Comportamento

Agachada ou em pé? O jeito certo para mulheres fazerem xixi em banheiro público

Posição de agachamento em banheiros públicos pode impedir o esvaziamento completo da bexiga e aumentar o risco de infecção urinária, além de contribuir para a sujeira dos sanitários

"Eu nunca faço xixi em pé. Prefiro limpar o vaso de um banheiro público com papel higiênico e me sentar a urinar em pé ou ficar agachada, porque sei que isso pode me trazer menos malefícios", conta a estudante de medicina Luciana (nome fictício), de 22 anos. E, ao contrário do que muitos imaginam, ela está certa. Especialistas ouvidos pelo Correio afirmam que urinar em pé em banheiros públicos não é a opção mais segura.

A bióloga Mari Krüger, formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e conhecida nas redes sociais por desmistificar informações sobre saúde e ciência, explica que o risco de sentar-se em um vaso sanitário de banheiro público é muito baixo. No entanto, ela afirma que tentar urinar sem encostar no vaso, equilibrando-se em uma posição de agachamento, pode ser prejudicial.

Segundo a especialista, nessa posição, o corpo não relaxa completamente o assoalho pélvico. Com isso, a bexiga não se esvazia totalmente. "Mesmo que pareça que toda a urina foi eliminada, pode restar um pequeno volume dentro da bexiga. Esse ambiente favorece a proliferação de bactérias e aumenta o risco de desenvolver infecção urinária", explica.

Divulgação - Mari Krüger ficou conhecida por desmistificar produtos da indústria de bem-estar e combater a desinformação em saúde e ciência nas redes sociais

A bióloga alerta que, em alguns casos de infecção urinária recorrente, esse hábito pode ser um dos fatores envolvidos e até causar outras questões. "Manter frequentemente essa posição de equilíbrio pode, ao longo do tempo, sobrecarregar e enfraquecer o assoalho pélvico, contribuindo para problemas futuros, como escapes de urina ao tossir, espirrar ou realizar algum esforço físico", acrescenta.

O médico Ricardo Ferro, coordenador da Urologia do Hospital Brasília e mestre e doutor em urologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, explica que, quando a mulher urina em pé ou faz o chamado "agachamento suspenso" sobre o vaso, os músculos das pernas, dos glúteos e do assoalho pélvico permanecem contraídos para sustentar o peso do corpo. Essa contração compete com a ação do músculo detrusor, responsável por expulsar a urina. "É como tentar abrir uma porta enquanto alguém a empurra do outro lado", compara.

Embora não "crie" bactérias, a presença de urina residual favorece a proliferação bacteriana. "Se a bexiga não é totalmente esvaziada porque os músculos estavam tensionados, o risco de desenvolver infecção urinária  aumenta significativamente", afirma o urologista.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia, a infecção urinária é mais comum entre mulheres e pode acometer cerca de 50% das mulheres sexualmente ativas entre 20 e 40 anos. O problema também é frequente em mulheres idosas, devido à redução dos níveis de estrogênio após a menopausa. Além disso, a doença apresenta um alto índice de recorrência: até 30% das mulheres podem voltar a apresentar infecção urinária em até seis meses após o primeiro episódio.

No Distrito Federal, foram registrados 1.628 atendimentos relacionados à infecção do trato urinário de localização não especificada em 2025, de acordo com a Secretaria de Saúde. Desse total, 1.351 ocorreram em pacientes do sexo feminino. Ao todo, 1.505 atendimentos foram realizados na atenção primária à saúde.

Banheiro limpo para todos

A estudante de arquitetura Fátima (nome fictício), de 23 anos, conta que sofre com infecção urinária recorrente e, por isso, evita urinar em pé, dando preferência à posição sentada. Ainda assim, diz enfrentar outro problema frequente: as condições dos banheiros em bares e festas.

"O grande problema é que muitas mulheres acreditam que podem contrair alguma doença apenas por se sentarem no vaso sanitário. Então fazem as necessidades em pé e acabam urinando sobre o assento. Quando eu — ou qualquer outra pessoa — vou usar o banheiro depois, o vaso está todo molhado e sujo", reclama.

A bióloga Mari Krüger afirma que, se mais pessoas tivessem consciência de que urinar sentado é a melhor opção, os banheiros públicos tenderiam a ficar mais limpos. "Muitos banheiros públicos ficam sujos justamente porque algumas pessoas urinam em pé, o que provoca respingos no assento. Isso faz com que outras pessoas evitem sentar, criando um ciclo que mantém o banheiro sujo", explica.

Para ela, a mudança de hábito também é importante para garantir acessibilidade. "Pessoas idosas, com deficiência ou com mobilidade reduzida, muitas vezes, não têm a opção de evitar sentar para usar o banheiro", lembra. Por isso, a especialista defende que bares,

restaurantes e outros espaços públicos incentivem esse comportamento por meio de orientações ou campanhas de conscientização. "Uma frase que resume bem essa ideia é: se todo mundo sentar, ninguém precisa urinar em pé", sugere.

Ela ressalta que, quando a pele está íntegra — sem cortes ou feridas —, o simples contato com o assento do vaso sanitário dificilmente causará algum problema, já que a pele funciona como uma barreira eficiente contra microrganismos. "Durante o dia, tocamos diversas superfícies potencialmente contaminadas e, ainda assim, raramente desenvolvemos doenças por esse motivo", afirma.

Em concordância, o infectologista André Bon, coordenador de Infectologia do Hospital Brasília e head de Infectologia da Rede Américas, explica que, embora superfícies úmidas e mal higienizadas possam favorecer a proliferação de algumas bactérias e a persistência de vírus, o contato com o assento do vaso sanitário não é o principal mecanismo de transmissão de patógenos.

"Uma medida simples é passar papel higiênico para secar o assento antes de sentar, caso ele esteja molhado. Quem preferir pode usar álcool em gel ou lenços higienizantes. Mas, de modo geral, secar o assento e sentar já é suficiente. Depois, ao chegar em casa, tomar banho também ajuda a manter a higiene", orienta Mari Krüger.

Lavar as mãos

O infectologista André Bon destaca que o principal risco em banheiros públicos não está no contato com o assento do vaso, mas nas mãos. Segundo ele, ao acionar a descarga com a tampa aberta, pode se formar uma nuvem de aerossóis capaz de dispersar microrganismos pelo ambiente, atingindo superfícies como torneiras, pias, botões de descarga e maçanetas. Ao tocar nesses locais e não higienizar as mãos corretamente, o risco de infecção aumenta.

A bióloga Mari Krüger reforça que lavar as mãos ao sair do banheiro é uma das medidas mais importantes para a prevenção de doenças. "Essa prática tem comprovação científica na redução da transmissão de microrganismos, pois evita que eles sejam levados das mãos para a boca, o nariz ou os olhos", explica.

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