O câncer colorretal, também conhecido como câncer de intestino, está entre os tumores mais frequentes no Brasil e tem despertado preocupação entre especialistas. Embora historicamente mais comum em pessoas acima dos 50 anos, estudos recentes indicam um aumento significativo de casos entre adultos mais jovens, o que reforça a necessidade de atenção aos fatores de risco, aos sintomas e ao diagnóstico precoce.
Parte desse crescimento pode estar relacionada a mudanças no estilo de vida da população nas últimas décadas. Hábitos alimentares menos saudáveis, sedentarismo, consumo de álcool e tabagismo estão entre os fatores que podem contribuir para o desenvolvimento da doença. Com isso, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que o Brasil deve registrar cerca de 45,6 mil novos casos de câncer colorretal por ano.
Segundo o coloproctologista Hélio Moreira Júnior, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, esse cenário tem sido observado em diferentes faixas etárias. “O aumento no número de casos de câncer colorretal traz grande preocupação. Essa tendência ocorre de forma uniforme em todas as idades, inclusive entre pessoas mais jovens, e pode estar relacionada especialmente aos hábitos de vida e alimentares da população”, explica.
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Quando diagnosticado precocemente, no entanto, o câncer colorretal apresenta altas chances de cura e tratamentos menos complexos. O oncologista Márcio Almeida, membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, destaca que o acompanhamento médico e a investigação de sintomas persistentes são fundamentais. “Quando o câncer colorretal é detectado em fases iniciais, ele frequentemente pode ser tratado apenas com cirurgia, com altas taxas de cura. Em alguns casos muito precoces, a remoção do pólipo durante a colonoscopia já pode ser suficiente”, afirma.
Por outro lado, quando a doença é identificada em estágios mais avançados, o tratamento tende a ser mais complexo e pode envolver diferentes abordagens terapêuticas. “O plano de tratamento do câncer colorretal é definido a partir de uma avaliação individualizada, considerando o estágio da doença, as características biológicas do tumor, a localização da lesão e o estado geral de saúde do paciente”, acrescenta o oncologista.
Sinais de alerta
Diarreia ou prisão de ventre que não passam, ou diarreia alternada com prisão de ventre
Presença de sangue vermelho vivo ou fezes muito escuras (aspecto de piche), sendo um dos primeiros sinais
Fezes afiladas, finas ou em formato de fita, indicando possível obstrução
Dores, cólicas, gases frequentes ou sensação de inchaço (distensão abdominal)
Necessidade de evacuar mesmo após já ter ido ao banheiro
Perda de peso inexplicada, cansaço excessivo, fraqueza, anemia e perda de apetite
Fatores de risco
Após os 50 anos, o risco aumenta significativamente
Consumo elevado de carne vermelha (boi, porco, carneiro) e processados (salsicha, presunto, bacon, linguiça)
Pouca ingestão de vegetais, frutas e grãos integrais
Sedentarismo e obesidade
Álcool e tabagismo
Histórico pessoal de pólipos adenomatosos ou de outros tipos de câncer
Histórico familiar de câncer colorretal ou síndromes hereditárias (Síndrome de Lynch, Polipose Adenomatosa Familiar — FAP)
Retocolite ulcerativa crônica ou doença de Crohn
Predominância
Localização mais comum: o cólon sigmoide é o local único mais frequente, representando cerca de 33% a 55% dos tumores de cólon. O reto é a segunda localização mais comum.
Cólon esquerdo (Distal): tumores do lado esquerdo (incluindo sigmoide, descendente e reto) são mais frequentes que os do lado direito, representando cerca de 75% das obstruções colorretais.
Câncer colorretal direito (Proximal): inclui o ceco e cólon ascendente, representando de 20% a 23,3% dos casos
Diferença de lado
Lado esquerdo: Frequentemente se apresenta com constipação, sangue nas fezes e mudanças no hábito intestinal.
Lado direito: tende a ser diagnosticado mais tardiamente, com sintomas como anemia e perda de peso, muitas vezes com tumores exofíticos (crescem para fora).
Rastreamento
Colonoscopia: recomendada a partir dos 45 anos para a população geral, permitindo a remoção de pólipos antes que virem câncer.
Indivíduos com histórico familiar de câncer ou doenças inflamatórias intestinais devem iniciar o rastreamento mais cedo.
Prevenção
Manter o peso adequado, evitar o sedentarismo e não fumar.
Priorizar alimentos in natura, ricos em fibras (frutas, vegetais, grãos) e evitar carnes processadas (salsicha, bacon, presunto).
Tratamento
Cirurgia: base do tratamento, visando a remoção do tumor e, frequentemente, dos linfonodos próximos. Pode ser realizada via laparoscopia ou robótica, oferecendo maior precisão.
Quimioterapia: utilizada antes da cirurgia, para reduzir o tumor, ou depois, para eliminar células remanescentes, sendo comum em casos mais avançados.
Radioterapia: mais frequente no tratamento do câncer de reto para reduzir o tumor antes da cirurgia.
Terapia-alvo e imunoterapia: medicamentos específicos que atacam células cancerígenas com menos danos às células saudáveis.
Procedimentos paliativos: em estágios avançados, tratamentos como ablação e embolização podem ser usados para controlar sintomas
Palavra do Especialista
Quando diagnosticado precocemente, quais são as chances de cura e como isso impacta no tipo de tratamento indicado?
Quando detectado em fase localizada, as taxas de sobrevida em cinco anos ficam em torno de 90% em bases populacionais, o que na prática traduz uma chance maior de cura. Em muitos casos iniciais, o tratamento pode ser predominantemente cirúrgico, com menor necessidade de quimioterapia, menor risco de colostomia definitiva e maior chance de procedimentos menos invasivos, com recuperação mais rápida.
O que muda no tratamento quando o câncer colorretal é diagnosticado bem no começo, em comparação a quando ele já está mais avançado?
Quando descobrimos cedo, o tratamento costuma ser mais simples e com maior chance de cura. Muitas vezes, uma cirurgia para retirar o segmento do intestino em que está o tumor já resolve, e em casos bem selecionados, quando é uma lesão muito superficial, pode até ser possível remover pela própria colonoscopia, sem uma grande cirurgia. Quando a doença é descoberta tardiamente, o tratamento geralmente precisa ser combinado. Além da cirurgia, pode ser necessário fazer quimioterapia e, nos tumores do reto, com bastante frequência entra radioterapia para reduzir o risco de retorno e melhorar o controle local. Se a doença já se espalhou para gânglios, ou para outros órgãos, como fígado ou pulmão, o foco passa a ser um plano mais amplo, com tratamentos sistêmicos. Em alguns casos, estratégias para controlar a doença por mais tempo e, quando possível, buscar cura em situações selecionadas.
Pessoas sem histórico familiar também precisam se preocupar? Em que situações o rastreamento deve começar mais cedo?
A maioria dos casos é esporádica, ou seja, acontece mesmo sem história familiar clara. O rastreamento deve começar mais cedo, e com estratégia individualizada, quando há maior risco, por exemplo:
- Parente de primeiro grau com câncer colorretal, especialmente se diagnosticado jovem, ou mais de um familiar afetado.
- Suspeita ou confirmação de síndrome hereditária.
- Doença inflamatória intestinal de longa data.
- História pessoal de pólipos avançados ou câncer prévio.
- Presença de sinais e sintomas sugestivos, mesmo antes da idade de rotina.
Danilo Munhóz é coloproctologista
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