Especial

No centro do cinema: Brasília como cenário de filmes e produções especiais

Com cenas filmadas em Brasília, o longa O agente secreto chega ao Oscar 2026 com quatro indicações e reacende o interesse pelo papel da capital como cenário e personagem no cinema brasileiro

Planejada para ser o centro político do país, Brasília também se tornou, ao longo das décadas, um cenário singular para o cinema e a televisão. A capital brasileira aparece em produções nacionais e internacionais como paisagem monumental, espaço político ou palco de histórias pessoais que atravessam superquadras, avenidas largas e horizontes abertos. Mais do que pano de fundo, a cidade frequentemente assume um papel simbólico nas narrativas, traduzindo contradições do país e revelando novos imaginários sobre o Distrito Federal.

Desde sua inauguração, em 1960, Brasília desperta o interesse de fotógrafos, documentaristas e cineastas. A arquitetura modernista, os grandes vazios urbanos e a relação intensa com o céu e o horizonte criam imagens pouco comuns em outras cidades brasileiras. Para quem filma, a capital oferece linhas geométricas, perspectivas amplas e uma luminosidade característica do Planalto Central.

Um dos exemplos mais recentes desse fascínio cinematográfico é o filme O agente secreto. O longa brasileiro dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura ganhou destaque internacional ao receber quatro indicações ao Oscar 2026: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Seleção de Elenco. A premiação ocorre neste domingo, a partir das 19h30.

No longa, algumas cenas exibem prédios icônicos da área central de Brasília ao fundo, como os edifícios Morro Vermelho e Camargo Corrêa. Projetados em 1974 pelo arquiteto João Filgueiras Lima, ambos têm 16 andares e abrigam, principalmente, escritórios de arquitetura e bancos.

Os prédios não foram alterados para as filmagens. Para recriar a atmosfera da época retratada no filme, apenas os carros que aparecem nas cenas foram substituídos por modelos antigos. O resultado reforça a ideia de que a própria cidade, com sua arquitetura preservada e suas linhas modernistas, já funciona como uma espécie de cenário natural.

A presença de Brasília em produções de destaque internacional não é inédita. O documentário Democracia em vertigem, dirigido por Petra Costa e disponível na Netflix, foi indicado ao Oscar de 2020 na categoria de Melhor Documentário. A obra acompanha o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff, além de discutir a polarização política e as transformações recentes da democracia brasileira. Nesse contexto, a capital surge como cenário direto das disputas institucionais que moldaram o país nas últimas décadas.

A cidade vista por quem filma

Para realizadores que cresceram na capital, filmar Brasília é também um exercício de memória e pertencimento. O cineasta José Eduardo Belmonte, 55 anos, diretor de O pastor e o guerrilheiro, destaca a relação pessoal com os espaços da cidade.

"Filmar em Brasília foi um exercício curioso de distância e afeto. Eu morei ali muitos anos e caminhei muito pela cidade, então existe uma memória física muito forte dos lugares. Brasília é uma cidade que se revela para quem anda", destaca Belmonte, que também dirigiu A concepção e Carcereiros. 

O cineasta afirma que a estrutura urbana da capital cria possibilidades visuais muito particulares. "Brasília tem uma qualidade cinematográfica muito particular. A arquitetura do Niemeyer e o desenho urbano de Lucio Costa criaram uma espécie de cenário permanente. Linhas muito claras, horizontes amplos, uma sensação de escala que, às vezes, é monumental e, às vezes, profundamente humana."

Ao mesmo tempo, o diretor aponta que filmar na cidade exige cuidado com a escala. "O principal desafio é justamente essa escala. Brasília é muito aberta. As distâncias são grandes, os eixos são imensos, e isso pode engolir um filme se você não tomar cuidado", ressalta. 

Entre os lugares que considera mais cinematográficos, Belmonte cita o Eixão. "O Eixão sempre me fascinou. É uma avenida que atravessa a cidade inteira e que parece não ter fim", diz. Para ele, esse tipo de espaço ajuda a construir imagens que dificilmente seriam possíveis em outras capitais brasileiras.

Novas gerações e novos olhares

Entre os jovens realizadores da capital, há também uma busca por ampliar as narrativas sobre Brasília e mostrar aspectos menos explorados da cidade. A estudante de audiovisual da Universidade de Brasília Helena Versiani, 21, acredita que a cidade influencia diretamente a forma como seus habitantes criam histórias.

"Eu acho que a cidade em que a gente vive, em que a gente cresce, com certeza, é uma coisa que nos molda muito, porque impacta todo o nosso cotidiano, todo o nosso modo de vida, nosso jeito de falar, as nossas referências", afirma. 

Para ela, o cinema produzido na capital ainda tem muito espaço para explorar novas perspectivas. "Muitas vezes esses filmes gravados aqui se resumem a esses pontos mais 'emblemáticos, mais turísticos de Brasília'."

No curta-metragem Um gosto assim, produzido durante a graduação, Helena decidiu seguir um caminho diferente. A proposta do filme foi explorar lugares que fazem parte do cotidiano dos moradores da cidade, mas que raramente aparecem nas produções audiovisuais.

Entre os cenários escolhidos estão a Água Mineral e a Birosca, espaço cultural localizado no Conic. "A Água Mineral me interessa por ser um lugar de lazer onde pessoas de diferentes idades e partes do DF se encontram", reflete. 

Segundo ela, o objetivo do curta era justamente mostrar uma Brasília mais cotidiana e menos monumental. "A gente sempre vê muito os prédios famosos e os cartões-postais, mas existe uma Brasília muito viva nos lugares de encontro, de lazer e de convivência."

A jovem realizadora também cita outros espaços que poderiam aparecer mais nas telas, como a Nicolândia, a Prainha a caminho do Paranoá e galerias comerciais de Taguatinga. "Esses lugares têm muita vida e muitas histórias acontecendo ao mesmo tempo. Acho que o cinema poderia olhar mais para esses espaços."

Minervino Júnior/CB/D.A.Press - Helena Versiani no espaço Birosca no Conic, local em que a estudante de audiovisual gravou o curta Um gosto assim

Cerrado como cenário

Outro estudante de audiovisual que também investiga novas formas de representar a capital é Angelo Pignaton, 25. Em seus trabalhos, ele busca explorar a relação entre paisagem, memória e identidade regional. Em 2023, ele realizou o curta-metragem Aves coloridas, premiado no 22º Festival Brasileiro de Cinema Universitário (FBCU) e na 20ª Mostra do Filme Livre.

Angelo reforça que o Cerrado e a geografia do Planalto Central também contribuem para a identidade visual do cinema local. "Considero o Cerrado especialmente cinematográfico. Os campos vastos, o horizonte amplo, a vegetação baixa. É um lugar especial de se filmar."

Ele destaca que a paisagem aberta da região cria imagens diferentes das encontradas em outras capitais brasileiras. "Eu acredito que a vastidão do Planalto faz com que o horizonte se torne mais amplo no DF. É uma característica geográfica que não se encontra em qualquer lugar."

Nos projetos que desenvolve durante a graduação, Angelo tem buscado experimentar diferentes linguagens visuais e narrativas. Alguns de seus trabalhos já circularam em mostras e festivais estudantis, o que, segundo ele, ajuda a fortalecer a produção audiovisual universitária da cidade.

Para o estudante, o ambiente acadêmico desempenha um papel importante nesse processo. "A universidade cria um espaço em que a gente pode testar ideias, experimentar formatos e contar histórias que talvez não encontrassem oportunidade em produções maiores."

Arquivo pessoal - Angelo Pignaton, estudante de audiovisual da Universidade de Brasília

A cidade que parece cenário

Para muitos realizadores, Brasília possui uma estética naturalmente cinematográfica. A arquitetura modernista, os espaços abertos e o contraste entre monumentalidade e cotidiano criam imagens únicas. Para a professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília Rose May Carneiro, a própria concepção da cidade já carrega um elemento narrativo.

“Brasília é a cidade mais nonsense (sem sentido, em tradução livre) do Brasil e isso é um elogio altíssimo. Alguém resolveu botar uma capital no meio do nada, do Cerrado seco, longe de tudo, e ainda assim fez isso com uma elegância que intimida. Você chega aqui e a primeira coisa que pensa é: que filme é esse? A parada de ônibus parece cenário. O céu não tem tamanho. Tem uma luz aqui às cinco da tarde que não deveria existir numa cidade real. Brasília não parece real. E é exatamente por isso que ela é um presente para qualquer pessoa com uma câmera na mão”, afirma. 

A arquitetura modernista projetada por nomes como Oscar Niemeyer e o urbanismo idealizado por Lucio Costa influenciam diretamente a forma como a cidade é filmada. Ainda assim, Rose May observa que muitas produções acabam focando apenas nos edifícios mais famosos. 

“A arquitetura aqui é tão bonita que a câmera gruda nela e não larga. Aí o diretor acha que fez um filme sobre Brasília, mas fez um filme sobre parede curva. O que ninguém filma, e que eu acho muito mais interessante, é o espaço entre os edifícios”, evidencia a professora da UnB. 

A pesquisadora destaca que o cotidiano da cidade também guarda elementos cinematográficos. “O pilotis com o banco de cimento que ninguém sabe exatamente de quando é. A jardineira que sobrou de outro século e continua ali porque ninguém teve tempo de trocar. Brasília guarda os anos 1960 dentro dela de um jeito distraído, sem querer, e isso é muito mais cinematográfico do que qualquer coisa que Niemeyer desenhou de propósito.”

arquivo pessoal - Rose May Carneiro, professora doutora da Faculdade de Comunicação da UnB

A política como imagem dominante

A presença das principais instituições do país também influencia a maneira como Brasília aparece nas telas. Não por acaso, imagens do Congresso Nacional e da Esplanada dos Ministérios tornaram-se um recurso recorrente em filmes e séries.

“Você precisa dizer que o personagem é poderoso, joga uma imagem do Congresso, resolve. Precisa dizer que o Brasil está mal, Esplanada de noite, vento, câmera lenta. Entendo o recurso, mas já enjoei”, afirma Rose May Carneiro.

Para ela, existem outros espaços da cidade que poderiam representar melhor a diversidade brasileira. “O que ninguém usa, e deveria usar urgentemente, é a Rodoviária do Plano Piloto. É o lugar mais honesto de Brasília. Ali, tem o Brasil inteiro, às seis da manhã, organizado numa fila que ninguém mandou organizar. Isso diz mais sobre esse país do que qualquer plano aberto de palácio.”

O cineasta e professor da UnB João Lanari concorda que a política sempre esteve presente na cinematografia ligada à capital. “Brasília é um marco na arquitetura, para o bem e para o mal. É a cidade mais filmada do Brasil, se levarmos em conta os cinejornais diários, que cobrem o poder com a cidade no pano de fundo.”

Lanari lembra que produções já exploraram essa relação desde os primeiros anos da capital. Um exemplo é o filme Amor e desamor, dirigido por Gerson Tavares em 1966, que utiliza Brasília como cenário para um drama existencialista.

Quando a cidade vira personagem

Em algumas produções, a capital vai além do cenário e assume um papel ativo na narrativa. Um dos exemplos mais conhecidos é o filme Eduardo e Mônica, dirigido por René Sampaio. Inspirado na canção homônima da banda Legião Urbana, o longa retrata o romance entre dois jovens brasilienses nos anos 1980. A história, que nasceu da imaginação do compositor Renato Russo, ganhou vida nas telas com Gabriel Leone no papel de Eduardo e Alice Braga interpretando Mônica.

No filme, a cidade aparece como uma presença constante. Locais emblemáticos ajudam a reconstruir o clima cultural e afetivo da época. Entre eles está o Parque da Cidade Sarah Kubitschek, citado na famosa frase da música: “se encontraram no Parque da Cidade, a Mônica de moto e o Eduardo de camelo”.

Outro cenário que aparece na produção é o Teatro Nacional Claudio Santoro, um dos marcos arquitetônicos da capital. A produção também utilizou locações como a Superquadra Sul 308 e o Setor Militar Urbano.

Janine Moraes/Divulgação - 2022. Crédito: Janine Moraes/Divulgação. Cultura. Cena do filme 'Eduardo e Mônica', de René Sampaio, com Alice Braga e Gabriel Leone.

Um polo cinematográfico em construção

Com um dos festivais de cinema mais tradicionais do país, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, além de universidades e escolas de audiovisual, a capital tem potencial para se consolidar como um polo de produção cinematográfica. Para João Lanari, o cenário é promissor. “Tem muito potencial, dada a quantidade de pessoas qualificadas para fazer cinema.”

Rose May Carneiro reforça que a cidade reúne condições favoráveis para produções audiovisuais. “Olha, o festival de cinema mais antigo do Brasil é aqui. A UnB forma gente boa há décadas. Tem dinheiro público para produção, tem locação de graça em cada esquina, tem uma cidade que é esteticamente generosa com qualquer câmera.”

Para a pesquisadora, o principal desafio é olhar para a cidade com mais liberdade criativa. “Os melhores filmes que já vi sobre Brasília foram feitos por pessoas que cresceram aqui e um dia decidiram que a cidade delas merecia ser filmada sem pedir desculpa. Sem tentar parecer Rio, sem tentar parecer São Paulo. Brasília do jeito que ela é.”

Assim, entre palácios monumentais, superquadras silenciosas, rodoviárias cheias e horizontes infinitos, Brasília continua sendo um cenário aberto para o cinema e, ao mesmo tempo, uma personagem em constante transformação.

Mercado Filmes/Filipe Duque - José Eduardo Belmonte com Túlio Starling e Julia Dalavia nas gravações de O pastor e o guerrilheiro

Filmes gravados em Brasília para assistir

Conterrâneos velhos de guerra (1992) — Documentário de Vladimir Carvalho que resgata a história dos trabalhadores que vieram de diferentes regiões do país para construir Brasília.

Branco sai, preto fica (2014) — Dirigido por Adirley Queirós, mistura ficção científica e documentário para discutir racismo estrutural e violência policial na periferia do Distrito Federal.

A concepção (2005) — Longa de José Eduardo Belmonte que acompanha uma juventude inquieta e existencialista na capital.

Insolação (2009) — Filme de Felipe Hirsch e Daniela Thomas que transforma Brasília em um espaço quase onírico, próximo da ficção científica.

O sonho não acabou (1982) — De Sérgio Rezende, retrata a primeira geração de jovens brasilienses após a construção da cidade.

Brasília 18% (2005) — Thriller político dirigido por Nelson Pereira dos Santos que utiliza a atmosfera seca da capital como parte central da narrativa.

Bye bye Brasil (1979) — Clássico de Cacá Diegues que inclui passagens marcantes pela região de Brasília durante a jornada da Caravana Rolidei pelo país.

O homem do Rio (1964) — Produção internacional estrelada por Jean-Paul Belmondo que registrou a capital ainda em construção, transformando o cenário de barro vermelho em parte da aventura.

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Janine Moraes/Divulgação - 2022. Crédito: Janine Moraes/Divulgação. Cultura. Cena do filme 'Eduardo e Mônica', de René Sampaio, com Alice Braga e Gabriel Leone.