
Muitas vezes confundido com obesidade e retenção de líquido, o lipedema é uma doença caracterizada por inflamação crônica, que provoca acúmulo desproporcional de gordura na região do quadril, das coxas e das pernas e, em alguns casos, nos braços. Além disso, a condição é genética, com forte influência hormonal e inflamatória, e acomete quase exclusivamente mulheres, especialmente devido às mudanças hormonais associadas a fases como puberdade e gravidez. Diante disso, especialistas asseguram que o tratamento do lipedema é multidisciplinar e deve ser individualizado, com acompanhamento nutricional, terapias físicas e exercícios específicos.
Nesse contexto, a cirurgiã vascular Cristienne Souza explica que, diferentemente da obesidade, em que a gordura pode se acumular de forma global, no lipedema ela tende a se concentrar nos membros e no quadril, poupando pés e mãos. Além disso, a condição costuma ser resistente a dietas comuns e exercícios rotineiros, o que dificulta o controle apenas com medidas convencionais. "No lipedema, a paciente emagrece no rosto e no tronco, mas os membros afetados continuam volumosos e doloridos."
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No consultório, o diagnóstico é essencialmente clínico. "Não existe exame de sangue que aponte o lipedema. Realizamos uma anamnese detalhada e o exame físico, que inclui a palpação da textura da gordura e a verificação de pontos de dor", afirma a cirurgiã. Durante a consulta, também pode ser realizado o ultrassom dermatológico, que ajuda a avaliar o comprometimento dos tecidos e medir a espessura do tecido subcutâneo. Além disso, o ecodoppler venoso pode ser solicitado para avaliar a circulação, que pode estar comprometida. Em alguns casos, outros exames também são indicados para descartar doenças associadas, a depender dos achados clínicos.
Uma vez diagnosticado, o tratamento é voltado para estratégias que reduzam a inflamação e melhorem a qualidade de vida. Somam-se a isso terapias físicas complexas e tecnologias que atuam na circulação, na inflamação, nas fibroses e no contorno corporal. Nos casos mais avançados, a cirurgia pode ser indicada. "A lipoaspiração específica para lipedema, quando bem indicada e realizada por equipe experiente, pode reduzir o volume, aliviar sintomas e melhorar a mobilidade", destaca Cristienne.
O impacto da doença vai muito além da estética, afetando diretamente a autoestima dos pacientes, que, muitas vezes, lidam com frustração por não verem resultados mesmo com dieta e exercício, além da incompreensão sobre o próprio corpo. A sensação de desproporção, somada à dor e às limitações físicas, pode gerar insegurança e impactar a relação com a própria imagem. Para melhorar o bem-estar no cotidiano, Cristienne recomenda o controle da inflamação por meio da alimentação, sono regular e manejo do estresse, destacando, ainda, que acolhimento, informação de qualidade e suporte profissional fazem toda a diferença na jornada desses pacientes.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
Sintomas
- Aumento desproporcional de gordura em pernas, quadril e, em alguns casos, braços
- Dor ao toque e sensibilidade nas áreas afetadas
- Sensação de peso constante nos membros
- Facilidade para hematomas, mesmo sem batidas aparentes
- Inchaço no decorrer do dia, que pode piorar com longos períodos em pé
- Dificuldade de emagrecimento nas regiões afetadas, mesmo com dieta e exercício
- Aspecto irregular da pele, semelhante à celulite
- Progressão gradual, com aumento do volume ao longo do tempo
Diagnóstico
O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico, ou seja, feito a partir da avaliação do médico. Durante a consulta, são analisados o histórico da paciente, os sintomas e as características do corpo, além da realização do exame físico, que inclui o toque na região afetada para identificar dor, sensibilidade e alterações na textura da gordura. Exames de imagem, como o ultrassom dermatológico, podem ser utilizados como complemento para avaliar o tecido subcutâneo e auxiliar na confirmação, além de descartar outras doenças. O ecodoppler venoso também pode ser solicitado para avaliar a circulação e identificar possíveis alterações associadas.
Tratamento
- Alimentação anti-inflamatória:ajuda a controlar o processo inflamatório associado à doença
- Acompanhamento nutricional:orienta a dieta e auxilia no controle do peso
- Meias de compressão:melhoram a circulação e reduzem o inchaço e o desconforto
- Atividade física:exercícios de baixo impacto, como caminhada, natação e musculação, ajudam na mobilidade e nos sintomas
- Terapias físicas:técnicas que estimulam a circulação e auxiliam na redução da dor e da fibrose
- Cirurgia:em casos mais avançados, a lipoaspiração específica para lipedema pode reduzir o volume e melhorar a qualidade de vida
Canetas emagrecedoras
Medicamentos injetáveis utilizados para emagrecimento, conhecidos como “canetas emagrecedoras”, podem até ajudar na perda de peso geral, mas não tratam o lipedema. Esses fármacos atuam principalmente no controle do apetite e do metabolismo, promovendo redução de peso de forma global, e não localizada, enquanto a gordura do lipedema tem características inflamatórias e comportamento diferente da gordura comum, sendo mais resistente. Além disso, o uso sem acompanhamento médico não é recomendado, pois pode causar efeitos colaterais como náuseas, dor abdominal e alterações gastrointestinais, e, em alguns casos, gerar frustração, já que o corpo emagrece de forma desigual, mantendo o volume nos membros afetados.
Aparência de celulite
O lipedema pode ser confundido com celulite devido ao aspecto irregular da pele, com ondulações e aparência de “casca de laranja”. No entanto, enquanto a celulite é uma alteração estética comum, o lipedema é uma doença crônica, que envolve dor, sensibilidade e acúmulo anormal de gordura.
Diferença entre linfedema e lipedema
Apesar de semelhantes à primeira vista, linfedema e lipedema são condições diferentes. O linfedema é causado por uma falha no sistema linfático, levando ao acúmulo de líquido e inchaço, geralmente assimétrico e que pode atingir pés e mãos. Já o lipedema envolve acúmulo de gordura inflamada, é geralmente simétrico e costuma poupar essas extremidades. Além disso, o lipedema está associado à dor e à sensibilidade, o que nem sempre ocorre no linfedema.
Palavra do especialista
Treinos intensos ajudam ou pioram o lipedema? Por que exercícios de alto impacto podem aumentar dor, inchaço e hematomas?
O exercício físico é um dos pilares do tratamento do lipedema, especialmente quando associado à dieta, à perda de peso e à fisioterapia. Ele ajuda a distribuir melhor a gordura no corpo, aumenta a massa muscular e contribui para elevar o gasto energético, além de reduzir a resistência à insulina. No entanto, quando realizado de forma muito intensa, pode piorar os sintomas, já que o corpo da paciente com lipedema apresenta inflamação crônica e alterações na drenagem venosa e linfática. Isso favorece o acúmulo de ácido lático, aumentando a dor, o inchaço e a formação de hematomas, além de gerar sobrecarga nas articulações, que muitas vezes já estão fragilizadas.
Qual é o tipo de atividade física mais indicado para quem tem lipedema e qual a importância do acompanhamento profissional nesses casos?
As atividades físicas mais indicadas são as de baixo impacto, como caminhada, musculação leve a moderada, pilates, ioga e exercícios na água, como natação e hidroginástica. Esses exercícios ajudam no retorno venoso e linfático, reduzem o inchaço, auxiliam no controle da dor e melhoram a mobilidade. O acompanhamento profissional é fundamental para adaptar os treinos às limitações de cada paciente, evitar sobrecarga e garantir mais segurança e eficácia no tratamento.
Qual a importância do acompanhamento multidisciplinar (médico, nutricional, físico e psicológico) no tratamento da doença?
O acompanhamento multidisciplinar é essencial no tratamento do lipedema, pois a doença envolve diferentes aspectos do organismo e da qualidade de vida. O médico é responsável pelo diagnóstico e pela condução clínica; o nutricionista atua no controle da inflamação por meio da alimentação; o profissional de educação física orienta a prática adequada de exercícios; e o suporte psicológico pode ser importante diante do impacto emocional da doença. Esse cuidado integrado permite um tratamento mais completo e melhores resultados a longo prazo.
Herik Oliveira, cirurgião vascular pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), da clínica Angioven
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