente fazia treinos gratuitos, encontros na base da guerrilha", relembra.
Para ele, ser liderança significou aprender enquanto ensinava. "A gente organizava conhecimento ao mesmo tempo em que descobria fundamentos sobre gênero, raça e a própria estrutura da comunidade."
A Maniva articula ballroom com culturas amazônicas. Tecno brega, carimbó, grafismos indígenas, referências ao Festival de Parintins e a estética cabocla aparecem nas performances e nos figurinos. "É interculturalização. A gente coloca a Amazônia na pista", afirma Juani.
Há também uma agenda política explícita: indígena, negra, trans e LGBTQIAPN . Fora do território de origem, como em São Paulo, a casa se entende como coletivo de migrantes. A sobrevivência passa por estratégias de moradia, trabalho e apoio emocional.
Paulo Roberto Souza da Silva, 29 anos, terapeuta ocupacional e integrante do capítulo paulista, encontrou na Maniva um reencontro com o próprio território. Natural de Belém, ele teve seu primeiro contato com a cena em uma ball em São Paulo. "Treinar New Way foi aprender sobre meu corpo, mas também sobre pertencimento. Estar com pessoas do Norte torna tudo mais familiar."
Essa articulação regional levou à criação do movimento NONE — Norte e Nordeste — que busca fortalecer as cenas fora do eixo Sudeste e denunciar apagamentos estruturais. "A ballroom também é atravessada por desigualdades regionais. Precisamos olhar para o que é produzido aqui", afirma Juani.
A expansão nacional da cultura revela uma geração que descobre, muitas vezes já adulta, um universo antes inacessível. "É como encontrar um mundo possível que nos foi negado", diz Juani. "Um lugar onde nossa existência não é erro, é potência."
E é justamente nessa potência que a ballroom se reinventa: como arte, como trabalho, como política e como família — abrindo caminhos que ainda seguem sendo desenhados por quem ocupa a pista e também por quem sustenta a casa fora dela.
*Estagiária sob supervisão de Eduardo Fernandes
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