
Escolher um parceiro parece, à primeira vista, uma decisão guiada apenas por sentimento, afinidade e aquela forte atração. Mas, na prática, essa escolha também é atravessada por fatores sociais como renda, escolaridade, status e até expectativas culturais sobre o papel de homens e mulheres. É nesse contexto que entram dois conceitos pouco conhecidos fora do meio acadêmico, mas bastante presentes no cotidiano: a hipergamia e a hipogamia.
A hipergamia ocorre quando uma pessoa busca ou se relaciona com alguém considerado "acima" em algum aspecto, geralmente financeiro, educacional ou social. Já a hipogamia é o movimento contrário, quando alguém se envolve com um parceiro que ocupa uma posição "inferior" nesses critérios. Embora pareçam apenas classificações teóricas, esses conceitos ajudam a entender padrões que se repetem há décadas nos relacionamentos.
Historicamente, a hipergamia foi mais comum entre mulheres. Isso não acontecia por acaso, mas por uma questão estrutural, pois, durante muito tempo, elas tiveram menos acesso à educação, ao mercado de trabalho e à independência financeira. Nesse cenário, relacionar-se com um homem com mais recursos significava mais segurança e estabilidade. Ao mesmo tempo, consolidou-se a ideia de que o homem deveria ser o provedor, enquanto a mulher era associada a atributos como juventude e beleza.
Com o passar dos anos, esse cenário começou a mudar. Hoje, as mulheres estudam mais, ocupam mais espaços no mercado de trabalho e conquistaram maior autonomia financeira. Como consequência, aumentaram também os casos de hipogamia — relações em que a mulher tem maior renda, escolaridade ou status que o parceiro. Ainda assim, essa mudança não aconteceu de forma completa nem sem conflitos.
Para o filósofo Renato Noguera, é um erro pensar que o amor acontece de forma isolada da sociedade. "As relações amorosas nunca acontecem num campo neutro. As pessoas não se apaixonam fora de condições históricas e sociais", afirma. Segundo ele, fatores como gênero, raça e classe influenciam diretamente não só as escolhas, mas também a forma como as pessoas se percebem dentro de uma relação. Além disso, o filósofo destaca que essas influências não são apenas individuais, mas fazem parte de estruturas simbólicas mais amplas, que ajudam a definir o que é considerado desejável em cada época.
Isso ajuda a entender por que, mesmo com tantas transformações, padrões antigos continuam aparecendo. "Durante séculos, o casamento foi muito mais um arranjo econômico e político do que uma escolha por afeto", explica. Embora o amor romântico tenha ganhado espaço, ele ainda convive com expectativas tradicionais, como a ideia de que o homem precisa sustentar e a mulher precisa corresponder a um ideal estético. Essa lógica se insere em um modelo de relacionamento ainda marcado por padrões cis-heteronormativos, que estabelecem papéis diferentes e complementares para homens e mulheres.
Na prática, isso significa que o amor não é apenas um sentimento espontâneo, mas também algo influenciado por estruturas sociais. Noguera chama atenção para o que define como um "mercado afetivo", em que características como renda, aparência e status funcionam quase como critérios de valor. Conceito que vem sendo discutido em áreas como a antropologia das emoções, a psicologia social e a filosofia, que analisam como os vínculos afetivos também são atravessados por lógicas sociais e culturais. "O desafio é não reproduzir automaticamente esses padrões e construir relações baseadas em reciprocidade, cuidado e liberdade."
As mudanças recentes, principalmente relacionadas à autonomia feminina, trouxeram novas possibilidades, mas também novos desafios. "Vivemos um paradoxo", afirma o filósofo. "Ao mesmo tempo em que há mais liberdade de escolha, padrões antigos continuam operando." Segundo ele, isso acontece porque mudanças estruturais, como maior acesso à educação e independência financeira, não transformam automaticamente a cultura e o imaginário social. Isso tem gerado, segundo ele, um desencontro entre expectativas de homens e mulheres, especialmente em relações heterossexuais.
Dinheiro na relação
Esse desencontro aparece de forma concreta no dia a dia dos casais. Embora o amor pareça um "território livre", fatores como renda e status estão presentes, mesmo que de forma silenciosa. "Eles são convidados ocultos em quase todos os jantares de casal", afirma a psicóloga Alessandra Araújo. "Quando as contas não fecham, ou fecham de forma muito desigual, a dinâmica emocional muda."
Na prática, diferenças de renda ou escolaridade podem criar um desequilíbrio de poder dentro da relação. Segundo a especialista, quem possui mais recursos tende, ainda que de forma inconsciente, a ter a palavra final em decisões, que vão desde escolhas cotidianas até planos de vida. "Isso pode gerar um sentimento de submissão em quem ganha menos e de sobrecarga em quem ganha mais, criando um abismo onde deveria haver parceria", explica.
As relações hipogâmicas, especialmente quando a mulher tem maior renda ou status, ainda enfrentam resistências. "É um tabu silencioso", diz Alessandra. Isso porque muitos homens foram socializados para associar sua identidade ao papel de provedor. Quando essa lógica se inverte, podem surgir inseguranças profundas. "O homem pode se sentir inferiorizado, o que muitas vezes aparece como irritação, queda no desejo sexual ou críticas constantes à parceira, como forma de compensação", afirma.
As diferenças também impactam diretamente a forma como cada um se enxerga dentro da relação. Quem ocupa a posição considerada "inferior" pode desenvolver uma espécie de síndrome do impostor, sentindo que precisa provar o tempo todo que merece estar ali. Já quem tem maior status pode, sem perceber, assumir uma postura paternalista. "Quando um passa a se sentir superior e o outro inferior, a relação deixa de ser entre iguais, e isso afeta até a atração", explica.
Além das dinâmicas internas, a pressão social continua pesando. "Ainda vivemos sob o fantasma do provedor", diz a psicóloga. Homens seguem sendo cobrados a sustentar, enquanto mulheres, mesmo independentes, ainda são incentivadas a buscar segurança em um parceiro. "Uma mulher que sustenta a casa ainda ouve comentários condescendentes. Já um homem que cuida do lar é visto como alguém que fracassou, e não como alguém que fez uma escolha", afirma.
Grande parte dessas escolhas não é totalmente consciente. Desde cedo, referências culturais ajudam a moldar o que é considerado um "bom parceiro". "Somos treinados por filmes, livros e pela própria família a buscar alguém com potencial. O cérebro associa isso à ideia de estabilidade", explica. Ainda assim, esse cenário começa a mudar. "As pessoas estão começando a priorizar mais afinidade emocional e intelectual, mas o filtro do status ainda pesa, principalmente no início."
Para Alessandra Araújo, conceitos como hipergamia e hipogamia continuam atuais, mas estão em transformação. "O discurso hoje é de igualdade, mas, na prática, quando entra dinheiro, sucesso ou divisão de contas, velhos padrões de ego e insegurança reaparecem", conclui.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

Revista do Correio
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