
Uma conversa despretensiosa dentro do Big Brother Brasil 26 foi suficiente para colocar as feiras populares do Distrito Federal no centro das atenções. Ao comentar sobre suas compras de roupas, a participante Chaiany citou com naturalidade a Feira dos Goianos, em Taguatinga, como um de seus principais destinos de consumo, um hábito que rapidamente viralizou nas redes sociais e despertou curiosidade sobre o local.
Não foi a primeira vez que a sister mencionou o local. Em outros momentos do programa, ela afirmou que costuma comprar todas as suas roupas em feiras populares, um hábito que dialoga diretamente com a realidade de milhares de brasileiros.
Nascida em Brasília e criada no Vale do Paranã, em Goiás, Chaiany carrega uma trajetória marcada pela simplicidade e pela relação com o consumo acessível. Adotada por Ceilândia, no Distrito Federal, ela representa um público que encontra nas feiras não apenas preço, mas também identidade.
A repercussão da fala acendeu um holofote sobre espaços que já fazem parte do cotidiano da capital. A Feira dos Goianos, localizada na Avenida Hélio Prates, em Taguatinga Norte, reúne dezenas de galerias e bancas com roupas, calçados, acessórios e eletrônicos a preços acessíveis. Aberta todos os dias, tem na terça-feira seu ponto alto, quando chegam novas mercadorias e todos os galpões funcionam plenamente.
Mas a força desse comércio vai além dos números. Para entender o impacto das feiras na moda e no empreendedorismo local, a reportagem percorreu corredores, conversou com lojistas e acompanhou, na prática, a montagem de looks completos para diferentes ocasiões, tudo dentro da feira.
Moda acessível, mas com identidade
Para muitos comerciantes, trabalhar na feira é mais do que vender, é construir uma marca. É o caso de Solange Neves Teixeira, 45 anos, responsável por uma loja com mais de uma década de história no local, a Elly Store. "Temos loja na Feira dos Goianos há mais de 12 anos. Minha irmã, Antônia Elieide, começou no comércio de roupas há mais de 30 anos, porque sempre gostou de moda desde criança. Ela fazia até roupas para as bonecas", conta.
A proposta da loja é unir tendência e qualidade. "Trabalhamos com alfaiataria premium e modinhas mais sofisticadas. O público gosta de roupas atuais, e o nosso diferencial é justamente a qualidade. Mantemos um mix de produtos com preços acessíveis, mas sem abrir mão do nosso DNA, que é oferecer peças diferentes", explica. Segundo ela, o público é fiel e atento às novidades. "Nossos clientes acompanham tendências, adoram lançamentos e muitos vêm de outras cidades. O que eles buscam é qualidade e preço justo."
A trajetória de Isa Vieira, 43, segue um caminho semelhante, mas com foco em um público mais específico. "Atuo há mais de 15 anos no comércio de moda, trabalhando com peças de alfaiataria e trazendo novidades semanalmente. Nossos produtos vêm principalmente de São Paulo, sempre com foco em oferecer peças diferenciadas e de qualidade", afirma.
Ela explica que o perfil das clientes influencia diretamente na curadoria. "Atendemos um público mais exigente, formado por profissionais como advogadas, jornalistas e pessoas que atuam em ambientes corporativos, que buscam elegância e sofisticação para o dia a dia."
Já no segmento de acessórios, a diversidade também é um diferencial competitivo. "Trabalho na Feira dos Goianos desde 2017. Trabalhamos com bijuterias, e o estilo que as clientes mais gostam são as peças maxi", conta Flávia Paula Dantas, 44, proprietária de uma marca no local.
A adaptação constante às tendências é parte do negócio. "Seguimos as tendências de moda, cores e modelos, mas principalmente o preço. O público sabe que vai encontrar qualidade, bom atendimento e o melhor custo-benefício", destaca. Segundo ela, a feira tem alcance nacional. "Atendemos pessoas de todo o Brasil. Nossos acessórios têm personalidade, qualidade e preço."
Muito além da moda
Entre as araras cheias e os corredores movimentados da Feira dos Goianos, a busca por peças vai muito além do cotidiano. Para alguns clientes, o objetivo é encontrar algo para momentos únicos, como o casamento. É o caso de Ana Luisa Arantes, de 24 anos, estudante de biomedicina, que percorreu a feira acompanhada da mãe e do noivo em busca do vestido ideal para o casamento civil. Frequentadora antiga do espaço, ela explica que a escolha pelo local não é por acaso: "Venho sempre, desde mais nova. Costumo procurar as coisas aqui porque acabam sendo mais em conta. Já conheço os locais, então fica mais fácil".
Mesmo com tantas opções, a decisão exige tempo e atenção. Ana Luisa afirma que encontrou boas possibilidades durante a visita, especialmente em setores mais específicos da feira, mas ainda não bateu o martelo. "Achei muitas coisas boas, principalmente aqui nessa parte, mas ainda não escolhi", diz.
Para especialistas, o crescimento das feiras está diretamente ligado a transformações no mercado de trabalho e no comportamento do consumidor. "As feiras de roupas têm um papel estratégico no fortalecimento do empreendedorismo local e da economia criativa porque ampliam o acesso ao mercado para pequenos produtores e marcas independentes", explica Hannah Salmen, professora de empreendedorismo.
Segundo ela, esses espaços funcionam como porta de entrada para novos negócios. "Elas reduzem barreiras, permitindo que empreendedores testem produtos, validem propostas e construam relacionamento direto com o consumidor. Além disso, contribuem para a circulação de renda e valorizam a identidade cultural", diz.
O modelo também se destaca pela flexibilidade. "Com investimento inicial reduzido e menor risco financeiro, as feiras possibilitam iniciar um negócio de forma mais rápida. Elas funcionam como um ambiente de aprendizado e validação, preparando o empreendedor para uma possível expansão futura."
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
Saiba Mais

Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio