Moda

Após fala no BBB 26, Feira dos Goianos e moda acessível ganham destaque

Impulsionadas por uma fala no BBB, feiras como a dos Goianos e a do Guará mostram que moda acessível também é tendência e negócio

Solange Neves, da Elly Store -  (crédito:   Bruna Gaston CB/DA Press)
Solange Neves, da Elly Store - (crédito: Bruna Gaston CB/DA Press)

Uma conversa despretensiosa dentro do Big Brother Brasil 26 foi suficiente para colocar as feiras populares do Distrito Federal no centro das atenções. Ao comentar sobre suas compras de roupas, a participante Chaiany citou com naturalidade a Feira dos Goianos, em Taguatinga, como um de seus principais destinos de consumo, um hábito que rapidamente viralizou nas redes sociais e despertou curiosidade sobre o local.

Não foi a primeira vez que a sister mencionou o local. Em outros momentos do programa, ela afirmou que costuma comprar todas as suas roupas em feiras populares, um hábito que dialoga diretamente com a realidade de milhares de brasileiros.

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Nascida em Brasília e criada no Vale do Paranã, em Goiás, Chaiany carrega uma trajetória marcada pela simplicidade e pela relação com o consumo acessível. Adotada por Ceilândia, no Distrito Federal, ela representa um público que encontra nas feiras não apenas preço, mas também identidade.

A repercussão da fala acendeu um holofote sobre espaços que já fazem parte do cotidiano da capital. A Feira dos Goianos, localizada na Avenida Hélio Prates, em Taguatinga Norte, reúne dezenas de galerias e bancas com roupas, calçados, acessórios e eletrônicos a preços acessíveis. Aberta todos os dias, tem na terça-feira seu ponto alto, quando chegam novas mercadorias e todos os galpões funcionam plenamente.

Mas a força desse comércio vai além dos números. Para entender o impacto das feiras na moda e no empreendedorismo local, a reportagem percorreu corredores, conversou com lojistas e acompanhou, na prática, a montagem de looks completos para diferentes ocasiões, tudo dentro da feira.

Moda acessível, mas com identidade

Para muitos comerciantes, trabalhar na feira é mais do que vender, é construir uma marca. É o caso de Solange Neves Teixeira, 45 anos, responsável por uma loja com mais de uma década de história no local, a Elly Store. "Temos loja na Feira dos Goianos há mais de 12 anos. Minha irmã, Antônia Elieide, começou no comércio de roupas há mais de 30 anos, porque sempre gostou de moda desde criança. Ela fazia até roupas para as bonecas", conta.

A proposta da loja é unir tendência e qualidade. "Trabalhamos com alfaiataria premium e modinhas mais sofisticadas. O público gosta de roupas atuais, e o nosso diferencial é justamente a qualidade. Mantemos um mix de produtos com preços acessíveis, mas sem abrir mão do nosso DNA, que é oferecer peças diferentes", explica. Segundo ela, o público é fiel e atento às novidades. "Nossos clientes acompanham tendências, adoram lançamentos e muitos vêm de outras cidades. O que eles buscam é qualidade e preço justo."

A trajetória de Isa Vieira, 43, segue um caminho semelhante, mas com foco em um público mais específico. "Atuo há mais de 15 anos no comércio de moda, trabalhando com peças de alfaiataria e trazendo novidades semanalmente. Nossos produtos vêm principalmente de São Paulo, sempre com foco em oferecer peças diferenciadas e de qualidade", afirma.

Ela explica que o perfil das clientes influencia diretamente na curadoria. "Atendemos um público mais exigente, formado por profissionais como advogadas, jornalistas e pessoas que atuam em ambientes corporativos, que buscam elegância e sofisticação para o dia a dia."

Já no segmento de acessórios, a diversidade também é um diferencial competitivo. "Trabalho na Feira dos Goianos desde 2017. Trabalhamos com bijuterias, e o estilo que as clientes mais gostam são as peças maxi", conta Flávia Paula Dantas, 44, proprietária de uma marca no local.

A adaptação constante às tendências é parte do negócio. "Seguimos as tendências de moda, cores e modelos, mas principalmente o preço. O público sabe que vai encontrar qualidade, bom atendimento e o melhor custo-benefício", destaca. Segundo ela, a feira tem alcance nacional. "Atendemos pessoas de todo o Brasil. Nossos acessórios têm personalidade, qualidade e preço."

  • Isa Vieira mantém uma loja homônima na feira dos goianos
    Isa Vieira mantém uma loja homônima na feira dos goianos Bruna Gaston CB/DA Press
  • Flávia Dantas, da Lady Lu Biju
    Flávia Dantas, da Lady Lu Biju Bruna Gaston CB/DA Press
  • Solange Neves, da Elly Store
    Solange Neves, da Elly Store Bruna Gaston CB/DA Press

Muito além da moda

Entre as araras cheias e os corredores movimentados da Feira dos Goianos, a busca por peças vai muito além do cotidiano. Para alguns clientes, o objetivo é encontrar algo para momentos únicos, como o casamento. É o caso de Ana Luisa Arantes, de 24 anos, estudante de biomedicina, que percorreu a feira acompanhada da mãe e do noivo em busca do vestido ideal para o casamento civil. Frequentadora antiga do espaço, ela explica que a escolha pelo local não é por acaso: "Venho sempre, desde mais nova. Costumo procurar as coisas aqui porque acabam sendo mais em conta. Já conheço os locais, então fica mais fácil". 

 16/03/2026 Bruna Gaston CB/DA Press. Feira dos Goianos
Ana Luisa Arantes foi à Feira dos Goianos procurar um vestido de casamento no civil (foto: Bruna Gaston CB/DA Press)

Mesmo com tantas opções, a decisão exige tempo e atenção. Ana Luisa afirma que encontrou boas possibilidades durante a visita, especialmente em setores mais específicos da feira, mas ainda não bateu o martelo. "Achei muitas coisas boas, principalmente aqui nessa parte, mas ainda não escolhi", diz. 

Para especialistas, o crescimento das feiras está diretamente ligado a transformações no mercado de trabalho e no comportamento do consumidor. "As feiras de roupas têm um papel estratégico no fortalecimento do empreendedorismo local e da economia criativa porque ampliam o acesso ao mercado para pequenos produtores e marcas independentes", explica Hannah Salmen, professora de empreendedorismo.

Segundo ela, esses espaços funcionam como porta de entrada para novos negócios. "Elas reduzem barreiras, permitindo que empreendedores testem produtos, validem propostas e construam relacionamento direto com o consumidor. Além disso, contribuem para a circulação de renda e valorizam a identidade cultural", diz. 

O modelo também se destaca pela flexibilidade. "Com investimento inicial reduzido e menor risco financeiro, as feiras possibilitam iniciar um negócio de forma mais rápida. Elas funcionam como um ambiente de aprendizado e validação, preparando o empreendedor para uma possível expansão futura."

Da teoria à prática

Para mostrar que é possível montar produções completas dentro da feira, a equipe da Revista do Correio acompanhou uma ação com a modelo Isabela Chaves e a consultora de imagem Fabiana Mendes. A proposta era simples, criar looks para diferentes ocasiões utilizando apenas peças disponíveis nas bancas.

Clássico 

 

Feira dos Goianos — Revista do Correio
Look 1 Calça de alfaiataria, da Elly Store (R$ 179,90) Camisa Marrom, da Elly Store (R$ 119,90) Brinco, da Lady Lu Biju (R$ 69) (foto: DA Press)

A especialista destacou a versatilidade das escolhas. "Hoje, estou aqui na feira para mostrar que é possível montar inúmeros looks para diferentes ocasiões, conforme a necessidade de cada pessoa. Nesse primeiro, a proposta é um look profissional. A calça de alfaiataria traz mais estrutura, com linhas retas e elegantes. O tom mais claro foi escolhido respeitando a cartela de cores da modelo, enquanto o marrom, que está em alta, valoriza a beleza natural dela", explica.

Fabiana também chama atenção para detalhes que fazem diferença na composição. "A camisa tem uma proposta desconstruída, com elementos que trazem criatividade mesmo em um ambiente mais formal. Existem detalhes, como a manga e o caimento, que fogem do tradicional e dão esse toque de personalidade. O acessório entra justamente para conectar as cores e trazer esse equilíbrio visual", afirma. 

Descontraído

Feira dos Goianos — Revista do Correio
Look 2 Vestido, da Elly Store (R$ 279,90) Brinco, da Lady Lu Biju (R$ 49) Bracelete, da Lady Lu Biju (R$ 49, cada) (foto: Fotos: Bruna Gaston CB/DA Press)

Na sequência, a produção ganhou um ar mais descontraído. "Agora a proposta é um look para a noite, que pode ser usado em um jantar, uma festa ou até em uma balada, dependendo dos complementos. É um vestido mais despojado, com linhas que trazem jovialidade, algo que já faz parte da essência dela", destaca.

A consultora ressalta que a mesma peça pode assumir diferentes propostas ao longo do dia. "Esse vestido permite transitar entre ocasiões. Ele pode ser usado com tênis para algo mais casual, durante o dia, mas também funciona perfeitamente com uma sandália para a noite. É o tipo de peça versátil, que se adapta a diferentes momentos e perfis", explica.

Ela destaca o uso de acessórios como estratégia de styling. "Os acessórios dourados trazem uma leitura mais sofisticada, enquanto elementos como o bracelete podem ser usados de forma funcional e estética, ajustando a peça e valorizando o corpo", afirma.

Versátil

Feira dos Goianos — Revista do Correio
Look 3 Vestido poá, da Isa Viera (R$ 289,90) Brinco, da Lady Lu Biju (R$ 49) (foto: DA Press)

A versatilidade, aliás, é um dos pontos fortes das peças encontradas nas feiras. "O poá, por exemplo, é um clássico que nunca sai de moda, mas agora voltou com ainda mais força. Trouxemos um vestido mais solto, com possibilidades de ajuste na cintura, o que permite valorizar a silhueta", explica.

Ela destaca que a multifuncionalidade das peças é um diferencial importante. "O mesmo cinto pode ser usado de várias formas: na cintura, no pescoço, no cabelo. Também é possível transformar o vestido, deixá-lo mais curto ou adaptar o uso com sobreposições, como blazer, colete ou jaqueta jeans. Isso mostra como uma única peça pode render diversas produções dentro do guarda-roupa", afirma.

Sofisticado

Feira dos Goianos — Revista do Correio
Look 4 Conjunto de tricô (R$ 199,90) Bracelete, da Lady Lu Biju (R$ 89, cada) Brinco, da Lady Lu Biju (R$ 49) (foto: DA Press)

Encerrando a proposta, a consultora apostou em um visual mais sofisticado. "Trouxemos um conjunto monocromático, que alonga a silhueta e transmite elegância. Como é uma composição de cor única, não há quebra visual, o que cria essa sensação de alongamento", explica.

Ela acrescenta que o styling também influencia na percepção do look. "A escolha de prender o cabelo, por exemplo, ajuda a evidenciar o caimento da roupa e reforça essa imagem mais elegante. Os acessórios entram para complementar, sem pesar, mantendo o equilíbrio da produção", afirma.

Para a consultora, a proposta final resume o potencial das feiras. "A ideia é mostrar que existe variedade para todos os estilos dentro da feira, desde produções mais casuais até opções sofisticadas. É possível montar looks completos, atuais e com identidade, utilizando apenas peças disponíveis aqui", conclui.

Tradição que atravessa gerações

Em funcionamento desde 1984 no endereço atual, a Feira do Guará carrega uma história que começa quando nem tinha estrutura fixa. Antes de ocupar o espaço definitivo, o comércio funcionava de forma itinerante, circulando por diferentes pontos da região.

Hoje, a localização estratégica é um dos seus diferenciais. Próxima ao Plano Piloto e conectada a diversas regiões administrativas, a feira é a única do Distrito Federal com estação de metrô na porta, o que facilita o acesso e amplia o alcance do público. Ao longo dos anos, o espaço também passou por melhorias estruturais, com corredores mais amplos e melhor organização das bancas, acompanhando a evolução do próprio comércio.

Mas é na diversidade que a feira sustenta sua força. Entre hortifrutis, eletrônicos, acessórios e roupas, o espaço se transformou em um centro comercial multifacetado. "A feira evoluiu muito", resume Valdinei Lima, presidente da Associação do Comércio Varejista dos Feirantes do Guará (Ascofeg), que acompanha essa trajetória desde a infância.

Assim como em outras feiras da capital, a moda ocupa um lugar central. No caso do Guará, esse protagonismo tem raízes antigas. Valdinei explica que, durante muitos anos, o local foi destino de compradores de outros estados, que vinham abastecer estoques para revenda.

Esse movimento ajudou a consolidar a reputação da feira como polo de moda. A percepção de que roupas de feira são sinônimo de baixa qualidade, segundo ele, não se sustenta na prática. O público, que inclui desde trabalhadores comuns até clientes de embaixadas e órgãos públicos, busca exatamente o equilíbrio entre preço e qualidade.

Mais que clientes, amigos!

A trajetória de Misshad Mohamed ilustra bem essa transformação. Feirante há mais de cinco décadas, ela cresceu acompanhando o comércio familiar, que começou de forma improvisada, com mercadorias expostas em panos no chão, enfrentando sol e chuva. Hoje, com uma loja consolidada, trabalha com roupas de festa, peças sociais e opções para o dia a dia. A experiência de décadas também moldou sua leitura sobre o comportamento do consumidor. "Cada dia é uma coisa", resume, ao falar da variedade de demandas.

 Misshad Mohamed comercializa roupas de festa
Misshad Mohamed comercializa roupas de festa (foto: Giovanna Rodrigues/CB/D.A Press)

Ela menciona, também, a durabilidade das peças que vende. "As pessoas procuram por peças que possam ser usadas várias vezes sem estragar, especialmente vestidos, e aqui na feira é possível encontrar variedade e essa durabilidade."

Para Maria Aparecida Silva, conhecida como Cida Blue Jeans, nome da sua banca, a feira é também um espaço privilegiado para observar o comportamento da moda. Há 24 anos no local, sua trajetória começou cedo, aos 16 anos, como vendedora. Ao longo do tempo, passou por diferentes funções até conquistar o próprio negócio.

 

 Maria Aparecida Silva, da banca Cida Blue Jeans
Maria Aparecida Silva, da banca Cida Blue Jeans (foto: Fotos: Giovanna Rodrigues/CB/D.A Press)

Hoje, trabalha com moda feminina e masculina, acompanhando de perto as preferências do público. Entre os itens mais procurados, ela destaca peças funcionais, como calças para o trabalho, além de tendências recentes, como jeans mais largos, modelos cargo e croppeds básicos. A leitura é clara: a moda da feira acompanha o que está em alta, mas sempre adaptada à realidade do público.

Para ela, o diferencial da Feira do Guará está justamente na combinação entre preço e qualidade. "Aqui você encontra os dois", resume. Ao comparar com o comércio on-line, aponta um fator decisivo, a possibilidade de experimentar. Ver o tecido, testar o caimento e garantir o tamanho correto são vantagens que ainda pesam na decisão de compra.

Na loja Soprano Modas, a vendedora Bruna Ferreira reforça outro aspecto que atravessa diferentes bancas: o atendimento. Com mais de 15 anos de experiência na feira, ela acredita que a relação próxima com o cliente é um dos principais diferenciais em relação a shoppings e compras on-line.

"Não é só vender, é vestir o cliente, é ajudar, estar próximo", explica. A orientação na escolha de peças, a sugestão de combinações e o contato direto criam uma experiência mais personalizada. E transforma a relação comercial. "A gente acaba se tornando amiga da cliente."

A loja oferece uma variedade de peças femininas, que vão do social à moda festa, incluindo opções plus size, segmento que, segundo ela, ao lado das roupas sociais, têm alta demanda, e são mais difíceis de serem encontradas em shopping, com tamanha diversidade e qualidade como ali.

Apesar da força e da tradição, os desafios existem. A queda no movimento, apontada por alguns feirantes, reflete um cenário mais amplo do varejo. Ainda assim, a feira segue se reinventando, apoiada na diversidade de produtos, na fidelização de clientes e na capacidade de adaptação. Mais do que isso, o espaço contribui para a circulação de renda e para o fortalecimento do comércio local. "A feira movimenta a economia", resume Valdinei. Para ele, a relação entre o Guará e sua feira é indissociável. "O Guará sem a feira não existe", afirma. 

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte 

 

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postado em 22/03/2026 00:01 / atualizado em 23/03/2026 12:04
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