Cuiabá — A primeira experiência em Mato Grosso começou à mesa. Logo no café da manhã, na capital mato-grossense, a diversidade de sabores antecipava o que viria pela frente: uma viagem marcada pela identidade local. Entre frutas regionais, bolos e quitutes tradicionais, a canjica chamava a atenção por aparecer fora do calendário das festas juninas, sinal de que, no estado, certos sabores não têm época. Eles fazem parte do cotidiano e ajudam a contar a história de um povo.
Da capital, o roteiro seguiu para o distrito de Varginha, em Santo Antônio do Leverger, cerca de 40km de Cuiabá, onde cultura e tradição ganham forma, som e memória. Reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil desde 2004, a viola de cocho é um dos símbolos mais autênticos da identidade pantaneira. Esculpido em um único tronco de madeira, o instrumento atravessa gerações em manifestações como o cururu e o siriri, cantos e danças tradicionais da região.
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A confecção artesanal da viola é registrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como um saber a ser preservado. Não há duas peças iguais: cada artesão molda o instrumento conforme o braço e a forma de tocar de quem vai utilizá-lo. Antes feitas com cordas de tripas de animais, hoje substituídas pelo nylon, as violas mantêm a sonoridade peculiar que as diferencia — um som fechado, suave, frequentemente descrito como semelhante ao das águas pantaneiras.
No Museu e Espaço Cultural da Viola de Cocho, o visitante conhece de perto o trabalho do mestre Alcides Ribeiro dos Santos, um dos principais guardiões dessa tradição. Descendente de quatro gerações de violeiros e cururueiros, ele aprendeu ainda jovem a transformar troncos em música e fundou o espaço para preservar o saber e transmiti-lo às novas gerações por meio de oficinas e visitas guiadas. Reconhecido como Mestre da Cultura Popular de Mato Grosso desde 2012, Alcides produz violas para músicos e peças decorativas no ateliê mantido pela família, onde o processo de produção pode levar até 10 dias, do entalhe à finalização.
A visita também revela aspectos curiosos da cultura local, como o tradicional "boi à serra", manifestação cultural em que crianças entram na estrutura do boi para participar das danças típicas do carnaval regional. As paredes do espaço são decoradas com pinturas e elementos visuais ligados à viola de cocho, reforçando a importância do instrumento para a identidade do estado.
Outro elemento cultural marcante é o linguajar típico da região, conhecido como cuiabanês, que mistura influências bandeirantes, indígenas e ibéricas. Expressões como "vôte" ou "vôtch", usadas para demonstrar surpresa; "que viga", indicando espanto ou dificuldade; "tcha por Deus", uma exclamação de surpresa ou negação; e "agora quando", expressão de confirmação enfática, refletem a riqueza linguística local e reforçam o sentimento de pertencimento cultural.
Pantanal: natureza em outro ritmo
A próxima parada levou à imensidão do Pantanal, onde a experiência se tornou ainda mais sensorial. Localizada em Barão de Melgaço — município considerado um dos mais pantaneiros do estado, com cerca de 97% de seu território sujeito a áreas alagáveis — a Pousada Rio Mutum oferece turismo ecológico desde 1998, com foco na observação da fauna e na preservação ambiental.
Ali, o contato com a natureza começa cedo. Animais resgatados ajudam a contar a importância da conservação do bioma, enquanto o silêncio do amanhecer é quebrado apenas pelos sons da fauna local. Assistir ao nascer do sol às margens do rio é um convite à contemplação e à percepção de que, no Pantanal, o tempo segue outro ritmo.
Durante a estadia, a vivência pantaneira incluiu uma pescaria de piranhas, atividade tradicional da região, seguida de uma experiência gastronômica igualmente local: o pirão preparado com o próprio peixe. Simples e carregado de significado, o prato traduz a relação histórica entre o homem e o território. À noite, um safari guiado permitiu observar espécies típicas da região, enquanto o jantar regional foi servido em meio ao som constante da natureza.
A pousada também atua como ponto de acolhimento de animais encaminhados por órgãos ambientais, contribuindo para a preservação do bioma. Segundo a proprietária, Alice Galvão do Nascimento, a integração entre turismo e conservação é essencial para a sobrevivência do Pantanal. "O ecossistema é muito sensível. É preciso ocupar o espaço de forma responsável, sem destruir", afirma.
Como chegar e melhor época para visitar
O principal acesso é pelo Aeroporto Internacional Marechal Rondon, em Cuiabá. As passagens de ida e volta custam, em média, cerca de R$ 700 saindo de Brasília ou São Paulo e aproximadamente R$ 800 saindo do Rio de Janeiro, podendo variar conforme a época.
O Pantanal é acessado principalmente por Cuiabá (MT), no Pantanal Norte, ou Campo Grande (MS), no Pantanal Sul.
A melhor época para visitar o Pantanal é a estação seca, de maio a outubro, especialmente entre julho e setembro, quando as estradas ficam mais acessíveis e a observação de animais, como onças-pintadas e jacarés, é mais fácil.
A partir de Cuiabá também é possível chegar facilmente a outros destinos:
- Chapada dos Guimarães: cerca de 65km (aproximadamente 1h de carro).
- Nobres (Vila Bom Jardim): cerca de 15 km (aproximadamente 2h30 de carro).
Nobres: águas cristalinas e empreendedorismo local
No dia seguinte, a viagem seguiu para Nobres, conhecida pelas águas cristalinas e formações naturais impressionantes. Um dos pontos altos foi a flutuação na nascente do Rio Salobra, no Reino Encantado, onde a transparência da água permite observar peixes e vegetação aquática com nitidez rara. A experiência inclui caminhada por trilha de cerrado, com equipamentos fornecidos pelo local e acompanhamento de guias especializados, reforçando o cuidado com a preservação ambiental.
Antes de deixar o município, a viagem incluiu uma parada na queijaria Pé de Queijo, onde o empreendedorismo também se revela parte da experiência turística. Fomos recebidos com uma variedade de degustações e combinações exclusivas, que destacam a produção artesanal da região.
Seu Edmar Trindade, um dos proprietários, explica que o empreendimento familiar, hoje reconhecido como uma das principais queijarias locais, ganhou força após receber consultorias estratégicas do Sebrae, que ajudaram a transformar uma produção doméstica artesanal em um negócio estruturado e em um verdadeiro ponto de turismo gastronômico, assim como vários estabelecimentos na região do Mato Grosso.
O casal Edmar e Sandra Trindade é movido por persistência e coragem, com uma história cheia de desafios. Emocionado, o empreendedor destaca que o apoio técnico recebido foi fundamental para consolidar o negócio e ampliar as oportunidades. A esposa, Sandra, reforça que a família mantém como princípio nunca esquecer as origens, valorizando o trabalho construído ao longo dos anos e a parceria que contribuiu para tornar o sonho realidade.
Entre os sabores apresentados estavam queijos recheados, doces, cuscuz temperado, iogurte natural acompanhado de geleias produzidas no próprio local e outras combinações que valorizam ingredientes regionais, proporcionando uma experiência gastronômica marcante aos visitantes.
Para facilitar que os visitantes levem para casa os sabores típicos de Nobres, o estabelecimento oferece embalagens especiais desenvolvidas para viagens, garantindo a conservação adequada dos produtos durante o trajeto e permitindo que a experiência gastronômica continue mesmo após o retorno.
Chapada dos Guimarães: paisagens que conectam natureza, descanso e contemplação
A última etapa do roteiro levou à Chapada dos Guimarães, destino já conhecido por muitos, onde mirantes naturais oferecem algumas das vistas mais impressionantes do estado. No Mirante Alto do Céu, é possível observar toda a baixada cuiabana, o Rio Cuiabá serpenteando pela paisagem e cidades vizinhas ao horizonte. O local, muito procurado para contemplação do pôr do sol, revela o contraste entre o cerrado, o Pantanal e as formações rochosas da região, criando um cenário que reforça a dimensão natural do território mato-grossense.
Outro destaque é o Complexo da Salgadeira, espaço turístico revitalizado que reúne trilhas, áreas de banho, passarelas elevadas, mirantes e a famosa cachoeira com cerca de 12m de altura, além de áreas de lazer e infraestrutura voltada ao turismo sustentável.
Ao longo do percurso, a viagem deixou claro que o Mato Grosso é rico, e não apenas em recursos naturais. A riqueza está na cultura preservada, na gastronomia que carrega memória, nas histórias de empreendedores locais e na natureza cuidada por quem entende que preservar também é desenvolver. Um turismo que respeita o território e convida o visitante a olhar com mais atenção para tudo o que, muitas vezes, passa despercebido.
Boia cross: aventura nas águas cristalinas
Entre as experiências de contato direto com a natureza, o boia cross se destacou como uma das atividades mais divertidas do roteiro. Em meio às águas transparentes e de correnteza leve, o percurso combina adrenalina e contemplação, permitindo observar a vegetação e a vida aquática ao longo do trajeto, enquanto o visitante é conduzido naturalmente pelo fluxo do rio.
Durante a atividade, também chamou atenção um casal de viajantes que percorre o Brasil a bordo de um motorhome e se apresenta como Dupla Coragem, transformando a estrada em estilo de vida. Para eles, destinos como Nobres representam a essência do turismo de natureza no país.
Edgar e Loiva contam que decidiram viajar após a aposentadoria. “A gente se aposentou e, em vez de continuar trabalhando, resolveu viajar, porque o camping permite conhecer os lugares de forma mais completa. Aqui a estrada é bastante movimentada, mas tranquila; o asfalto é bom, as rodovias estão ótimas e os passeios são excelentes. Para nós, está sendo uma maravilha, é exatamente o que gostamos: muita natureza. Em todos os lugares encontramos apoio, o povo é hospitaleiro e não temos medo das pessoas. Os mato-grossenses são muito acolhedores”, relatam.
O casal destaca que Nobres é um destino que todos deveriam conhecer e recomenda ainda o Rio Teles Pires, especialmente para quem aprecia a pesca. Segundo eles, a possibilidade de viver experiências autênticas, longe dos roteiros tradicionais, foi o principal motivo que os levou a adotar a vida sobre rodas. A passagem pelo Mato Grosso, afirmam, entrou para a lista de destinos inesquecíveis justamente pela combinação entre hospitalidade, paisagens preservadas e atividades ao ar livre.
A jornalista viajou a convite do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas)
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